Tecnologia da Wärtsilä abre caminho para térmicas limpas, integrações híbridas e expansão do mercado de etanol no setor elétrico
O Brasil dá um passo inédito na transição energética ao iniciar a montagem da primeira turbina de geração térmica 100% movida a etanol. Instalado pela Suape Energia, no Complexo Industrial Portuário de Suape (PE), o equipamento desenvolvido em parceria com a finlandesa Wärtsilä coloca o país na vanguarda global da descarbonização da geração térmica, segmento historicamente dependente de combustíveis fósseis.
A iniciativa nasce de uma missão tecnológica realizada no ano passado, quando o diretor executivo da Suape Energia, José Faustino da Costa, e o diretor da Wärtsilä Brasil, Jorge Alcaide, desafiaram a matriz finlandesa a desenvolver uma turbina dedicada ao biocombustível. O ceticismo inicial deu lugar a uma cooperação inédita que agora chega à etapa de montagem final em Pernambuco.
Com a introdução dessa turbina, o país passa a explorar um modelo de flexibilidade renovável capaz de complementar fontes intermitentes e oferecer potência firme ao Sistema Interligado Nacional (SIN) sem ampliar emissões.
Primeira turbina a etanol do Brasil entra em fase final de montagem
A turbina, já testada na Finlândia, deve iniciar operação experimental até o final de dezembro. O equipamento adicionará 4 MW de capacidade firme ao parque da Suape Energia, que hoje opera 17 unidades totalizando 380 MW, despachados pelo Operador Nacional do Sistema (ONS).
Por se tratar de uma tecnologia pioneira, a turbina ainda não possui homologação do Ministério de Minas e Energia (MME), da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ou do próprio ONS. Assim, precisará cumprir um ciclo completo de testes por 12 meses antes do comissionamento definitivo.
Durante esse período, a energia gerada não poderá ser faturada para o SIN, o que implica que a própria Suape Energia arcará com os custos de abastecimento com etanol. Para a empresa e para a Wärtsilä, porém, trata-se de um investimento estratégico que deve acelerar a curva de aprendizado e abrir novas frentes tecnológicas para o setor.
Turbinas a etanol abrem espaço para expansão do setor sucroenergético
A adoção do etanol como combustível térmico foi recebida com entusiasmo por produtores de biocombustíveis, especialmente no Nordeste, onde há 37 usinas sucroenergéticas com potencial para fornecimento. A nova demanda pode ampliar a diversificação de mercado, tradicionalmente concentrado em combustíveis para mobilidade.
O presidente do Sindaçúcar-PE, Renato Cunha, uma das vozes mais influentes do setor, ressaltou que o etanol já ocupa posição estratégica no cenário global de descarbonização. Ele lembrou que gigantes do transporte marítimo estão migrando para o biocombustível
“Além disso, uma decisão da Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês) determinou que, em 2026, os navios precisam usar uma mistura de combustível renovável de 10%. Isso, quando for implementado, quer dizer um mercado de 50 bilhões de litros de etanol. Agora, acrescente a isso o potencial de uso nas milhares de usinas térmicas que hoje usam combustível de petróleo”, destacou cunha.
A análise reforça que turbinas térmicas renováveis podem tornar o Brasil protagonista no fornecimento de etanol para aplicações industriais e energéticas de larga escala.
Wärtsilä mira soluções híbridas e atendimento a datacenters
A Wärtsilä explica que o projeto da turbina é apenas o primeiro passo de uma estratégia mais ampla de geração híbrida no país, combinando solar, eólica, baterias e turbinas renováveis. Esses modelos estão alinhados às novas demandas de flexibilidade e às tendências globais de descarbonização do despacho térmico.
Nesse contexto de expansão, o diretor Jorge Alcaide ressalta que a companhia está dedicando esforços para estruturar soluções de ponta para o mercado de datacenters, um setor que se expande rapidamente no Brasil.
Segundo Alcaide, as tecnologias da empresa podem viabilizar projetos baseados em fontes limpas com estabilidade e potência firme para cargas críticas, especialmente com o uso de baterias produzidas pela própria Wärtsilä.
EPE aponta potencial para leilões de potência
A presença do presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Prado, em Suape indica que a tecnologia começa a ser observada institucionalmente. Segundo Prado, a empresa avalia que turbinas movidas a etanol podem ser incorporadas aos próximos leilões de potência, instrumento que busca ampliar a segurança e a flexibilidade do sistema elétrico.
O posicionamento adiciona peso regulatório ao projeto e reforça que o uso de biocombustíveis na geração térmica pode evoluir para um novo padrão competitivo no país.
Datacenters no Nordeste: etanol pode destravar projetos off-grid
Especialista em infraestrutura energética e telecomunicações, o professor Reive Barros, coordenador dos debates técnicos da Conferência Ibero Brasileira de Energia (Coniben), argumenta que a tecnologia pode ajudar o Nordeste a atrair investimentos multibilionários em datacenters.
Diante dos gargalos de transmissão que a região enfrenta, limitando a conexão de grandes cargas, Barros ressaltou que soluções independentes da rede podem acelerar a instalação de novos empreendimentos, afirmando: “Precisamos entender que vamos ter que usar energia renovável nesse novo mercado e precisamos fazer isso sem depender de linhas de transmissão que não serão construídas a tempo de ocupar essa janela”.
Na sequência, Barros ainda reforça a lógica dos projetos híbridos: “Ter usinas térmicas junto de parques eólicos e solares é fundamental para capturar projetos de datacenters. O custo da transmissão no Brasil pode inviabilizar vários projetos desses equipamentos. O caminho é ter projetos off-grid”.
Uma nova fronteira para a geração térmica renovável
Com a turbina em montagem e o ciclo inicial de testes programado, o Brasil se posiciona na vanguarda mundial da geração térmica renovável. A tecnologia combina potência firme, flexibilidade operativa e redução significativa de emissões, atributos centrais para um sistema elétrico cada vez mais baseado em fontes intermitentes.
A iniciativa em Suape inaugura um modelo que pode redefinir o papel da geração térmica no país: de emissora de gases de efeito estufa para aliada estratégica da transição energética.



