Estudo da NTT DATA e MIT Technology Review Brasil mostra que apenas um terço das organizações possui orçamento dedicado à Green IT, enquanto consumo energético da infraestrutura digital dispara
Embora o debate sobre transição energética, eficiência e agenda ESG esteja cada vez mais presente no discurso corporativo, a adoção estruturada da chamada TI Verde (Green IT) ainda avança em ritmo desigual no Brasil. Um estudo inédito realizado pela NTT DATA em parceria com a MIT Technology Review Brasil revela que, apesar do elevado potencial de redução de custos e emissões, apenas uma em cada três empresas brasileiras possui orçamento próprio destinado a iniciativas de tecnologia da informação sustentável.
A pesquisa Green IT Brasil 2025 mostra que 52% das empresas já contam com equipes dedicadas à sustentabilidade e metas ambientais formalizadas. No entanto, quando o foco se desloca para a infraestrutura tecnológica, um dos principais vetores de consumo energético nas grandes organizações, o nível de maturidade cai de forma significativa. Segundo o levantamento, somente cerca de 33% das companhias alocam recursos específicos para práticas de TI Verde.
O dado chama atenção sobretudo porque o estudo aponta que empresas que integram a Green IT de forma estruturada conseguem reduzir seus custos de energia em até 50%, além de aumentar significativamente a eficiência operacional de data centers, redes, sistemas de armazenamento e ambientes de nuvem.
Green IT como alavanca estratégica de eficiência energética
A pesquisa indica que a TI Verde vai muito além de iniciativas pontuais de economia de energia ou descarte adequado de equipamentos. Organizações que dispõem de orçamento próprio para a área têm 2,5 vezes mais chances de captar recursos internos para novos investimentos sustentáveis. Além disso, o envolvimento direto da alta liderança, presente em 43% das empresas analisadas, eleva em até 45% a efetividade das políticas ambientais.
Para Roberto Celestino, executivo da NTT DATA e uma das principais vozes do estudo, os resultados evidenciam um descompasso entre discurso e prática. “De um modo geral, a pesquisa mostrou que ainda faltam ações estruturadas para a TI Verde, que ainda não é vista como um pilar central da estratégia de negócio, mas como um conjunto de ações isoladas”, afirma. Segundo ele, a pressão crescente do uso intensivo de tecnologia torna esse cenário cada vez mais crítico. “O crescimento do uso de TI no mundo impõe a preocupação com o investimento em usos mais sustentáveis de energia em infraestruturas digitais e no descarte de equipamentos eletrônicos.”
Consumo elétrico da TI entra no radar do setor energético
O alerta ganha ainda mais relevância diante do crescimento acelerado do consumo de energia associado à digitalização da economia. Servidores, sistemas de armazenamento, redes e soluções de arrefecimento já figuram entre os principais centros de custo energético das grandes empresas.
Dados citados no estudo, com base no relatório “Electricity 2024”, da Agência Internacional de Energia (IEA), indicam que o consumo elétrico global de data centers pode ultrapassar 1.000 TWh já no próximo ano, mais que o dobro dos 460 TWh registrados em 2022. O volume é comparável ao consumo anual de países inteiros, como a Rússia, e pressiona sistemas elétricos, políticas energéticas e estratégias de descarbonização.
Nesse contexto, a TI Verde passa a dialogar diretamente com o setor elétrico, seja na gestão da demanda, seja na necessidade de fontes renováveis, eficiência energética e integração com políticas de transição energética corporativa.
Maturidade setorial ainda é heterogênea
A pesquisa ouviu representantes de mais de 120 organizações, distribuídas em oito setores da economia, e avaliou a maturidade da Green IT a partir de três pilares: governança, recursos tecnológicos e cultura organizacional. As empresas foram classificadas em cinco níveis, inicial, em desenvolvimento, padronizado, avançado e líder/excelência.
Nenhum setor atingiu o estágio máximo de maturidade. Quatro segmentos, Financeiro & Seguros, Energia, Saúde e Indústria de Manufatura, foram classificados no nível padronizado, com políticas definidas, mas execução ainda heterogênea. Já os setores de TI, Utilities e Transporte e Energia alcançaram o nível avançado, com processos mais estáveis e ciclos contínuos de melhoria. O Varejo & Atacado apareceu no estágio em desenvolvimento.
O diagnóstico reforça que, mesmo em setores intensivos em energia e tecnologia, a TI Verde ainda não foi plenamente incorporada como eixo estratégico do negócio.
Monitoramento, GreenOps e lacunas operacionais
Entre os indicadores operacionais, o estudo mostra avanços pontuais, mas ainda insuficientes. Cerca de 41% das empresas monitoram o consumo de energia em tempo real, enquanto menos de 30% acompanham a pegada de carbono de seus provedores de nuvem. Práticas mais avançadas, como GreenOps, voltadas à otimização contínua de software e infraestrutura, também aparecem em menos de 30% das organizações.
Para Celestino, trata-se de uma oportunidade desperdiçada. “São práticas com potencial de reduzir custos e emissões, mas ainda são pouco aplicadas”, diz.
Por outro lado, ações relacionadas ao uso sustentável de equipamentos mostram maior disseminação. Aproximadamente 50% das empresas adotam estratégias de prolongamento da vida útil de ativos de TI, e 46% mantêm parcerias voltadas à reciclagem de equipamentos eletrônicos.
Governança como chave para acelerar a TI verde
O estudo aponta que a principal alavanca para acelerar a adoção da Green IT está na governança corporativa. Entre as recomendações, está a adoção das estratégias centrais inspiradas nos chamados “7 Rs” da modernização sustentável, que envolvem reduzir, reutilizar, reciclar e refabricar recursos tecnológicos, além de otimizar o uso de energia e infraestrutura.
Ao concluir, Roberto Celestino reforça a dimensão estratégica do tema: “A TI Verde não é um custo, mas um investimento estratégico que gera eficiência operacional, reduz riscos e impulsiona a competitividade. As empresas que a abraçarem agora estarão mais preparadas para o futuro responsável.”


