Brasil concentra quase um quarto das reservas globais de terras raras, mas ainda responde por só 1% da produção mundial

Estudo da PwC Brasil aponta que país tem base geológica para liderar a nova economia verde, mas precisa avançar em refino, tecnologia e política industrial para capturar valor na cadeia de minerais críticos

O Brasil ocupa uma posição paradoxal no mapa global da transição energética. Embora detenha uma das maiores bases geológicas do planeta, com 23% das reservas mundiais de terras raras, o país responde por apenas 1% da produção global desses insumos estratégicos. O dado faz parte do estudo “Brasil na Era dos Minerais Críticos: Potencial, Desafios e Rotas para o Protagonismo”, elaborado pela PwC Brasil, que analisa o papel do país nas cadeias globais de valor de minerais essenciais à descarbonização da economia.

O levantamento mostra que o Brasil reúne condições naturais raras: reservas expressivas de níquel, manganês, nióbio, grafita, lítio e terras raras, além de uma matriz elétrica majoritariamente renovável, fator cada vez mais relevante para atender às exigências ambientais de grandes cadeias industriais globais. Ainda assim, a participação brasileira permanece concentrada nas etapas iniciais da cadeia produtiva, com baixo valor agregado.

Minerais críticos e a nova geopolítica da energia

A transição energética e a disputa por autonomia tecnológica vêm provocando uma corrida internacional por minerais estratégicos, fundamentais para a produção de baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares e sistemas de armazenamento de energia.

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Projeções da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que a demanda global por lítio pode crescer até 42 vezes até 2040, enquanto grafita, cobalto e níquel devem registrar aumentos entre 20 e 25 vezes. Nesse contexto, países com reservas relevantes passam a ser vistos não apenas como fornecedores de commodities, mas como atores centrais na nova geopolítica da energia e da indústria de baixo carbono.

Para a PwC Brasil, o Brasil poderia ocupar uma posição estratégica nesse rearranjo global, combinando abundância mineral com uma matriz elétrica limpa, o que permitiria produzir insumos com menor pegada de carbono do que concorrentes como China, Austrália e países africanos.

COP 30 como vitrine internacional

De acordo com a consultoria, a realização da COP 30 em Belém, em 2025, surge como uma janela de oportunidade para o país reposicionar sua imagem no cenário internacional, não apenas como exportador de matérias-primas, mas como fornecedor sustentável e confiável de minerais críticos.

A avaliação é que o evento pode funcionar como uma vitrine para atrair investimentos, consolidar parcerias tecnológicas e apresentar projetos estruturantes ligados à industrialização verde.

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Nesse contexto, ao comentar os resultados do estudo, Daniel Martins, sócio e líder da indústria de Energia e Serviços de Utilidade Pública da PwC Brasil, destaca que o país reúne os principais atributos para assumir protagonismo global, mas ainda carece de decisões estruturais. “O país tem todas as condições para se posicionar como líder global na nova economia verde, desde que avance em infraestrutura, tecnologia e regulação. A oportunidade é transformar o papel de exportador de commodities em referência em inovação e sustentabilidade”, afirma.

O gargalo do refino e da industrialização

Um dos principais entraves identificados pelo estudo é a concentração do Brasil nas etapas de menor valor agregado da cadeia, como extração e exportação de minério bruto. As fases mais rentáveis, refino, transformação química e manufatura avançada, permanecem pouco desenvolvidas no país.

A diferença econômica entre essas etapas é significativa. Segundo a PwC Brasil, uma tonelada de espodumênio, principal minério de lítio, é exportada por cerca de US$ 800, enquanto o hidróxido de lítio grau bateria pode ultrapassar US$ 8.000 por tonelada no mercado internacional.

Esse descompasso limita a captura de valor, reduz a geração de empregos qualificados e mantém o país dependente de cadeias externas para produtos estratégicos, como baterias e componentes de alta tecnologia.

Burocracia e ausência de política industrial

Além da falta de plantas de refino, o estudo aponta como gargalos estruturais a burocracia, a insegurança regulatória e a inexistência de uma política industrial consistente voltada para minerais críticos.

Ao mesmo tempo, o relatório reconhece vantagens competitivas relevantes, como a relativa estabilidade institucional, a base mineral diversificada e a experiência acumulada em setores eletrointensivos, como siderurgia, metalurgia e química, que poderiam ser integrados à nova cadeia de valor da transição energética.

Na avaliação da PwC Brasil, o desafio central não é geológico, mas institucional e estratégico: transformar potencial mineral em projeto nacional de desenvolvimento industrial de longo prazo.

Ciclo de investimentos ganha tração

Apesar dos gargalos, o setor mineral brasileiro já vive um ciclo de expansão. Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), estão previstos cerca de R$ 100 bilhões em investimentos entre 2025 e 2029, com destaque para projetos de ampliação da produção em Minas Gerais e iniciativas voltadas a minerais estratégicos.

O movimento também se reflete no mercado de fusões e aquisições. De acordo com a PwC Brasil, as transações de M&A no setor de mineração cresceram, em média, 26% ao ano entre 2021 e 2024, impulsionadas pela demanda global por insumos da transição energética.

Esse fluxo indica que investidores internacionais já identificam o potencial brasileiro, ainda que a maior parte dos projetos esteja concentrada na fase de extração.

Rotas para o protagonismo global

Para que o país avance de fato na cadeia de valor, o estudo propõe um conjunto de estratégias estruturantes, como a criação de polos industriais de refino e manufatura, ampliação de linhas de financiamento específicas via BNDES e Finep, construção de um arcabouço regulatório estável e estímulo a parcerias tecnológicas internacionais com países como Estados Unidos, Alemanha e Japão.

A PwC Brasil defende que o Brasil tem a chance histórica de integrar a transição energética global não apenas como fornecedor de recursos naturais, mas como plataforma industrial de baixo carbono. O risco, segundo o relatório, é repetir o padrão histórico de exportar riqueza mineral e importar tecnologia, perdendo a oportunidade de liderar a nova economia verde.

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