Em novo episódio do podcast Conexões SEEL, Eduardo Lapa critica abordagem reducionista da construção como “custo” e defende mudança de mentalidade para destravar o potencial de 14 GW em PCHs paralisadas no Brasil
Projetos de infraestrutura energética continuam esbarrando em obstáculos previsíveis — e evitáveis — que comprometem o desempenho técnico, econômico e social do setor no Brasil. Para Eduardo Lapa, Diretor de Mercado e Governança da SEEL Engenharia, um dos principais entraves é a visão equivocada que reduz a engenharia e a execução a meros custos contratuais. Essa falha estratégica, segundo ele, impede o avanço de cerca de R$ 100 bilhões em investimentos e pode colocar pequenas e médias empresas (PMEs) em risco de colapso financeiro.
Em novo episódio do podcast Conexões SEEL, Lapa compartilha sua experiência à frente de projetos de infraestrutura e denuncia um erro recorrente que atravessa diferentes segmentos da economia: a ausência de uma abordagem integrada entre planejamento e execução.
“Eu cansei de ver projetos fantásticos se tornarem um pesadelo porque a engenharia e a construção foram tratadas como um custo, e não como um parceiro estratégico desde o dia zero”, afirma Lapa no episódio.
14 GW em potencial hidrelétrico desperdiçados
Lapa utiliza o setor de energia hidrelétrica como um retrato da ineficiência gerada pela fragmentação entre projeto e obra. Com a participação de Alessandra Torres, presidente da Associação Brasileira de PCHs e CGHs (ABRAPCH), o episódio revela que há cerca de 14 GW em potencial de geração por Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) que seguem engavetados, à espera de um ambiente mais confiável para investimentos.
O principal motivo, segundo Lapa, está na desconsideração dos desafios da execução no momento da análise de viabilidade. Ao não envolver construtores e engenheiros desde a concepção, empreendedores e financiadores deixam de antecipar riscos relevantes, o que gera insegurança e paralisia.
Mudança de paradigma: da engenharia contratada à engenharia parceira
A crítica de Lapa vai além da questão energética. Ele propõe uma transformação no modelo de gestão de projetos, em que o construtor deixe de ser apenas o executor contratado e passe a compor a estratégia desde o início do empreendimento.
“A virada de chave acontece quando o empreendedor entende que o verdadeiro lucro não está em espremer o preço da construtora, mas em trazê-la para a mesa de estratégia para otimizar o projeto inteiro. É aí que a ‘mágica’ da engenharia de valor acontece”, destaca.
Essa abordagem, segundo o executivo, amplia a previsibilidade de custos, reduz retrabalhos, fortalece o fluxo de caixa e contribui para que os projetos sejam executados dentro dos prazos e padrões esperados.
Lições para pequenas e médias empresas: o risco de decidir apenas pelo preço
A lógica da integração entre planejamento e execução também é aplicável a negócios de menor porte. Lapa alerta que muitas PMEs cometem o mesmo erro estrutural ao selecionar fornecedores com base exclusivamente no menor preço, ignorando fatores como logística, qualidade e aderência operacional.
“O empresário que escolhe seu principal fornecedor apenas pelo preço, sem considerar a integração com sua logística, qualidade e operação, está fadado a ter ‘surpresas’ que comprometem seu fluxo de caixa e sua reputação”, afirma. Ele compara esse risco à realidade enfrentada por grandes projetos que ignoram o potencial da engenharia de valor.
Para Lapa, essa miopia gerencial ameaça desde o pequeno varejista até grandes investidores do setor energético, e só será superada com uma cultura empresarial que valorize a parceria e o planejamento colaborativo.
Conexões que podem destravar o setor energético nacional
O episódio O Futuro das PCHs e a Segurança Energética no Brasil, já disponível nas plataformas digitais, propõe uma agenda de debates estruturais para o avanço sustentável do setor energético brasileiro. A partir de experiências práticas, Eduardo Lapa e Alessandra Torres defendem a retomada da pauta das PCHs como alternativa viável e estratégica para reforçar a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN) com geração firme e de menor impacto ambiental.
A proposta vai ao encontro das metas de descarbonização da matriz elétrica brasileira, contribuindo com diversificação, interiorização do desenvolvimento e fortalecimento de cadeias produtivas locais.



