Conferência Ibero-Brasileira de Energia aponta que o Brasil já vive transição estrutural no modelo de suprimento, exigindo coordenação entre GD, armazenamento e grandes usinas
A consolidação da geração distribuída (GD) como parte estratégica da matriz elétrica brasileira ganhou novo destaque internacional durante a Conferência Ibero-Brasileira de Energia, realizada em Lisboa, nos dias 27 e 28 de novembro. No encontro, autoridades e lideranças do setor energético debateram o avanço acelerado da geração distribuída no Brasil e a necessidade crescente de integrar esses sistemas ao modelo centralizado tradicional, garantindo segurança operativa, eficiência e planejamento adequado de expansão.
Um dos principais destaques foi a avaliação do ex-ministro português João Galamba, que reforçou que a combinação entre recursos energéticos distribuídos, sistemas de armazenamento e infraestrutura centralizada já se tornou realidade consolidada em mercados de referência. A fala do ex-ministro foi apresentada como um olhar técnico e comparativo, alinhado às tendências de modernização dos sistemas elétricos globais.
Ao abordar o tema, Galamba contextualizou que a transição em curso exige adaptação regulatória e operacional em todos os países, especialmente onde a GD cresce em velocidade acelerada. Em seguida, destacou a visão dominante em mercados maduros. “A integração entre recursos energéticos distribuídos e a infraestrutura tradicional tem se mostrado um caminho tecnicamente viável e internacionalmente validado para aumentar a eficiência dos sistemas elétricos e reduzir riscos operacionais”, afirmou.
Desafios crescentes no modelo centralizado
Nos debates realizados ao longo da conferência, Galamba detalhou que a rápida adoção de sistemas solares fotovoltaicos e soluções de armazenamento impõe novos desafios a modelos de suprimento baseados exclusivamente em geração centralizada. Antes de apresentar sua avaliação, o ex-ministro contextualizou que o avanço tecnológico e o barateamento das fontes renováveis impulsionam um redesenho estrutural das redes elétricas.
Em sua fala, reforçou o impacto dessa mudança. A crescente inserção de sistemas de GD e armazenamento, segundo ele, impõe exigências inéditas aos operadores e exige modernização dos instrumentos de planejamento e operação. A análise é convergente com experiências de países europeus e asiáticos, que já ajustam suas redes para lidar com fluxos bidirecionais, múltiplos pontos de geração e variações mais dinâmicas na demanda.
Brasil ultrapassa 40 GW de potência em GD e acelera sua transição energética
A relevância do tema no contexto brasileiro é evidente. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), divulgados em junho, mostram que o país ultrapassou 40 GW de potência instalada em geração distribuída, beneficiando mais de 5 milhões de unidades consumidoras. Desse total, aproximadamente 70% são sistemas residenciais, um indicativo do caráter descentralizado e democrático do modelo.
Esse avanço impulsiona revisões regulatórias e mudanças estruturais no setor. A aprovação da Lei 14.300/2022 estabeleceu maior clareza jurídica ao segmento, enquanto o planejamento para a abertura gradual do mercado de energia aponta para um novo ciclo competitivo, permitindo que consumidores escolham seus supridores.
O crescimento acelerado da GD também pressiona o setor a expandir modelos de compensação, integrar microrredes, aprimorar regras de conexão e ampliar a digitalização das redes de distribuição, aspectos fundamentais para manter a confiabilidade e a estabilidade operativa.
Visão do mercado: GD como pilar de modernização da matriz elétrica
A percepção do setor privado reforça a leitura internacional de que a GD é mais que uma tendência: é um vetor de modernização do setor elétrico brasileiro. O CEO da NewSun Energy, Fernando Berteli, apresentou na conferência uma contextualização sobre o papel complementar da geração distribuída para a infraestrutura elétrica nacional.
Berteli destacou que a evolução tecnológica e a descentralização energética criam oportunidades inéditas para equilibrar oferta, demanda e qualidade de fornecimento. Ele reforçou que a Geração Distribuída (GD) não substitui o modelo centralizado, mas sim contribui para a eficiência do sistema.
“A geração distribuída contribui para a eficiência do sistema ao reduzir perdas técnicas, aproximar os pontos de geração dos centros de consumo e aumentar a resiliência da rede. Não se trata de substituição, mas de evolução da infraestrutura elétrica através da descentralização de geração de energia limpa”, afirmou.
Berteli acrescentou que estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) comprovam que a geração próxima à carga reduz perdas em transmissão e distribuição. Esse efeito, segundo ele, tende a diminuir pressões por investimentos de grande porte no longo prazo, permitindo melhor alocação de recursos e reforçando a sustentabilidade financeira do setor elétrico.
Brasil segue tendência global de redes mais distribuídas, digitais e integradas
O panorama internacional indica que a transição para sistemas elétricos distribuídos é irreversível. Países da Europa, Ásia e América do Norte avançam na combinação entre grandes plantas renováveis, geração distribuída, sistemas de armazenamento e digitalização de redes, formando arquiteturas mais flexíveis, seguras e sustentáveis.
O Brasil, com abundância de recursos solares, grande diversidade regional e crescente protagonismo da GD, encontra-se em posição estratégica nesse movimento. A integração entre geração centralizada e distribuída tende a ser decisiva para o país garantir segurança energética, previsibilidade regulatória e custo competitivo para consumidores e investidores.
Para especialistas que acompanharam a conferência em Lisboa, o recado é claro: o futuro do setor elétrico brasileiro dependerá da capacidade de coordenação entre modelos, da modernização da infraestrutura de distribuição e da consolidação de políticas que incentivem inovação, armazenamento, inteligência de rede e eficiência operacional.



