A “Última Milha” da Amazônia: GEA analisa o fim da pobreza energética e o papel das microrredes

Em entrevista ao nosso portal, Global Energy Alliance discute como o Sandbox Regulatório e novos modelos de negócios podem substituir o diesel e transformar o acesso à energia em motor da bioeconomia local.

A universalização do acesso à energia no Brasil é frequentemente citada como um caso de sucesso internacional: cerca de 17 milhões de pessoas foram conectadas nas últimas duas décadas. O desafio que permanece, no entanto, é o mais complexo de todos, alcançar aproximadamente 1 milhão de brasileiros que ainda vivem em situação de exclusão elétrica, concentrados em territórios remotos da Amazônia Legal.

Com o esgotamento técnico e econômico do modelo tradicional de expansão de redes, o setor elétrico passa a buscar novas arquiteturas para essa “última milha”: microrredes (mini-grids), sistemas híbridos e armazenamento de energia, capazes de garantir não apenas fornecimento, mas também resiliência e desenvolvimento econômico local.

Nesta entrevista ao Cenário Energia, Luisa Valentim Barros, líder da Global Energy Alliance (GEA), analisa os gargalos da transição energética e o papel de programas como o Energias da Amazônia. A executiva detalha como o Sandbox Regulatório da Aneel pode destravar novos modelos de negócios e de que forma a substituição do diesel por soluções renováveis pode impulsionar a bioeconomia na região.

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1. Desafios da Universalização (LPT): Considerando as experiências recentes sobre a universalização do acesso em sistemas remotos (LPT), quais hoje são os principais gargalos logísticos, técnicos e institucionais para levar energia a comunidades de difícil acesso na Amazônia? E, do ponto de vista de política pública, onde estão as maiores ineficiências do modelo atual: na contratação, no financiamento, na operação ou na governança desses projetos?

Todos os gargalos — logísticos, técnicos e institucionais — são aumentados e exacerbados já que estamos atuando na última milha da eletrificação no Brasil. Estima-se que 1 milhão de pessoas vivem sem acesso confiável à eletricidade e 2 milhões abastecidas por diesel no Brasil ao final de 2025, em torno de 1,4% da população. 100% desta população está na Amazônia Legal em territórios de difícil acesso. O modelo atual de políticas públicas baseado no Programa Luz Para Todos se provou muito eficiente para conectar em torno de 17 milhões de pessoas no Brasil nos últimos 20 anos, uma referência mundial. Mas para a última milha de eletrificação a abordagem de políticas públicas precisa ser diferente. Foi a partir desta constatação que o MME lançou primeiro o programa Mais Luz para Amazônia e em 2023 com o programa Energias da Amazônia. Eles se constroem a partir da premissa que novos modelos de negócios são necessários. Modelos que se beneficiem das soluções renováveis cada vez mais competitivas e que levem em consideração a sustentabilidade da solução energética para a comunidade. No modelo atual, por exemplo, há desafios de operacionalização com as distribuidoras que podem ser repensados. 

2. Soluções Tecnológicas e Microrredes (MIGDIs): A implementação de MIGDIs, como no caso apresentado pela Roraima Energia, é frequentemente apontada como alternativa estrutural à geração térmica a diesel nos sistemas isolados. O que ainda impede essa tecnologia de se tornar dominante em escala: custo de capital, modelo de remuneração, riscos regulatórios ou capacidade operacional das distribuidoras? Em que condições concretas as microrredes passam a ser economicamente superiores ao diesel?

A alta competitividade dos mini-grids é um fenômeno relativamente recente no Brasil que se materializou com alta competitividade das baterias nos últimos 2 anos. Hoje já atingem valores inferiores ao diesel se forem considerados os custos reais que incluem a logística na Amazônia e os subsídios. Então ainda faltam alguns ajustes de regulação, modelos de remuneração e mesmo capacidade operacional das distribuidoras. Acredito que passos importantes para a escala têm sido dados com ações como programa pró-Amazônia Legal que aprovou 14 projetos com uso de solar e baterias para hibridização de térmicas a diesel na Amazônia. 

3. Aspectos Regulatórios e Sandbox: O Sandbox Regulatório, que será discutido com ANEEL e IEMA, pode ser interpretado como um ensaio de flexibilização do modelo tradicional de regulação do setor elétrico. Na prática, que tipos de inovação hoje são inviabilizados pela REN 1.016/2022 e como o sandbox pode permitir testar novos arranjos tecnológicos, comerciais e tarifários sem comprometer a segurança jurídica e a modicidade tarifária?

Sim, a proposta do Sandbox é justamente permitir exceções controladas à regulação vigente nos sistemas isolados da Amazônia. A REN 1.016/2022 não foi desenhada contemplando inovações tecnológicas ou novos arranjos comerciais. O sandbox acomodará, em ambiente controlado, testes de novos modelos de negócios,  diferentes modelos de tarifação como também a valoração de outros serviços de energia que uma microrrede pode prover ao grid. É um aprendizado regulatório real sobre a evolução da política energética. Nos projetos pilotos que o GEA está implementando em parceria com a FAS pretendemos escolher 1 ou mais que sejam acompanhados via sandbox.

4. Sustentabilidade e Usos Produtivos: A programação do evento destaca a transição justa e os usos produtivos da energia como eixos centrais. Na prática, quais indicadores deveriam ser usados para avaliar se a eletrificação de comunidades remotas está, de fato, gerando desenvolvimento econômico local, e não apenas ampliando o consumo residencial? Que tipo de política pública é necessária para transformar acesso à energia em geração de renda e dinamização produtiva?

Alguns indicadores são essenciais para medir o impacto da eletrificação produtiva no desenvolvimento da comunidade como:  nível de continuidade do serviço de energia, aumento da renda domiciliar, criação de postos de trabalho, produção local, aumento crédito disponível, entre outros.  Sobre as políticas públicas é justamente o que está em construção e que vamos debater no Workshop Energias da Amazônia 2026. O Brasil teve sucesso no seu programa de universalização de acesso, mas agora tem a oportunidade de trabalhar a energia como motor de desenvolvimento local. O momento é muito adequado pois no último ano foram criados uma série de programas governamentais e crédito subsidiado para cadeias da bioeconomia. É um momento de convergência de políticas públicas e o Brasil pode beneficiar-se muito disso.

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Sobre a GEA:

Cerca de 17 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe ainda não têm acesso à eletricidade, e outros 60 milhões enfrentam um fornecimento instável. Em toda a região, trabalhamos com parceiros para fechar essas lacunas por meio do avanço de soluções inovadoras, como redes em malha (mesh grids) e armazenamento em baterias. Esses modelos são projetados não apenas para ampliar o acesso, mas também para fortalecer as economias locais, melhorar a qualidade de vida e construir resiliência de longo prazo.

Na COP30, firmamos uma parceria de cinco anos com o Governo do Brasil para levar energia renovável, empregos verdes e oportunidades econômicas a comunidades remotas em toda a Amazônia. Essa parceria apoiará os esforços para acabar com a pobreza energética na Amazônia, onde quase um milhão de brasileiros ainda vivem sem eletricidade.

Até o momento, na América Latina e no Caribe, ajudamos a viabilizar US$ 599 milhões em financiamento para projetos que já estão em operação ou prontos para serem implementados. Estimamos que esses projetos irão melhorar o acesso à energia para 7 milhões de pessoas e reduzir 24 milhões de toneladas de emissões de CO₂. Olhando para 2030, nossa ambição é mobilizar US$ 1 bilhão e ampliar soluções energéticas inclusivas que promovam resiliência, acesso e crescimento equitativo em toda a região.

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