Eólica e solar batem recorde global, mas países ricos perdem protagonismo na transição energética

Pipeline mundial de projetos atinge 4,9 TW em 2025, com liderança concentrada em economias emergentes; Brasil figura entre os sete maiores mercados prospectivos

O pipeline global de projetos de energia eólica e solar em escala utilitária alcançou um novo recorde em 2025, ao atingir 4,9 terawatts (TW) em capacidade anunciada, em pré-construção ou em construção. Apesar do avanço expressivo das fontes renováveis, a expansão não está sendo liderada pelas economias mais ricas do mundo, mas sim por países emergentes, segundo nova análise do Global Energy Monitor (GEM).

Na comparação com 2024, a capacidade prospectiva cresceu 11%, saltando de 4,4 TW para mais de 4,9 TW. O dado confirma a aceleração global da transição energética, mas também evidencia uma mudança estrutural no eixo de liderança do setor, cada vez mais concentrado fora do grupo das economias avançadas.

China consolida hegemonia e amplia distância

A China aparece como principal vetor da expansão global. O país abriga atualmente 448 gigawatts (GW) de projetos eólicos e solares em construção, o equivalente a cerca de metade de toda a capacidade global em obras. Além disso, sua capacidade operacional combinada dessas duas fontes já supera 1,6 TW, três vezes maior do que a soma de seus competidores mais próximos, Estados Unidos e Índia.

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O ritmo chinês reflete uma estratégia industrial e energética integrada, que combina planejamento centralizado, cadeias produtivas domésticas consolidadas e forte direcionamento de investimentos públicos e privados para infraestrutura de geração renovável.

Brasil entre os líderes da nova geografia energética

O Brasil também se destaca na nova geografia da transição energética. Com 401 GW de capacidade prospectiva em projetos eólicos e solares de grande porte, o país figura entre os sete maiores mercados globais, ao lado de China, Índia e Filipinas.

O desempenho brasileiro reforça a atratividade do país para investimentos em renováveis, sustentada por fatores como elevada disponibilidade de recursos naturais, ambiente regulatório relativamente estável e maturidade do mercado de geração centralizada.

Ao lado do Brasil, a Índia soma 234 GW e as Filipinas 146 GW em capacidade prospectiva, consolidando o protagonismo das economias emergentes na expansão das fontes limpas.

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Economias ricas ficam para trás

Apesar de concentrarem cerca de metade da riqueza mundial, os países do G7 respondem por apenas 11% da capacidade prospectiva global de energia eólica e solar em escala utilitária. O pipeline combinado dessas economias permanece praticamente estagnado em torno de 520 GW desde 2023, evidenciando uma crescente assimetria entre discurso climático e implementação efetiva.

A análise do GEM indica que, enquanto os mercados emergentes aceleram projetos e ampliam sua participação no setor, as economias avançadas enfrentam gargalos regulatórios, resistência social, entraves de licenciamento e incertezas políticas que limitam a velocidade de expansão.

A mudança de protagonismo é sintetizada por Diren Kocakuşak, analista de pesquisa do Global Energy Monitor, que avalia que “energia eólica e solar estão crescendo em velocidade vertiginosa, e grande parte desse impulso vem de países que antes eram vistos como seguidores energéticos”. Para o pesquisador, “a questão agora é se os países mais ricos vão reduzir a lacuna entre ambição e execução, ou ceder liderança neste setor em expansão”.

Solar distribuída ganha peso estratégico

Além dos grandes projetos centralizados, a análise do GEM também destaca o avanço acelerado da geração solar distribuída. O Global Solar Power Tracker passou a registrar quase 900 GW de capacidade operacional nesse segmento, que desempenha papel crescente na transição energética.

Segundo estimativas da Agência Internacional de Energia (IEA), aproximadamente 42% da capacidade solar existente e prospectiva no mundo já é distribuída, o que reforça sua relevância para o cumprimento da meta global de triplicar a capacidade de energias renováveis até 2030, compromisso firmado na COP28, da ONU.

China, Índia e Brasil novamente aparecem entre os dez principais países em capacidade solar distribuída em operação, indicando que a liderança das economias emergentes se estende também aos modelos descentralizados de geração.

Implicações para a transição energética global

Os dados do Global Energy Monitor revelam que a transição energética global está avançando em volume, mas não de forma homogênea. A concentração do crescimento em países emergentes sugere uma reorganização estrutural do poder energético, com impactos diretos sobre cadeias industriais, fluxos de capital, políticas climáticas e competitividade tecnológica.

Ao mesmo tempo, o baixo dinamismo das economias avançadas coloca em risco o cumprimento das metas globais de descarbonização, especialmente considerando que esses países seguem sendo responsáveis por parcela relevante das emissões históricas e atuais de gases de efeito estufa.

Nesse cenário, o protagonismo brasileiro reforça a posição do país como um dos polos estratégicos da transição energética mundial, tanto no modelo de grandes projetos quanto na expansão da geração distribuída.

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