Primeira reunião do Relatório de Análise de Perturbação reuniu mais de 250 profissionais e apontou falha na proteção da Subestação Bateias como fator determinante para o isolamento da região Sul do Sistema Interligado Nacional
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apresentou, em reunião realizada no dia 17 de outubro, as análises preliminares sobre a perturbação registrada no Sistema Interligado Nacional (SIN) na madrugada de 14 de outubro de 2025. O encontro, que faz parte da elaboração do Relatório de Análise de Perturbação (RAP), contou com a participação de representantes do Ministério de Minas e Energia (MME), da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e de mais de 250 profissionais de empresas e agentes setoriais.
De acordo com o ONS, a ocorrência teve início com um incêndio no reator de linha da LT 500 kV Ibiúna, Bateias C2, ativo de propriedade da Eletrobras, identificado como o evento zero do incidente. A proteção do circuito C2 atuou corretamente, desligando a linha afetada. No entanto, o circuito C1 da mesma linha foi desligado incorretamente, o que, isoladamente, não teria potencial para causar perturbação significativa no sistema.
Falha na Subestação Bateias foi ponto crítico do evento
A análise do ONS aponta que o problema se agravou quando, em decorrência do incêndio, a falta se estendeu ao barramento da Subestação Bateias, operada pela Copel. A expectativa técnica era de que a proteção de barramento eliminasse a falta sem prejuízos à operação do SIN, especialmente por se tratar de uma instalação com arranjo robusto, em configuração de barra dupla a disjuntor e meio, um modelo projetado justamente para garantir maior confiabilidade e redundância.
Contudo, a proteção não atuou conforme esperado, resultando em desligamentos múltiplos das linhas de transmissão conectadas à subestação. A sequência incluiu o desligamento das LTs 500 kV Londrina, Assis e 765 kV Ivaiporã, Itaberá, Tijuco Preto, levando à desconexão da região Sul do restante do país.
Efeitos imediatos: desequilíbrio de frequência e controle de carga
No momento da desconexão, a região Sul exportava cerca de 5.000 MW para o restante do SIN. A separação física do sistema gerou desequilíbrios de frequência: elevação no Sul (excesso de geração) e redução nas demais regiões (geração inferior à carga demandada).
Nas regiões Sudeste/Centro-Oeste, Norte e Nordeste, a subfrequência foi controlada pela atuação automática do Esquema Regional de Alívio de Carga (ERAC), que realiza cortes controlados de carga para restabelecer o equilíbrio entre geração e demanda. No Sul, por sua vez, a sobrefrequência foi estabilizada por meio do desligamento de unidades geradoras e da ação dos reguladores de velocidade das usinas que permaneceram conectadas.
Restabelecimento rápido e atuação coordenada
A perturbação teve início às 00h31, e o processo de restabelecimento começou apenas quatro minutos depois, às 00h35. Segundo o ONS, o fornecimento foi totalmente restabelecido até as 02h15, demonstrando eficiência e coordenação entre os operadores regionais e as concessionárias.
O restabelecimento rápido reflete o avanço dos protocolos de resposta a distúrbios sistêmicos, que integram ações automáticas de proteção, coordenação entre centros de operação e mecanismos de recomposição planejada do sistema.
Próximos passos da investigação e aprimoramento do sistema
O ONS agendou a próxima reunião do RAP para o dia 28 de outubro de 2025, ocasião em que serão apresentadas análises mais detalhadas e conclusivas sobre a ocorrência. Após sua conclusão, o relatório será encaminhado aos agentes envolvidos, à ANEEL e ao MME, com as providências técnicas e operacionais recomendadas.
Além de identificar causas técnicas e falhas de atuação, o RAP tem papel essencial na prevenção de novos eventos e na melhoria contínua da confiabilidade do SIN, oferecendo subsídios para aprimorar projetos de proteção, manutenção e integração entre os agentes do setor elétrico.
Um alerta para a importância das proteções sistêmicas
Embora os sistemas elétricos modernos contem com tecnologias avançadas e arranjos de alta confiabilidade, o episódio do dia 14 de outubro reforça a importância da redundância das proteções, da manutenção preventiva e da interoperabilidade entre equipamentos e agentes.
Eventos dessa natureza também evidenciam o papel crítico do ONS como coordenador central do SIN, garantindo que falhas pontuais não se propaguem e afetem a estabilidade e segurança energética nacional.
A expectativa é que o RAP final traga recomendações práticas para fortalecer as rotinas de diagnóstico, testes de proteção e auditorias de sistemas, especialmente em ativos de alta tensão que interligam regiões do país.



