COP30: Brasil firma parceria estratégica com a Global Energy Alliance para acelerar eletrificação renovável e desenvolvimento inclusivo na Amazônia

Iniciativa prevê cinco anos de cooperação para ampliar energia limpa, impulsionar a bioeconomia e eliminar a pobreza energética na região

A COP30 marcou um novo capítulo para a política energética brasileira e para os esforços globais rumo à transição sustentável. Durante o evento, realizado em Belém (PA), o Ministério de Minas e Energia (MME) formalizou uma parceria de cinco anos com a Global Energy Alliance for People and Planet (GEAPP), com o objetivo de expandir o fornecimento de energia renovável e criar oportunidades socioeconômicas em comunidades isoladas da Amazônia. O protocolo, assinado em 15 de novembro de 2025, estabelece um conjunto de ações estratégicas que buscam enfrentar o desafio histórico da pobreza energética na região, onde cerca de 1 milhão de pessoas vivem sem acesso à eletricidade e outras 2 milhões permanecem fora do Sistema Interligado Nacional (SIN).

A iniciativa reforça a agenda brasileira de transição energética inclusiva, redução da dependência de combustíveis fósseis e fortalecimento da bioeconomia amazônica. Ao mesmo tempo, alinha-se ao movimento regional da América Latina, que nos últimos anos alcançou avanços acelerados em universalização do acesso à energia, impulsionados por regulação estável e investimentos robustos em infraestrutura elétrica.

Desafio histórico: eletrificação em territórios remotos

A Amazônia concentra mais de 95% da população brasileira ainda sem acesso à eletricidade. A combinação de longas distâncias, baixa densidade populacional, logística complexa e ecossistemas sensíveis transforma a expansão da infraestrutura tradicional em um empreendimento oneroso e demorado. Nesse contexto, soluções renováveis descentralizadas, como sistemas solares híbridos, armazenamento em baterias e microgrids, emergem como alternativas cada vez mais estratégicas para garantir suprimento confiável e sustentável.

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Durante a assinatura do protocolo, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silva, destacou a relevância da iniciativa para a agenda energética nacional. Segundo ele, o Brasil vive uma fase decisiva em que inclusão social, segurança energética e descarbonização caminham juntas.

“O Brasil está mostrando que é possível combinar inclusão energética, responsabilidade climática e oportunidade econômica. Esta parceria com a Global Energy Alliance reforça o compromisso nacional de levar energia renovável e universal a todas as famílias brasileiras. Estamos transformando a ambição climática em ação concreta”, afirmou o ministro.

Integração com o programa Energias da Amazônia

A nova parceria amplia o escopo de atuação do MME dentro do programa Energias da Amazônia, considerado a maior iniciativa de descarbonização em curso no mundo voltada a sistemas isolados. O secretário nacional de Transição Energética e Planejamento, Gustavo Ataíde, ressaltou que o protocolo reforça o uso produtivo da energia como vetor de desenvolvimento econômico local.

“Estamos alinhando investimento e inovação para garantir que a energia limpa impulsione os empreendimentos locais, apoie serviços essenciais e promova o crescimento econômico inclusivo. Isso converge com as nossas diretrizes do Energias da Amazônia, que é o maior programa de descarbonização do mundo. É geração de energia limpa com qualidade para a população”, afirmou.

Segundo o MME, a cooperação com a GEAPP permitirá fortalecer políticas energéticas, ampliar o acesso, acelerar a implementação de projetos e aumentar a eficiência das ações públicas em áreas remotas.

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GEAPP: energia limpa como motor de oportunidades

A GEAPP, fundada em 2021 por instituições filantrópicas globais, atua em mais de 30 países com a missão de eliminar a pobreza energética e promover soluções renováveis sustentáveis e centradas nas pessoas. Para a organização, a parceria com o Brasil representa um passo estratégico para escalonar modelos de eletrificação equitativa em regiões de floresta tropical.

O CEO da entidade, Woochong Um, contextualizou o impacto esperado da cooperação. “Temos orgulho de firmar esta parceria com o governo brasileiro e o Ministério de Minas e Energia para transformar energia limpa em oportunidade para comunidades em toda a Amazônia. Isso vai além da eletricidade, trata-se de dignidade, meios de subsistência e um futuro justo para cada família. Junto à liderança do Brasil, estamos demonstrando como a energia renovável pode substituir os combustíveis fósseis e fortalecer as economias locais, impulsionando o beneficiamento do açaí, a pesca, as escolas, os postos de saúde e muito mais. O que construirmos na Amazônia pode se tornar um modelo de eletrificação equitativa e crescimento inclusivo em toda a América Latina e além”, afirmou.

A proposta inclui acelerar a adoção de sistemas solares híbridos, expandir o armazenamento em baterias, fortalecer a capacitação local e ampliar projetos de uso produtivo da energia, promovendo cadeias de valor sustentáveis.

Para entender os desafios técnicos, regulatórios e operacionais desse processo, conversamos com CEO da entidade, Woochong Um:

1. A parceria anunciada durante a COP30 propõe levar energia renovável a comunidades remotas da Amazônia. Quais são as principais tecnologias previstas para viabilizar essa expansão – sistemas solares isolados, híbridos, baterias, microgrids?

A abordagem é adaptada à geografia e às necessidades de cada comunidade. Em algumas áreas, sistemas solares independentes abastecerão empresas, escolas, clínicas e residências. Em outras, sistemas híbridos de energia solar com baterias substituirão a geração a diesel. Além disso, redes isoladas atualmente movidas a combustíveis fósseis serão convertidas em híbridas, com a adição de energia solar e baterias para minimizar o consumo de combustível. Vilas maiores serão atendidas por microgrids renováveis que integram energia solar, armazenamento e, quando viável, biomassa ou pequenas hidrelétricas. As baterias são essenciais em todos os modelos para garantir um fornecimento confiável. 

2. Quais são hoje os maiores entraves técnicos e logísticos para a eletrificação da Amazônia? E de que forma o acordo pretende superar o alto custo e a complexidade de implantação nesses territórios?

A distância, a baixa densidade populacional, a demanda limitada por energia, o transporte difícil e os ecossistemas frágeis tornam a expansão tradicional da rede elétrica cara e lenta. Os altos custos iniciais dos sistemas descentralizados também podem desestimular investimentos. Nossa parceria ajuda a enfrentar essas barreiras ao combinar o sólido marco regulatório do Brasil e a expertise local de nossos parceiros com a experiência global e o capital mobilizador da Aliança. De modo decisivo, o programa integra o uso produtivo da energia desde o início, conectando o novo acesso à eletricidade a atividades geradoras de renda, como pesca, beneficiamento de açaí e agricultura. Ao garantir que o acesso à energia apoie diretamente os meios de subsistência e estimule o crescimento da bioeconomia, fortalecemos tanto o argumento econômico quanto o social em favor da sustentabilidade de longo prazo.

3. O texto menciona a meta de eliminar a pobreza energética na região. Existe uma estimativa de quantas comunidades ou famílias serão beneficiadas diretamente nos primeiros anos da parceria?

Quase um milhão de brasileiros ainda vivem sem acesso à eletricidade — 95% deles na Amazônia. Outros 3 milhões ainda dependem da geração a diesel. A parceria concentrará seus esforços inicialmente nas comunidades mais isoladas, identificadas por meio do mapeamento de sistemas isolados do Ministério de Minas e Energia. Na primeira fase, cerca de dez comunidades serão conectadas a minigrids comunitários voltad0s ao uso produtivo da energia. 

4. A integração entre energia limpa e desenvolvimento local é um dos pilares da iniciativa. Como o programa vai estimular o uso produtivo da eletricidade, conectando geração renovável a atividades econômicas como pesca, beneficiamento de açaí e bioeconomia?

A energia é apenas o ponto de partida. O objetivo é conectar a energia limpa aos meios de subsistência, oferecendo armazenamento a frio para pescadores, secadores eficientes para produtores de açaí e maquinário para o processamento local de produtos da floresta. O programa apoiará cooperativas e pequenos empreendimentos no uso da eletricidade, de forma a aumentar a renda e fortalecer a crescente bioeconomia da região, tornando a transição ao mesmo tempo verde e inclusiva.

5. Em termos de regulação, que tipo de aperfeiçoamento ou flexibilização será necessário para permitir modelos de negócio sustentáveis em sistemas isolados e híbridos na Amazônia?

O progresso duradouro dependerá de regras claras e de longo prazo para sistemas híbridos e isolados, de estruturas tarifárias justas e de subsídios inteligentes que recompensem a confiabilidade e o benefício social. Nossa parceria atuará junto a reguladores federais e estaduais para fortalecer os marcos regulatórios que permitem que concessionárias, desenvolvedores privados e comunidades instalem e operem sistemas renováveis viáveis, reduzindo a dependência do diesel e garantindo a acessibilidade para as famílias.

  1. O Ministério de Minas e Energia tem conduzido leilões específicos para sistemas isolados. De que forma essa parceria com a GEAPP pode contribuir para atrair novos investidores e ampliar a competitividade desses leilões?

Ao reduzir riscos, oferecer apoio técnico e financeiro e vincular o acesso à energia a usos produtivos que impulsionem as economias locais, a parceria torna os projetos mais atrativos para investimento. A GEAPP traz experiência internacional na integração de programas de uso produtivo de energia à implementação de sistemas energéticos, bem como na combinação de financiamentos públicos, privados e filantrópicos. Essa combinação ajuda a reduzir os custos de capital e a garantir que os sistemas de energia sejam viáveis e sustentáveis, permitindo que mais comunidades se beneficiem de soluções renováveis de alta qualidade e menor custo.

  1. O texto fala em “financiamento, assistência técnica e intercâmbio de conhecimento”. Como esses três pilares serão estruturados na prática e quais instituições nacionais estarão envolvidas na execução?

Esses pilares atuam de forma integrada. O financiamento combinará doações e capital concessionário para destravar investimentos públicos e privados em maior escala. A assistência técnica ajudará a desenhar projetos, fortalecer instituições locais e contribuir para o aprimoramento de políticas públicas. A troca de conhecimento conectará especialistas nacionais e internacionais, compartilhando aprendizados por meio da participação do Brasil em nossa Coalizão de Acesso Universal. O Ministério de Minas e Energia liderará a coordenação, com o apoio de outras agências federais, concessionárias e parceiros locais. 

  1. A iniciativa está inserida no contexto de uma transição energética inclusiva. Como o governo pretende garantir que essa expansão da energia limpa não apenas substitua os combustíveis fósseis, mas também gere capacitação, emprego e renda local?

Cada projeto incluirá engajamento comunitário e fortalecimento de capacidades locais, com a capacitação de técnicos, operadores e empreendedores, além do envolvimento das comunidades na cocriação de soluções adaptadas às suas necessidades específicas. A transição para minigrids renováveis e sistemas híbridos criará empregos nas áreas de instalação, manutenção e uso produtivo da energia. Ao trabalhar em estreita colaboração com as comunidades, o programa conectará o novo acesso à eletricidade ao desenvolvimento de negócios e a oportunidades de financiamento, garantindo que a energia contribua diretamente para a renda das famílias e para a resiliência econômica.

  1. Há menção ao fortalecimento de políticas energéticas e à cooperação internacional. O Brasil pode se tornar um modelo regional de eletrificação justa e sustentável? Como o país pretende compartilhar as lições aprendidas com outros países da América Latina?

Sem dúvida. A liderança do Brasil em regulação, leilões competitivos e integração de energias renováveis o posiciona como um modelo regional de eletrificação justa e sustentável. Em toda a América Latina e o Caribe, quase 17 milhões de pessoas ainda vivem sem acesso confiável à eletricidade — muitas delas em comunidades remotas ou insulares, onde a expansão da rede permanece proibitivamente cara.

Por meio das redes regionais da GEAPP e da Coalizão de Acesso Universal — uma plataforma colaborativa lançada com parceiros-chave de governos, bancos de desenvolvimento e sociedade civil — estamos conectando países para compartilhar aprendizados, fortalecer capacidades locais e mobilizar financiamento para soluções energéticas inclusivas e renováveis.

O progresso do Brasil na Amazônia oferecerá exemplos concretos para outros países da região, demonstrando como o acesso à energia limpa pode caminhar lado a lado com a geração de oportunidades econômicas e a proteção de ecossistemas vitais.

  1. Por fim, quais resultados concretos podem ser esperados até o 2º Workshop Energias da Amazônia, em dezembro, e quais são as metas de curto e médio prazo dessa parceria de cinco anos?

Até o workshop de dezembro, esperamos apresentar a rede de atores e colaboradores, compartilhar os primeiros resultados dos recentes leilões de contratação de sistemas isolados, anunciar os projetos iniciais de sistemas híbridos e de armazenamento e destacar iniciativas-piloto que conectam o acesso à energia a usos produtivos.

Nos próximos cinco anos, a parceria ampliará esses modelos por toda a Amazônia, levando energia renovável e confiável a centenas de comunidades, formando uma força de trabalho local qualificada e demonstrando que o caminho rumo à emissão zero pode também gerar empregos, promover inclusão e apoiar um crescimento sustentável

Próximos passos: Workshop Energias da Amazônia em Manaus

O encontro reunirá autoridades, concessionárias, especialistas e parceiros de desenvolvimento para debater resultados de leilões de sistemas isolados e avaliar propostas de novos projetos híbridos para comunidades remotas, incluindo tecnologias solares e de armazenamento.

Além disso, o evento deve detalhar como a colaboração entre o MME e a GEAPP será operacionalizada, com foco em financiamento, assistência técnica e intercâmbio de conhecimento, pilares definidos no protocolo de intenções.

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