Hidrelétricas seguem como pilar da segurança energética no Brasil e modernização se torna chave para evitar alta nas tarifas

Com 63% da matriz elétrica, usinas precisam elevar eficiência diante do envelhecimento da infraestrutura e da crescente participação de fontes intermitentes

Em um dos sistemas elétricos mais renováveis do mundo, as hidrelétricas seguem desempenhando um papel central na operação, na segurança de suprimento e na estabilidade dos preços de energia no Brasil. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mostram que as usinas hidrelétricas ainda representam cerca de 63% da matriz elétrica, índice que mantém o país entre os maiores produtores globais de energia renovável e evidencia a dependência estratégica desse ativo para o funcionamento do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Com a expansão acelerada das fontes solar e eólica nos últimos anos, o peso das hidrelétricas não diminuiu, ao contrário, tornou-se ainda mais relevante. São elas que garantem a flexibilidade e a rápida resposta necessárias para compensar a variabilidade das fontes intermitentes, além de exercerem papel de reserva operativa para evitar o acionamento de térmicas mais caras.

Hidrelétricas como eixo de estabilidade do sistema brasileiro

A função das hidrelétricas como “espinha dorsal” da matriz foi reforçada pelo técnico em manutenção mecânica de hidrelétricas Cleliton de Lima Dalben, um profissional que acompanha de perto a operação e a rotina das usinas.

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Ao contextualizar a importância das hidrelétricas na transição energética brasileira, Lima afirma que o país só consegue sustentar e expandir uma matriz majoritariamente renovável por causa da flexibilidade hidráulica.

“O país sustenta e expande uma matriz majoritariamente renovável pelo auxílio das usinas hidrelétricas, que funcionam como um eixo de estabilidade para tecnologias intermitentes, como a solar e a eólica”, ressalta Lima.

A análise está alinhada a estudos recentes do ONS e da EPE, que reforçam a necessidade de manter a capacidade hidráulica como lastro para o avanço das fontes renováveis não controláveis. Sem a contribuição das hidrelétricas, o sistema precisaria recorrer a térmicas em maior escala, o que implicaria emissões mais altas, maior custo de operação e maior volatilidade tarifária.

Eficiência das usinas é decisiva para evitar aumento das tarifas

A eficiência operacional das hidrelétricas não é apenas uma questão técnica, mas um vetor determinante para controlar os custos de energia no país. Com tarifas já elevadas, entre as mais altas da América Latina, qualquer perda de produtividade ou indisponibilidade nos equipamentos hidráulicos e eletromecânicos tende a pressionar a operação do sistema como um todo.

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Lima explica que o impacto de falhas ou perdas operacionais é imediatamente refletido no custo da energia. “Manter o funcionamento das turbinas, dos sistemas hidráulicos e dos geradores vai muito além de uma questão técnica. É uma política de necessidade e contenção de custos. Uma falha mecânica mínima pode gerar um efeito cascata em todo o sistema.”

Na prática, indisponibilidades reduzem a capacidade de regularização dos reservatórios, aumentam a probabilidade de despacho térmico e elevam o custo marginal de operação (CMO), indicador que influencia diretamente o preço da energia no mercado.

Modernização das hidrelétricas envelhecidas é inevitável

Grande parte do parque hidrelétrico brasileiro ultrapassa 30 anos de operação. Isso significa que um volume expressivo das turbinas, geradores e sistemas auxiliares está próximo do fim do ciclo tecnológico ideal. A falta de modernização tende a intensificar perdas, elevar custos de manutenção corretiva e comprometer a confiabilidade do sistema.

Para Lima, modernizar é essencial, e representa uma oportunidade de ganho de eficiência sem necessidade de novos empreendimentos. “Uma usina modernizada entrega mais energia sem precisar de mais água. Lembrando que é muito mais barato modernizar do que construir novos empreendimentos.”

Esse conceito é amplamente discutido em planejamentos energéticos internacionais: modernização aumenta a eficiência das máquinas, amplia a vida útil e reduz a necessidade de investimentos em novas barragens, que possuem custos socioambientais mais altos.

Além disso, o avanço de tecnologias digitais, como monitoramento em tempo real, sistemas de predição de falhas e automação avançada, tem potencial para elevar a confiabilidade das hidrelétricas e reduzir significativamente paradas imprevistas.

Manutenção, digitalização e eficiência: pilares da competitividade

Ainda que a matriz elétrica brasileira avance em eólica, solar, baterias e hidrogênio verde, as hidrelétricas continuarão sendo o alicerce do sistema por, pelo menos, mais duas décadas. O desafio estratégico é manter, e elevar, a eficiência dessas usinas para garantir segurança energética e evitar a pressão tarifária.

O país dispõe de um ativo único: um parque hidrelétrico já implantado, com grandes reservatórios e capacidade de regularização. Porém, para que essa vantagem seja preservada, investimentos contínuos em manutenção, digitalização e modernização das usinas são indispensáveis.

O debate sobre a competitividade do setor elétrico brasileiro passa necessariamente pela eficiência das hidrelétricas, pelo envelhecimento dos ativos e pela necessidade de reinvestimentos. Negligenciar essa agenda significa abrir espaço para custos mais altos, maior acionamento térmico e menor previsibilidade de preços, cenário contrário aos objetivos de descarbonização e modicidade tarifária.

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