Relatório indica que IA dobrará participação no consumo de energia dos data centers e exigirá US$ 720 bilhões em investimentos até 2030; setor nuclear ganha protagonismo, mas gás natural ainda será maioria
A transformação digital em curso pode redefinir a geopolítica da energia nos próximos anos. Um relatório da Goldman Sachs Research aponta que a demanda global de energia para data centers pode aumentar 50% até 2027, chegando a 92 GW de capacidade instalada. O principal fator por trás desse avanço é a rápida adoção de cargas de trabalho de inteligência artificial (IA).
A comparação entre gerações de sistemas é emblemática. Em 2022, os maiores racks de servidores comportavam oito GPUs. Até 2027, o Goldman projeta que o principal sistema de IA terá 576 GPUs em um rack do tamanho de um armário de arquivo, consumindo 600 kW de energia.
Mudança no perfil do consumo global
Atualmente, os data centers consomem aproximadamente 55 GW em todo o mundo. Desse total, 14% vêm da IA, 54% da computação em nuvem e 32% de cargas tradicionais.
O cenário para 2027, no entanto, projeta uma reconfiguração desse quadro: a participação da IA deve dobrar para 27%, enquanto a nuvem recua para 50% e as cargas convencionais caem para 23%.
O relatório indica que esse movimento não apenas pressiona a infraestrutura energética global, mas também reabre debates sobre segurança energética e sustentabilidade.
Investimentos bilionários para sustentar o crescimento
Para satisfazer a procura projetada, a Goldman Sachs calcula que serão necessários mais de US$ 720 bilhões (R$ 4 trilhões) em novas infraestruturas de serviços públicos até 2030. Esses recursos deverão ser alocados em geração renovável, capacidade nuclear e atualizações de rede elétrica.
A aposta no setor nuclear é especialmente relevante. A indústria de data centers já firmou contratos que somam mais de 10 GW em projetos nucleares tradicionais e avançados.
“As maiores empresas quase vivem com medo de serem perturbadas e mobilizam capital para jogar tanto ofensiva como defensivamente”, afirmou Eric Sheridan, diretor executivo da Goldman Sachs Research.
Fontes de energia: renováveis, gás natural e emissões
O relatório projeta que 40% da nova demanda de energia dos data centers será atendida por renováveis e uma parcela modesta de nuclear. Os 60% restantes, no entanto, deverão vir majoritariamente do gás natural, o que pode elevar as emissões globais em 215 a 220 milhões de toneladas de CO₂ até 2030. Esse volume equivale a 0,6% das emissões globais de energia.
Estados Unidos e Europa em destaque
O relatório indica que os Estados Unidos liderarão o crescimento do consumo. A demanda do país deve dobrar até 2030, após um crescimento de apenas 4% em 2023. Para atender a esse salto, será necessário investir ao menos US$ 50 bilhões (R$ 273 bilhões) em capacidade adicional de geração.
A administração norte-americana, entretanto, tem priorizado o gás natural como solução principal, em detrimento das energias renováveis, que vêm perdendo apoio federal.
Na Europa, o desafio é ainda mais complexo. A região concentra um terço do consumo de energia dos data centers e enfrenta restrições de rede elétrica, o que pode travar o crescimento. A pressão é crescente, e a capacidade de adaptação da rede será determinante para manter a competitividade digital do continente.
Risco de bolha da inteligência artificial
Apesar das projeções de crescimento acelerado, alguns especialistas levantam preocupações quanto à sustentabilidade desse movimento. Há quem veja semelhanças com a bolha das empresas “pontocom”, que marcou o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000.
Figuras como Sam Altman e Jose Tsai já se manifestaram publicamente sobre o risco de que a IA esteja vivendo um ambiente especulativo inflado. Caso a demanda real não acompanhe os investimentos projetados, a infraestrutura em expansão pode se transformar em ativos ociosos.
O dilema energético da era digital
O relatório da Goldman Sachs sugere que o avanço da IA tem potencial para transformar profundamente o setor elétrico global. Ao mesmo tempo, expõe dilemas sobre sustentabilidade, emissões e investimentos bilionários em fontes de energia.
A equação é clara: sem uma expansão coordenada de infraestrutura e maior diversificação de fontes, a escalada energética dos data centers poderá se tornar um dos maiores desafios da transição energética mundial.



