Documento elaborado com metodologia internacional revela que o modal rodoviário responde por 92,89% das emissões e inaugura nova etapa de planejamento climático no setor de transporte brasileiro
O transporte brasileiro acaba de ganhar um dos diagnósticos mais completos já produzidos sobre sua contribuição para as emissões de gases de efeito estufa (GEE). O Inventário CNT de Emissões de Gases do Efeito Estufa do Setor de Transporte, elaborado pela Ambipar e divulgado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), apresenta dados inéditos que reposicionam o setor na agenda climática nacional e internacional. O levantamento contabiliza 189,84 milhões de toneladas de CO₂ equivalente emitidas em 2023, com destaque para o peso dos veículos leves, responsáveis por 48,25% de todo o volume.
Ao detalhar emissões por modal, rodoviário, ferroviário, aeroviário e aquaviário, o inventário inaugura uma nova fase de planejamento rumo à descarbonização do setor, permitindo a formulação de políticas públicas e estratégias empresariais baseadas em métricas transparentes e metodologias reconhecidas internacionalmente.
Diagnóstico amplo reforça liderança do modal rodoviário nas emissões
A predominância das emissões do transporte rodoviário não é novidade para especialistas, mas o inventário consolida dados com precisão inédita. O modal é responsável por 92,89% de todas as emissões do setor, reflexo direto de sua participação majoritária na matriz logística do país: 65% de toda carga transportada e mais de 90% da movimentação de passageiros dependem de estradas.
Entre os diversos perfis de veículos analisados, os automóveis, motocicletas e comerciais leves aparecem como os maiores emissores absolutos, uma consequência do tamanho da frota, da dispersão urbana e da baixa eficiência energética média desses veículos. Em seguida vêm os veículos pesados, como caminhões, ônibus e micro-ônibus, que apesar de menor participação, possuem forte contribuição devido ao elevado consumo de diesel.
Já o transporte aeroviário surge como o segundo maior emissor entre os modais, com 4,89% do total, considerando exclusivamente voos domésticos. O ferroviário, que engloba trens urbanos, VLTs e ferrovias de cargas, responde por 1,80%; enquanto o aquaviário, incluindo cabotagem e transporte fluvial, representa apenas 0,41%, reforçando seu potencial como alternativa de menor impacto ambiental dentro da matriz logística nacional.
Setor privado lidera a iniciativa e reforça compromisso com governança climática
Um dos aspectos mais relevantes do inventário é seu caráter pioneiro e voluntário. A elaboração foi conduzida pelo próprio setor privado, com participação de 36 entidades que forneceram dados primários por modal. O estudo utiliza metodologias internacionalmente reconhecidas, como o GHG Protocol, do World Resources Institute (WRI), e diretrizes do IPCC, da ONU.
Essa iniciativa sinaliza um avanço estratégico para o transporte brasileiro, posicionando o setor em linha com práticas globais de reporte ambiental e abrindo caminho para que as informações possam futuramente ser incorporadas a inventários oficiais do governo federal.
Segundo a CNT, a consolidação dessas métricas fortalece a transparência, aprimora a governança corporativa e oferece ferramentas sólidas para empresas e poder público orientarem investimentos, mitigações e metas de redução.
Gestão baseada em dados: falas reforçam importância do inventário
Ao comentar o lançamento do estudo, o presidente do Sistema Transporte (CNT, SEST SENAT e ITL), Vander Costa, reforçou que o setor precisa de informação qualificada para avançar em direção a operações mais limpas. Em sua fala, inserida no contexto do anúncio do inventário, ele destacou a importância estratégica dos dados.
“O Inventário oferece uma base segura para planejar os próximos passos rumo à descarbonização, mostrando onde o setor está e permitindo definir aonde quer chegar”, afirmou.
A declaração evidencia o papel do diagnóstico como instrumento de planejamento e reflete a percepção de que a agenda climática deixou de ser apenas um compromisso reputacional, passando a integrar as decisões operacionais e de investimentos das empresas de transporte.
Transporte coletivo ganha destaque como solução estratégica de mitigação
Além de mensurar o impacto dos modais, o inventário destaca o transporte coletivo como elemento central da estratégia de descarbonização. Pela natureza de sua operação, alta capacidade, menor número de veículos e eficiência energética superior, o transporte público apresenta menor emissão por passageiro transportado, reforçando a necessidade de políticas de incentivo à mobilidade coletiva nas cidades brasileiras.
O estudo também incorpora, pela primeira vez, as emissões relacionadas às infraestruturas portuária e aeroportuária, ampliando a visão sistêmica do impacto ambiental do setor e permitindo identificar oportunidades de mitigação em toda a cadeia logística.
Boas práticas mostram que setor já avança além da medição
O inventário não se limita a mapear o problema: ele reúne também 18 estudos de caso sobre iniciativas de mitigação já implementadas por empresas do setor de transporte, incluindo ações de transição energética, eficiência operacional, reflorestamento e inovação tecnológica.
Ao contextualizar esse capítulo, a diretora executiva da CNT, Fernanda Rezende, ressalta que as empresas já estão implementando soluções concretas. “São práticas executadas em campo, em empresas que possuem certificados internacionalmente reconhecidos, demonstrando que o setor não apenas mede suas emissões, mas também já age para reduzi-las. Essas empresas não estão esperando a regulação chegar. Elas já estão resolvendo os impactos ambientais com responsabilidade e visão de futuro”.
O conjunto de iniciativas reforça que o setor de transporte já se movimenta em direção a operações mais eficientes e com menor impacto climático, alinhado às exigências de competitividade global.
Inventário inaugura novo patamar para o planejamento climático do setor
A partir dos resultados apresentados, especialistas avaliam que o inventário da CNT deve se tornar uma referência estruturante para políticas públicas, investimentos privados e estratégias de descarbonização no transporte. Ao identificar focos de emissão por categoria veicular, tipo de combustível, região e infraestrutura associada, o levantamento cria condições para que programas de redução sejam mais precisos, eficientes e monitoráveis.
O setor de transporte, historicamente responsável por parcela significativa das emissões brasileiras, passa a contar com uma ferramenta robusta que fortalece a tomada de decisão e pavimenta o caminho para um futuro mais sustentável.



