O Brasil que disse não a Trump, e não disse sim à China

Por Eric Fernando Boeck Daza, especialista em energia e mudanças climáticas

O Brasil fechou acordos estratégicos na Ásia e evitou alinhamentos automáticos com Washington. A posição de força é real. O que ainda falta é transformá-la em cadeia industrial.

A semana em que o subsolo virou política externa

A transição energética tem um lado visível — turbinas, painéis solares, carros elétricos e um lado que raramente aparece nas manchetes: a disputa por quem controla os insumos que tornam tudo isso possível. Em fevereiro de 2026, essa disputa ficou explícita para o Brasil. Em poucos dias, o país passou do status de promessa geológica ao de peça cobiçada numa engrenagem em que geologia virou segurança econômica.

No dia 21 de fevereiro, Brasil e Índia assinaram um acordo formal de cooperação em minerais críticos e terras raras. O documento é revelador já na escolha do foco: não fala em cotas, volumes ou exclusividade. Fala de processamento, reciclagem, uso de tecnologia avançada na exploração e transferência de conhecimento. É o desenho de uma parceria para construir capacidade e não um contrato para vender rocha.

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Dois dias depois, em Seul, o Brasil elevou as relações com a Coreia do Sul ao status de Parceria Estratégica e assinou um plano de cooperação que conecta minerais estratégicos diretamente ao mundo da manufatura avançada: semicondutores, baterias, veículos elétricos, hidrogênio. Não é coincidência: a Coreia do Sul é uma potência industrial em chips e baterias e, ao mesmo tempo, depende fortemente de suprimento mineral externo. Para Seul, minerais críticos não são commodity, são seu seguro para a sua indústria.

Enquanto isso, Washington acelerou sua agenda de segurança em cadeias de minerais críticos, combinando coordenação diplomática e instrumentos de financiamento para diversificar o suprimento fora de cadeias muito concentradas. O Brasil participou dessas conversas com pragmatismo: coopera onde interessa, evita comprometimentos que limitem sua margem de manobra com outros parceiros.

E então veio o paradoxo mais revelador da semana: no mesmo período, a Corporação Financeira de Desenvolvimento dos EUA (DFC) fechou um financiamento de US$ 565 milhões com a Serra Verde, produtora de terras raras em operação comercial no Brasil, em Minaçu (Goiás), com possibilidade de participação acionária minoritária. Ou seja: mesmo sem adesão a nenhum bloco, o capital estratégico americano já está no país e chegou com objetivos claros.

A diplomacia brasileira sabe distinguir autonomia de isolamento. A pergunta é se o país sabe transformar essa distinção em indústria.

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O que o mundo enxerga e o Brasil ainda não precificou

O mundo está procurando duas coisas ao mesmo tempo: diversificação de oferta e capacidade de processamento fora de cadeias concentradas. O Brasil é atraente porque combina escala geológica com a possibilidade de associar mineração a uma matriz elétrica limpa e a um parque industrial que, apesar do contexto atual, ainda existe e pode atender essa expansão.

O país figura entre os maiores detentores de reservas de terras raras do mundo e tem posição dominante em minerais como o nióbio. Há também um movimento objetivo de capital: projeções do setor indicam um ciclo de investimentos até 2030 com crescimento concentrado justamente nos minerais associados à transição: lítio, grafita, níquel, terras raras, cobre. A estrutura do dinheiro que está chegando está mudando, e isso é um dado, não uma promessa.

A boa memória histórica aqui funciona como alerta. O Brasil aparece há décadas nas estatísticas globais como potência de recursos e, ao mesmo tempo, é notoriamente ausente nos elos que definem poder real na cadeia: refino, ligas metálicas, ímãs permanentes, materiais para baterias. O velho roteiro é conhecido: exportar concentrado e importar o produto sofisticado. A transição energética só trocou o vocabulário do problema.

É por isso que, nesta semana, o que importa não é o mapa do subsolo. O que importa é o mapa da cadeia.

Por que a Índia e o que a Coreia muda no jogo

A escolha da Índia como parceiro formal em minerais críticos é mais inteligente do que parece à primeira leitura. A Índia não é apenas um comprador atrás de matéria-prima. É uma potência emergente construindo sua própria cadeia industrial verde, reduzindo vulnerabilidades de suprimento e desenvolvendo capacidade tecnológica em processamento, exatamente o elo em que o Brasil também é frágil. Os dois países estão, por caminhos diferentes, diante do mesmo problema: como subir a cadeia num mundo em que o processamento virou o centro de gravidade do poder.

O acordo com a Índia aponta nessa direção: cooperação técnica, modernização de exploração, estímulo a iniciativas conjuntas. É o tipo de parceria que só faz sentido se virar capacidade instalada e portanto, se virar projeto.

A Coreia do Sul adiciona uma camada ainda mais decisiva: ela já está na fronteira da manufatura avançada. Semicondutores, baterias, componentes de energia, onde os minerais podem virar produto de alto valor agregado. Ao conectar minerais estratégicos ao mesmo pacote de integração produtiva e tecnológica, Seul sinaliza o que quer: segurança de suprimento com previsibilidade, e parceria que proteja a sua indústria de choques.

O que une os dois acordos é que ambos falam de processamento, o elo que o Brasil não tem. Índia oferece escala e urgência para codesenvolver capacidade; Coreia do Sul oferece acesso a cadeias industriais de ponta. O Brasil aporta recursos e pretende impor uma condição: parte relevante da industrialização precisa ocorrer no seu território. Se essa arquitetura funcionar, é uma rota incomum para o Sul Global. Se não funcionar, será mais uma rodada de memorandos com boa fotografia e pouco legado.

O paradoxo americano e o xadrez chinês

A China não domina minerais críticos porque tem as maiores reservas. Domina porque construiu, ao longo de décadas, capacidade industrial e controle sobre etapas críticas do processamento. É essa assimetria que transforma reservas em poder de barganha real. E é exatamente aí que o Brasil é vulnerável: pode ter o que o mundo quer e, ainda assim, ser tomador de preço e dependente de tecnologia alheia.

A resposta americana foi coordenação internacional, financiamento estratégico, instrumentos para resiliência de cadeias, ou seja, uma tentativa de reduzir essas vulnerabilidades fora das cadeias mais concentradas. Do ponto de vista brasileiro, há um risco evidente nesse modelo: em muitos arranjos, países produtores acabam empurrados para o papel de fornecedores de insumos, enquanto o valor fica onde o processamento e a manufatura acontecem.

É aqui que o não-alinhamento se torna insuficiente como estratégia: quem não controla o processamento acaba refém de quem controla. Abrir portas para múltiplos parceiros é inteligente; não ter uma posição clara sobre o que se quer de cada um é uma lacuna que o mercado vai preencher por conta própria, e não necessariamente nos termos do Brasil.

A corrida que não espera por Brasília

Há um risco concreto que raramente aparece nos comunicados oficiais: a assimetria de velocidade entre o capital internacional e o Estado brasileiro. Investidores e compradores tendem a fechar contratos de offtake, desenhar joint ventures e tomar posições acionárias em meses. Políticas públicas e marcos regulatórios, em geral, caminham em anos.

Há sinais claros de que esse descompasso já está em curso. Mineradoras que operam no Brasil, muitas delas de capital estrangeiro, listadas em bolsas internacionais, não dependem do avanço legislativo para tomar decisões. E sem uma posição clara do Estado sobre contrapartidas de industrialização, tendem a seguir a lógica mais imediata: extrair, exportar, capturar margem onde o processamento existe.

Se o Brasil quiser que a condição de industrialização seja mais do que slogan, precisa criar uma ponte entre esses dois tempos. Não uma lista de promessas, uma combinação de projetos âncora em processamento com financiamento em escala e previsibilidade regulatória que dê ao investidor privado razões para instalar capacidade no Brasil, não apenas extrair aqui e processar em outro lugar.

O país tem instrumentos: bancos públicos com capacidade de fomento, parque de engenharia que pode ser reconectado, universidades que já fazem pesquisa aplicada em materiais. O que ainda falta é coerência entre discurso diplomático e velocidade de execução.

Posição de força não é estratégia

O Brasil entrou no tabuleiro dos minerais críticos e isso é novo e importa. Até pouco tempo, o país era convidado para discussões sobre o tema; agora, parceiros vêm negociar com urgência. Essa posição de força é real e foi construída com competência diplomática.

O risco é confundir posição de força com estratégia. Reservas não produzem soberania industrial. Processamento produz. E se o Brasil não for rápido em capturar etapas críticas da cadeia, a transição energética repetirá o padrão histórico com outra embalagem: minério sai barato, valor volta caro.

Se a semana dos acordos com Índia e Coreia do Sul significa algo além de fotografia, ela precisa deixar rastro verificável ainda em 2026: projetos âncora de processamento em execução, financiamento público com escala compatível ao que o capital privado está colocando, e compromisso explícito de contrapartidas tecnológicas em cada parceria assinada.

O mundo já decidiu que precisa do subsolo brasileiro. O que falta decidir é se o Brasil quer ser fornecedor de insumos ou sócio da próxima cadeia industrial. Porque o relógio não está em Brasília. Está nos contratos.

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