Inventário federal revela 270 milhões de toneladas de CO₂ no transporte rodoviário e reforça papel do biodiesel na agenda climática

Levantamento coordenado por MMA e MT expõe peso de caminhões e ônibus nas emissões e amplia debate sobre biocombustíveis como solução imediata para clima e saúde pública

O transporte rodoviário brasileiro emitiu cerca de 270 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) em 2024, segundo o Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários, divulgado em dezembro de 2025. O levantamento, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e pelo Ministério dos Transportes (MT), com organização técnica do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), escancara a dimensão do desafio climático no setor e recoloca o biodiesel no centro da discussão sobre políticas públicas de descarbonização de curto prazo.

Em um contexto marcado pela intensificação de secas, enchentes e ondas de calor, o inventário passa a ter função estratégica não apenas para fins estatísticos, mas como instrumento de planejamento ambiental e energético, alinhado à Política Nacional de Qualidade do Ar e ao Programa MelhorAR, criados para orientar ações de redução de poluentes no país.

A geografia das emissões no asfalto

O relatório detalha a distribuição das emissões no transporte rodoviário brasileiro e evidencia a assimetria entre volume de veículos e impacto ambiental. Automóveis respondem por 42% do CO₂, enquanto caminhões representam 40% do total. Ônibus urbanos, rodoviários e micro-ônibus somam cerca de 8% das emissões.

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O dado mais relevante, no entanto, está na proporção da frota: caminhões e ônibus correspondem a apenas 6% dos veículos em circulação, mas são responsáveis por praticamente metade das emissões do setor. A concentração do problema na logística pesada reforça a necessidade de soluções específicas para o diesel, combustível que ainda sustenta a maior parte do transporte de cargas e passageiros no Brasil.

Biodiesel como resposta de curto prazo

Na avaliação da Binatural, uma das principais produtoras de biodiesel do país, o inventário federal reforça a urgência de medidas de aplicação imediata, capazes de reduzir emissões sem depender exclusivamente da renovação total da frota.

O CEO e cofundador da empresa, André Lavor, destacou que o próprio diagnóstico oficial cria as condições para decisões mais assertivas na política energética. “O inventário coordenado por dois ministérios dá dimensão do problema e melhora o mapa do caminho. Se caminhões, ônibus e a logística seguem majoritariamente dependentes do diesel, as decisões precisam considerar os seus impactos negativos, já pensando na sua substituição pelo biodiesel, um biocombustível capaz de reduzir de forma significativa as emissões ao longo do seu ciclo de vida, especialmente quando produzido com critérios de sustentabilidade”, afirma.

A lógica defendida pelo executivo é a de que o biodiesel permite ganhos ambientais relevantes sem exigir mudanças estruturais imediatas na infraestrutura de abastecimento ou nos motores, o que torna a política de mistura obrigatória uma das ferramentas mais eficientes de descarbonização no curto prazo.

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Casos práticos e economia circular

Na própria operação da Binatural, a substituição do diesel fóssil já ocorre de forma integral em parte da frota. A empresa opera atualmente dois caminhões movidos 100% a biodiesel, utilizados no transporte de matérias-primas empregadas na produção do próprio biocombustível, em um modelo de economia circular.

Há ainda um terceiro veículo que percorre rotas entre Goiás, São Paulo e Paraná operando com uma mistura próxima ao B50, o que, segundo a empresa, resulta em redução expressiva de material particulado e gases de efeito estufa.

Esses exemplos práticos reforçam que o uso do biodiesel já está tecnicamente consolidado e pode ser ampliado de forma gradual, com impactos mensuráveis sobre a pegada de carbono do transporte.

B16, qualidade do ar e saúde pública

A futura implementação do B16, que eleva para 16% a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel, é vista como um novo degrau na política de qualidade do ar. O aumento da proporção do biocombustível reduz a emissão de partículas finas e de carbono negro (black carbon), poluentes diretamente associados a doenças respiratórias e cardiovasculares.

Em 2025, o Brasil registrou mais de 13,6 mil óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), de acordo com dados da Fiocruz. Embora múltiplos fatores estejam envolvidos, especialistas apontam a poluição atmosférica como um dos vetores estruturais de risco para a saúde pública em áreas urbanas densamente trafegadas.

Clima, riscos econômicos e pressão global

O impacto das emissões não se limita à saúde. O efeito estufa também está na raiz do aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos, como enchentes, secas prolongadas e ondas de calor. Segundo a seguradora Munich Re, apenas no primeiro semestre de 2025, os prejuízos globais com desastres naturais superaram R$ 730 bilhões. No Brasil, as perdas se aproximaram de R$ 30 bilhões, com cerca de 6 milhões de pessoas afetadas.

No plano internacional, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconhece que biocombustíveis avançados podem desempenhar papel relevante na redução de emissões, desde que produzidos com baixa pegada de carbono e associados a práticas sustentáveis de uso da terra e escolha adequada de matérias-primas.

Desafio para 2026: escala e previsibilidade

Para o setor de energia e combustíveis, a agenda de 2026 aponta para um desafio claro: transformar instrumentos já existentes (dados, regulação e capacidade produtiva) em políticas de escala, com impacto mensurável sobre emissões, saúde e competitividade econômica.

Na avaliação de André Lavor, a combinação entre eficiência logística, renovação tecnológica e uso intensivo de biocombustíveis é o caminho mais realista no curto prazo. “O país já tem instrumentos, dados e regulação. O desafio agora é transformar esse potencial em escala e impacto mensurável, aproveitando uma solução nacional, madura e disponível. Porque os extremos climáticos já fazem parte do nosso dia a dia, e as respostas precisam estar à altura”, conclui.

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