Grupo J&F aposta em retomada do programa nuclear brasileiro e avalia pequenos reatores para atender regiões isoladas da Amazônia
A Âmbar Energia, braço de energia do grupo J&F, deu um passo decisivo para ingressar de forma robusta no setor nuclear brasileiro. Após anunciar a compra da participação da Eletrobras na Eletronuclear, a companhia projeta não apenas a conclusão da usina de Angra 3, mas também a construção de novas usinas nucleares, sinalizando um movimento estratégico de expansão da geração nuclear no país.
Durante o Euroconsumers Fórum Brasil 2025, em Brasília, o CEO da Âmbar, Marcelo Zanatta, afirmou que a meta da empresa vai além da reativação do projeto em Angra dos Reis (RJ). “O plano de crescimento é para fazer Angra 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10”, disse o executivo, destacando a visão de longo prazo do grupo.
Angra 3 e o novo ciclo da energia nuclear no Brasil
A aquisição da participação da Eletrobras na Eletronuclear ainda depende da avaliação da ENBPar, que tem direito de preferência na operação. Segundo Zanatta, a expectativa é que o processo seja concluído em cerca de seis meses.
O CEO ressaltou que, embora a Âmbar não tenha a obrigação contratual de concluir Angra 3, da mesma forma que a Eletrobras havia sido desobrigada em acordo anterior com a União, o compromisso empresarial é de avanço.
“A partir do momento que nós estivermos no negócio e que for economicamente viável, o que a gente acredita que seja, com certeza nós vamos analisar e fazer os investimentos”, afirmou Zanatta.
A movimentação da Âmbar acontece em um momento em que o governo federal volta a discutir a importância estratégica da energia nuclear para a segurança energética nacional e a descarbonização da matriz. A conclusão de Angra 3, parada há décadas, é vista como uma peça-chave nesse esforço, com potencial para gerar cerca de 1.400 MW e reforçar a estabilidade do sistema elétrico brasileiro.
SMRs e descentralização da geração nuclear
Outro eixo do plano de expansão da Âmbar é o investimento em pequenos reatores nucleares modulares (SMRs, na sigla em inglês), uma tecnologia emergente que promete maior flexibilidade e segurança operacional. Zanatta destacou que o modelo pode ser especialmente vantajoso para comunidades isoladas da região Norte, atualmente dependentes do transporte de diesel por longas distâncias.
“Tem comunidade que a Amazonas Energia está presente, que levam até sete dias de barco para chegar. Se você colocar esse microreator nuclear com combustível que dura um ano, você não tem que ficar transportando o diesel. A gente acredita que você consegue descarbonizar o Amazonas e trazer confiança e segurança pra toda a comunidade”, afirmou o CEO.
A Âmbar está em processo de aquisição das distribuidoras Amazonas Energia e Roraima Energia, o que reforça a coerência do plano de levar a geração nuclear modular para áreas remotas.
“Na minha opinião, a energia nuclear não tem que ficar só em Angra, tem que ser lá a usina nuclear no Amazonas, a usina nuclear no Centro-Oeste, a usina nuclear no Nordeste, que você tenha esses hubs de apoio que consigam sustentar eletricamente a região”, completou Zanatta.
A proposta se alinha ao debate global sobre descentralização da geração elétrica e uso de tecnologias de baixa emissão de carbono para atender regiões sem acesso confiável à rede.
Data centers e sinergia com usinas térmicas e nucleares
Além dos projetos nucleares, a Âmbar também estuda instalar data centers em suas plantas térmicas e nucleares. Segundo Zanatta, a ideia é aproveitar a infraestrutura existente e garantir que o consumo dessas operações não onere o sistema elétrico nem pressione tarifas.
“Se você olhar toda a parte de regulação do Brasil, com essas térmicas estratégicas em localidades importantes, você colocar data center para que não consuma [energia] dentro do sistema, que os consumidores não sejam impactados com tarifas, com encargos, é algo que faz sentido”, explicou o executivo.
As usinas térmicas de Uruguaiana (RS) e Goiânia II (GO) estão entre os ativos avaliados para receber esse tipo de estrutura, que pode representar uma nova fronteira de integração entre geração elétrica e infraestrutura digital no país.
Perspectivas para o futuro da geração nuclear no Brasil
Com a entrada da Âmbar, o setor nuclear brasileiro pode ganhar novo fôlego após anos de indefinição institucional e paralisia em projetos estratégicos. A expansão da geração nuclear desponta como alternativa para garantir segurança energética e reduzir a dependência de fontes fósseis em um cenário de transição global.
Caso o negócio com a Eletronuclear seja concretizado, a Âmbar passará a ocupar papel central na retomada do programa nuclear nacional, algo que há muito tempo estava restrito ao âmbito estatal. A aposta em Angra 3 e nos SMRs reforça uma tendência de diversificação tecnológica e abertura de mercado, ampliando o debate sobre governança, regulação e aceitação social da energia nuclear no Brasil.



