Secretário-geral da ONU diz que acordo climático obtido em Belém mostrou força da diplomacia global mesmo em cenário de tensões e ausência dos EUA
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que o resultado final da COP30, realizada no mês passado em Belém, foi “decepcionante”, mas ao mesmo tempo revelou que o multilateralismo ainda funciona, mesmo diante de um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas, ausência dos Estados Unidos no processo e forte atuação de setores contrários ao avanço das políticas climáticas.
A declaração foi feita nesta quarta-feira, durante a conferência Reuters Next, em Nova York. As observações do chefe da ONU reforçam a avaliação de que, apesar dos avanços limitados, a cúpula climática conseguiu preservar a diplomacia internacional como mecanismo de negociação para metas ambientais de longo prazo.
Multilateralismo sob pressão, mas ainda operante
Ao comentar os bastidores das negociações, Guterres reconheceu que chegou ao final da conferência com percepções conflitantes. Durante a entrevista, ele destacou a dificuldade de conduzir acordos climáticos globais num ambiente em que grandes economias adotam posições divergentes e, em alguns casos, ativamente contrárias às metas de descarbonização.
“Tenho sentimentos contraditórios em relação à COP. Por um lado, acho que é notável que, com os Estados Unidos fazendo campanha contra e a indústria de combustíveis fósseis claramente determinada a garantir que as coisas não avançassem… com todos esses movimentos contra, foi possível chegar a um acordo e isso mostra que o multilateralismo funciona”, afirmou Guterres.
A referência aos EUA aponta para um período de realinhamento político interno no país, que impactou sua atuação e influência nos fóruns climáticos internacionais. Para o secretário-geral, o simples fato de que um consenso final tenha sido alcançado, mesmo com pressões contrárias, reforça a resiliência das instituições multilaterais.
COP30: avanço limitado, pressão crescente
A COP30 marcou a reta final do primeiro ciclo de Global Stocktake, mecanismo de avaliação das metas do Acordo de Paris, e era vista como momento estratégico para que países apresentassem caminhos mais claros rumo à neutralidade de carbono. No entanto, o resultado foi considerado tímido por lideranças climáticas, pesquisadores e organizações da sociedade civil.
Apesar da ampliação de compromissos relacionados à transição energética, o acordo final não trouxe metas vinculantes de redução de combustíveis fósseis, tema que dominou as divergências entre delegações. A pressão de produtores de petróleo e gás, bem como a disputa geopolítica entre blocos econômicos, limitaram a ambição do texto.
Para Guterres, a atuação organizada da indústria fóssil dificultou avanços mais profundos. Ainda assim, o secretário-geral destaca que o acordo obtido é uma demonstração de que “há espaço para convergência, mesmo quando forças contrárias atuam para frear compromissos mais robustos”.
Brasil no centro da agenda climática global
A realização da COP30 em Belém colocou o Brasil no centro das negociações climáticas internacionais em um momento em que o país busca ampliar sua influência no debate sobre transição energética, descarbonização e preservação da Amazônia.
A interlocução brasileira com países do Sul Global, aliada à pressão interna por políticas de controle do desmatamento e ampliação das renováveis, foi vista como elemento importante para evitar um impasse maior na conferência.
Mesmo assim, a avaliação de Guterres indica que o país terá papel relevante na continuidade das negociações, especialmente na preparação para as próximas rodadas diplomáticas que tratarão de financiamento climático, transição justa e mecanismos de carbono.
Desafios se intensificam no pós-COP30
A fala do secretário-geral ressalta que, apesar das limitações, o sistema da ONU permanece funcional, mas sob forte pressão. Os desafios pós-COP incluem:
- ampliar o nível de ambição das metas climáticas;
- garantir financiamento adequado para adaptação e perdas e danos;
- avançar na redução real de combustíveis fósseis;
- proteger a governança multilateral diante de tensões globais crescentes.



