Energia no mercado livre deve ficar até 60% mais cara em 2026 com hidrologia desfavorável e maior despacho térmico

Preços no Sudeste/Centro-Oeste já superam R$ 350/MWh e curvas forward apontam manutenção de patamares elevados ao longo do próximo ano

A energia elétrica negociada no mercado livre brasileiro caminha para um ciclo de forte valorização em 2026, impulsionada por um cenário de restrições hidrológicas, aumento da volatilidade e maior dependência do despacho de usinas térmicas. Análises da Armor Energia, comercializadora de energia e hub de negócios, indicam que a energia convencional no submercado Sudeste/Centro-Oeste já vem sendo negociada a valores próximos de R$ 355/MWh, ante um preço médio de aproximadamente R$ 223/MWh em 2025.

A diferença representa uma elevação superior a R$ 130/MWh em pleno período úmido, fase do ano que tradicionalmente registra maior conforto no balanço entre oferta e demanda de energia. O movimento sinaliza uma mudança estrutural no patamar de preços e acende um alerta para consumidores livres, comercializadoras e grandes consumidores industriais que planejam suas estratégias de contratação para o próximo ciclo.

Hidrologia abaixo da média pressiona o sistema

Segundo a Armor Energia, o principal vetor dessa alta é a persistência de condições hidrológicas desfavoráveis, mesmo após o início oficial do período úmido, o que tem comprometido a recuperação dos níveis dos reservatórios nas principais bacias hidrográficas do país.

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Ao analisar esse contexto, o diretor de Comercialização da Armor Energia, Fred Menezes, destaca que a situação é generalizada na maior parte do território nacional. “Todos os submercados, com exceção do Sul, apresentam volumes de chuvas abaixo do esperado, o que coloca o sistema em estado de atenção para os próximos meses”, afirma.

Os dados mais recentes do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), de 19 de janeiro de 2026, reforçam esse diagnóstico. O nível de Energia Armazenada (EAR) estava em 43,30% no Sudeste/Centro-Oeste, 47,23% no Nordeste, 55,92% no Norte e 66,20% no Sul, patamares considerados baixos para o período, especialmente no principal centro de carga do país.

Curvas forward já projetam preços elevados

A leitura do mercado futuro também confirma a tendência de preços mais altos ao longo de 2026. De acordo com a curva forward negociada na BBCE, a energia no submercado Sudeste/Centro-Oeste deve alcançar cerca de R$ 400/MWh em março, com média anual próxima de R$ 355/MWh.

Esses valores são substancialmente superiores aos observados em 2025 e refletem a percepção de risco dos agentes diante da combinação entre baixa hidrologia, aumento do despacho térmico e maior sensibilidade do sistema a eventos climáticos extremos.

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Como o Sudeste/Centro-Oeste concentra a maior parcela da carga e da capacidade instalada do Sistema Interligado Nacional (SIN), seu desempenho é determinante para a formação de preços em todo o país. A manutenção de níveis reduzidos de armazenamento ao longo do período úmido eleva o risco para o segundo semestre, quando a sazonalidade naturalmente reduz a afluência aos reservatórios.

Despacho térmico e impacto no CMO

Com menos água disponível, o sistema passa a depender de fontes mais caras para garantir o atendimento à carga. O efeito direto é a elevação do Custo Marginal de Operação (CMO), indicador que baliza a formação dos preços no mercado de curto prazo e influencia, de forma estrutural, as negociações no mercado livre.

Nesse sentido, Fred Menezes explica que a maior participação das térmicas no despacho altera completamente a dinâmica de preços. “Com menor disponibilidade hídrica, o sistema passa a depender mais de fontes térmicas, o que pressiona os custos e se reflete diretamente em preços mais altos no mercado livre, especialmente nos contratos de curto e médio prazo”, explica.

Além do impacto econômico, o aumento do despacho térmico também traz implicações ambientais, uma vez que parte dessas usinas utiliza combustíveis fósseis, ampliando as emissões de gases de efeito estufa e reduzindo a participação relativa das fontes renováveis na matriz.

Riscos e estratégias para consumidores livres

Para os consumidores do mercado livre, o cenário desenhado para 2026 implica maior volatilidade e exposição ao risco de preços, especialmente para aqueles com contratos indexados ao mercado de curto prazo ou com posições desprotegidas.

A elevação estrutural dos preços tende a exigir estratégias mais sofisticadas de gestão de portfólio, combinando contratos de longo prazo, instrumentos de hedge, diversificação de fontes e maior previsibilidade de custos energéticos.

Ao mesmo tempo, o ambiente de preços elevados pode acelerar decisões de investimento em soluções estruturais, como autoprodução, geração distribuída e projetos de energia renovável associados a sistemas de armazenamento em baterias, que permitem reduzir a dependência do mercado spot e mitigar a exposição nos horários de maior custo.

Previsibilidade como diferencial competitivo

Na avaliação da Armor Energia, a tendência de preços mais altos em 2026 reforça a importância de uma postura mais estratégica por parte dos agentes de consumo e comercialização.

Ao sintetizar esse cenário, Fred Menezes ressalta que o momento exige decisões mais estruturadas. “O cenário de 2026 reforça a importância de decisões de contratação bem estruturadas e investimentos em soluções que tragam previsibilidade para reduzir riscos e garantir competitividade”, conclui o executivo.

Diante de um sistema elétrico cada vez mais sensível a variáveis climáticas e com menor margem estrutural de segurança, a previsibilidade energética passa a ser não apenas um diferencial financeiro, mas um elemento central de competitividade para empresas expostas ao mercado livre.

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