Estudo revela que taxação sobre o carbono traz mais benefícios sociais que mercado de crédito, aponta Observatório Tributário

Análise do Observatório Brasileiro do Sistema Tributário, divulgada na COP 30, mostra que impostos sobre carbono são mais eficientes e transparentes do que o comércio de créditos, com potencial para reduzir desigualdades e financiar políticas climáticas

Às vésperas da COP 30, que começa hoje (10) em Belém (PA), o Observatório Brasileiro do Sistema Tributário (OBST) lançou um estudo que promete influenciar as discussões sobre a precificação do carbono no Brasil e no mundo. Intitulado “Como organizações internacionais precificam o carbono?”, o levantamento comparou 201 documentos oficiais e estudos técnicos produzidos entre 2017 e 2024 por três das principais entidades multilaterais, OCDE, FMI e Banco Mundial, e traz uma conclusão contundente: a tributação sobre o carbono (carbon tax) é mais eficiente para promover benefícios sociais diretos do que o mercado de crédito de carbono.

O estudo aponta que os carbon taxes garantem maior transparência na destinação das receitas e permitem retornos sociais mais amplos, como investimentos em mitigação, adaptação climática e políticas públicas de proteção às populações mais vulneráveis.

“Brasil tem estrutura pronta para administrar o tributo”, diz Isac Falcão

O levantamento, coordenado pelo professor doutor Francisco Mata Machado, da Universidade Federal de Goiás (UFG), contou com a colaboração de uma equipe multidisciplinar e do Auditor-Fiscal e ex-presidente do Sindifisco Nacional, Isac Falcão, que também é coordenador executivo do OBST.

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Ao comentar as conclusões do estudo, Falcão destacou que o Brasil possui condições estruturais para adotar um imposto sobre o carbono, sem necessidade de uma reforma profunda no sistema tributário.

“Nós temos uma estrutura tributária robusta, reconhecida internacionalmente e que não teria que sofrer grandes modificações para passar a administrar um tributo sobre as emissões.”

No entanto, ele fez uma ressalva sobre os desafios logísticos e regulatórios do sistema alternativo, o mercado de carbono.

“No mercado de carbono, os governos emitem certificados que autorizam as emissões dentro de certos limites, e esses certificados são negociados no mercado. O controle sobre o atendimento a esses limites exigiria todo um arcabouço normativo específico e uma estrutura de fiscalização completamente nova, algo que demora anos para ser criado, que não atende, portanto, à urgência imposta pelas mudanças climáticas.”

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A fala reflete a preocupação de especialistas com o tempo de resposta das políticas climáticas. Para Falcão, um carbon tax bem estruturado pode gerar resultados mais rápidos e tangíveis, financiando programas de transição energética, energias renováveis e justiça climática.

Carbon tax x mercado de carbono: diferenças e impactos

Segundo o estudo, tanto o Banco Mundial quanto a OCDE e o FMI reconhecem a importância da precificação do carbono, mas alertam que ela não é suficiente isoladamente para reduzir emissões. A efetividade das políticas depende de boa governança, regulação clara e engajamento social.

O relatório ressalta que, enquanto o mercado de carbono cria instrumentos financeiros negociáveis entre empresas, o imposto sobre carbono garante arrecadação direta para o Estado, que pode reinvestir os recursos em políticas públicas. Essa característica, segundo o Observatório, torna o carbon tax mais transparente e socialmente justo, principalmente em países com desigualdade econômica acentuada, como o Brasil.

Além disso, o estudo mostra que a simplicidade administrativa do modelo tributário favorece sua rápida implementação, sem necessidade de criar novas agências reguladoras ou sistemas de monitoramento complexos.

Governança, democracia e justiça social como pilares

O professor Francisco Mata Machado, coordenador acadêmico do estudo, destacou que tanto o carbon tax quanto o mercado de emissões devem ser acompanhados de políticas de mitigação, educação ambiental e participação social.

“Ao analisamos os documentos, fica evidente que, tanto a tributação, quanto a adoção de sistemas de comércio de emissões devem caminhar lado a lado com a elaboração de políticas de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, de contenção dos efeitos regressivos dos tributos sobre emissões e da promoção de sociedades mais igualitárias. Processos decisórios democráticos e inclusivos, referenciados em conferências, conselhos, audiências públicas, orçamentos participativos, referendos e iniciativas populares de educação fiscal e ambiental são essenciais para garantir o sucesso das iniciativas”, destacou Machado.

A proposta reforça a necessidade de transparência e diálogo público em torno das políticas de precificação de carbono, para evitar que o ônus da transição recaia sobre as populações mais pobres.

Propostas em tramitação e contexto brasileiro

O relatório também menciona que o Brasil ainda precisa avançar na regulamentação de tributos sobre emissões. O texto cita o Projeto de Lei Complementar (PLP) 29/2025, apresentado pela Frente Parlamentar Ambientalista, que propõe alterar a Lei Complementar 214/2025 para incluir o Imposto Seletivo sobre operações de emissões de gases de efeito estufa.

A proposta foi desenvolvida com o apoio técnico do Grupo de Estudos e Pesquisas Sociofiscais da UFG, instituição que abriga o Observatório Brasileiro do Sistema Tributário, e pode servir de base para a criação de um modelo brasileiro de carbon tax, simples, transparente e socialmente orientado.

O papel do Brasil na COP 30

O lançamento do estudo durante a COP 30, sediada em Belém (PA), reforça o papel estratégico do Brasil nas negociações climáticas globais. O país tem buscado equilibrar sua agenda ambiental com a reforma tributária em curso, podendo tornar-se referência em fiscalidade verde e governança climática justa.

O documento completo está disponível no site do Observatório Brasileiro do Sistema Tributário e será debatido em painéis específicos da COP 30, com foco nas ferramentas fiscais como instrumentos de transição energética e combate às desigualdades.

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