Em entrevista exclusiva, José Prado, sócio do Machado Meyer, detalha a sofisticada operação da Atlas Renewable Energy e analisa o apetite do capital estrangeiro para o setor elétrico em 2026.
O mercado de energia renovável no Brasil e na América Latina atravessa um momento de maturação financeira. Mais do que viabilizar a construção de novas usinas, o desafio atual dos grandes players reside na “reciclagem de capital”: a capacidade de refinanciar ativos operacionais para liberar balanços e impulsionar novos investimentos.
Recentemente, a Atlas Renewable Energy concluiu uma operação emblemática que unificou dívidas em 11 jurisdições distintas, estabelecendo um novo padrão de complexidade e eficiência jurídica. Para entender os bastidores dessa estruturação e as perspectivas para o crédito de infraestrutura em 2026, conversamos com José Prado, sócio da área de Infraestrutura e Energia do Machado Meyer Advogados.
Com o apoio dos advogados Beatriz Vassilieff Martins, Matheus Wassano Ishigaki e Gabriel Beretta de Oliveira Mattos, Prado analisa nesta entrevista o papel dos bancos internacionais, a mitigação de riscos cambiais via PPAs em dólar e como as métricas ESG deixaram de ser burocracia para se tornarem decisivas no custo do capital.
Cenário Energia – A operação envolve 11 jurisdições distintas. Do ponto de vista da estruturação jurídica, qual foi o maior desafio para harmonizar as garantias de ativos brasileiros com as legislações do Chile e México em uma única cesta de colaterais? Como essa unificação impacta a gestão de caixa e a flexibilidade operacional da geradora em comparação a financiamentos segregados por país?
José Prado – Considerando que a Atlas possui um escopo de atuação com projetos em operação em diversos países, o refinanciamento das dívidas existentes nos projetos da Atlas com a consolidação das dívidas em um único contrato de financiamento regido por lei estrangeira foi um aspecto inovador para a companhia. Por meio do refinanciamento, foi desenhada uma estrutura unificada e consolidada em um contrato de financiamento único para todas as jurisdições. Dessa forma, além de otimizar a estrutura jurídico-contratual, a companhia acaba tendo maior flexibilidade e eficiência.
O pacote de garantias, por sua vez, por estar majoritariamente atrelado a ativos dos projetos, continuou segregado por jurisdição, especialmente porque cada uma costuma ter requisitos legais específicos para fins de formalização e base legal. Neste quesito, em relação ao Brasil, foi realizada uma avaliação comercial do pacote de garantia do financiamento anterior, de forma que algumas garantias reais que já faziam parte da estrutura foram aproveitadas para o refinanciamento e outras novas foram incluídas de acordo com essa estrutura unificada de contrato de financiamento.
Agora, em termos de coordenação com as outras jurisdições, foi necessária uma força-tarefa para que as condições precedentes relacionadas tanto ao pacote de garantia, quanto a outras condições locais, fossem cumpridas em todas as jurisdições para garantir o sucesso do processo de fechamento e desembolso.
Cenário Energia – A presença de players como BNP Paribas, Santander e MUFG em uma operação desta grandeza sinaliza uma mudança no perfil de risco Brasil/Latam. Como o escritório avalia a competitividade desse capital internacional frente às debêntures de infraestrutura brasileiras? O mercado de crédito bancário estrangeiro voltou a ser a primeira opção para grandes portfólios de geração limpa?
José Prado – Temos visto a presença de instituições financeiras estrangeiras importantes em projetos de energia no Brasil e projetos de magnitude como esse e outros que conduzimos, reforçam essa presença crescente e o apetite estrangeiro no Brasil. A presença de um grupo como a Atlas e sponsors deste calibre com certeza trazem um diferencial grande na análise de crédito interna e viabilidade do projeto pelos bancos credores. Nesse sentido, entendemos que o mercado de crédito estrangeiro deverá permanecer aquecido no setor de geração de energia limpa bem como outros setores de infraestrutura no Brasil, apesar das incertezas políticas e geopolíticas em 2026.
Ainda assim, as debêntures tradicionais e de infraestrutura no Brasil continuam sendo um mecanismo importante de funding – temos visto também uma crescente demanda no mercado de capitais brasileiro por esse tipo de projeto, sendo que a emissão de debêntures de infraestrutura ou outros tipos de valores mobiliários de dívida continuam sendo uma alternativa importante para projetos de geração distribuída, por exemplo, ou outros tipos de projeto de energia limpa com caráter mais local, como é o caso da geração hidrelétrica.
No Book de Empreendimentos de Minas e Energia 2026 publicado pelo Governo Federal, já há mais de R$ 1 trilhão em investimentos mapeados no país, com potencial adicional de R$ 4 trilhões até 2035. Então, as expectativas estão altas e, seja via capitalização estrangeira ou local, há players prontos para aplicar o capital e financiadores dispostos.
Cenário Energia – Estamos observando uma transição de foco: do financiamento de construção (Greenfield) para a otimização de ativos operacionais. Qual a importância estratégica de operações de refinanciamento desta magnitude para liberar o balanço das empresas? Esse movimento é o motor que viabilizará a próxima onda de investimentos em novas usinas e tecnologias de armazenamento?
José Prado – Em um contexto de taxa SELIC alta, principalmente no Brasil, o refinanciamento representa uma ferramenta essencial de gestão financeira. Esse mecanismo é intensificado para o setor de energia renovável, que, por sua natureza, possui uma necessidade importante de capex e uma gestão firme de custos operacionais, principalmente em cenários de curtailment e expectativa nacional de modernização da rede de distribuição.
De forma geral, temos visto o apetite dos sponsors tanto em projetos brownfield e greenfield. Sobretudo no caso das geradoras eólicas e solares, o desenho da estratégia tem sido bastante criativo: desde buscar investimentos em outras fontes – como as hidrelétricas –, a instalação de baterias, até a possível utilização da energia excedente do curtailment em datacenters. Essa última tendência é particularmente relevante considerando a crescente demanda por infraestrutura digital e as discussões acerca do REDATA.
Cenário Energia – O comunicado menciona uma “sofisticação crescente” nas garantias. Poderia detalhar o que há de inovador nesta estrutura, como o uso de step-in rights complexos ou mecanismos de mitigação cambial, que pode servir de benchmark para outros grandes players de renováveis que buscam consolidação de dívida na região?
José Prado – A estrutura de garantias da operação inclui garantias sobre ações de algumas das entidades brasileiras que permitem o exercício de step-in rights, sujeito às limitações da lei brasileira, dentre outras garantias reais usuais para projetos desta magnitude. Um aspecto relevante para a mitigação do risco cambial em operações de energia renovável diz respeito aos contratos de compra e venda de energia (PPAs) indexados em dólar, estrutura que permite o repagamento direto, por meio dos PPAs, de financiamentos denominados nessa moeda, nos termos da legislação aplicável.
Vale destacar que o programa Eco Invest Brasil tem desempenhado papel relevante nesse contexto, estruturando quatro sub-linhas (blended finance, liquidity facility, fomento à proteção cambial e estruturação de projetos) que, por meio de leilões competitivos, catalisam capital privado acoplado a proteção de volatilidade cambial, reduzindo significativamente o custo de financiamento em setores específicos, incluindo o de transição energética.
Cenário Energia – Atualmente, o jJurídico em energia é muito mais do que conformidade contratual; é gestão de risco reputacional e climático. Como o endurecimento das métricas ESG pelos bancos financiadores alterou a diligência prévia e a alocação de riscos nos contratos de longo prazo nos últimos 5 anos? Existe algum critério de sustentabilidade nesta operação que foi decisivo para o fechamento do spread?
José Prado – Nos últimos anos, as métricas de ESG ainda consistem em um benchmark bastante relevante na avaliação de crédito por bancos financiadores de projetos de energia renovável, influenciando diretamente a análise de risco de crédito e as condições comerciais de financiamento. O grupo Atlas possui uma diretriz ESG bastante sólida e robusta, adotando um padrão internacional de adoção de melhores práticas; desta forma, isso traz ainda mais segurança aos bancos credores.
De forma geral, a integração ESG em project finance evoluiu significativamente: instrumentos vinculados a metas como no caso de emissão de valores mobiliários como os Sustainability-Linked Bonds (SLBs), ou os Sustainability-Linked Loans (SLLs), por meio do qual é ajustado o spread da dívida conforme KPIs ambientais e sociais. Para completar e garantir a aplicabilidade real das métricas, a tecnologia tem avançado com ferramentas de IA aplicadas ao monitoramento contínuo de cumprimento de contratos e compliance ESG em tempo real.
Cenário Energia – Após o sucesso desta operação com a Atlas, o Machado Meyer vislumbra um movimento de “consolidação de passivos” por outras geradoras ainda este ano? O mercado está pronto para uma padronização regional de financiamentos de energia, ou o Brasil ainda demanda uma estruturação muito isolada devido às suas particularidades regulatórias?
José Prado – Parece fazer sentido que haja uma tendência de padronização para players inseridos no setor de energia renovável e com perfil organizacional semelhante ao da Atlas. A unificação por meio do refinanciamento de diversas dívidas de projetos específicos em escala internacional, como a realizada pela Atlas, pode vir a trazer diversos benefícios não só para o grupo econômico da devedora como também para os financiadores. Essa estrutura trouxe benefícios significativos, mas também uma complexidade inerente, ressaltando a necessidade de atenção às particularidades jurídicas, estruturais e de mercado de cada país.
Nesse contexto, a mensagem central para 2026 no mercado de project finance é de adaptação estratégica: combinar camadas de mitigação pública e privada, incorporar métricas ESG verificáveis, digitalizar fluxos e documentação e redesenhar contratos para absorver novos riscos operacionais, cambiais e de interconexão. O resultado tende a ser uma base de capital mais sofisticada, com custo ajustado ao risco e maior resiliência dos projetos. O Brasil, em particular, tem avançado em estruturas híbridas (blended finance), combinando recursos públicos e privados, o que deve facilitar futuras operações de consolidação semelhantes.



