Ocorrências saltam 60% em junho e acendem alerta sobre riscos à rede elétrica; uso de linhas cortantes é crime em Minas Gerais
A tradicional brincadeira de soltar pipas, comum nos meses de férias escolares, tem causado prejuízos significativos ao fornecimento de energia elétrica em Minas Gerais. De janeiro a junho de 2025, mais de 398 mil clientes da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) tiveram o fornecimento de energia interrompido devido a ocorrências com pipas em redes elétricas. Foram registradas 1.338 ocorrências no período.
Somente em junho, cerca de 150 mil unidades consumidoras foram impactadas — um aumento de 60% em relação ao acumulado dos cinco meses anteriores, que totalizava 248 mil consumidores afetados. O dado é alarmante, especialmente porque coincide com o recesso escolar, quando a prática se intensifica em áreas urbanas e, muitas vezes, em locais inadequados.
Região Metropolitana concentra maioria dos casos
A Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) lidera o ranking de ocorrências, concentrando 694 registros e mais de 250 mil clientes prejudicados no primeiro semestre. O número representa quase dois terços de todos os impactos registrados no estado, demonstrando a gravidade da situação nos centros urbanos mais densamente povoados.
Segundo técnicos da Cemig, as principais causas das interrupções estão relacionadas ao contato direto das pipas ou de suas linhas com a rede elétrica. Em muitos casos, esse contato resulta em curto-circuitos, rompimento de cabos e falhas em equipamentos, exigindo intervenções técnicas urgentes para restabelecer o serviço.
Pipa com segurança: brincadeira deve ser feita longe da rede elétrica
Para a Cemig, soltar pipa não é um problema — o problema é onde e como a atividade é realizada. “Soltar pipa é uma atividade lúdica e que as crianças e jovens gostam muito. Mas é importante que se tenha consciência de que a brincadeira deve ser realizada em áreas abertas e sem rede elétrica, pois pode causar acidentes graves ou provocar interrupções no fornecimento de energia e prejudicar muitos clientes”, afirma César de Jesus Souza, técnico de Segurança do Trabalho da empresa.
Souza reforça que o uso de linhas cortantes, como cerol ou linha chilena, agrava os riscos à segurança pública. Essas linhas, feitas com materiais abrasivos ou metálicos, podem romper cabos de energia e causar descargas elétricas graves — além de representarem ameaça direta à vida de pedestres e motociclistas.
Resgatar pipa na rede elétrica é perigoso e pode ser fatal
Outro alerta importante da Cemig diz respeito ao resgate de pipas enroscadas na rede elétrica. Tentar recuperar a linha presa em fios ou postes pode provocar choques fatais. “As redes de distribuição, de transmissão e as subestações da Cemig são construídas dentro dos padrões técnicos brasileiros. A aproximação indevida e o uso de cerol e linha chilena têm sido os principais causadores de acidentes com a rede elétrica”, afirma o especialista.
A empresa também orienta a população a não tentar interferir em equipamentos energizados e, em caso de acidente ou risco iminente, entrar em contato imediatamente com a companhia por seus canais oficiais.
Cemig atua em campanhas de conscientização
Preocupada com a recorrência dos incidentes, a Cemig realiza campanhas educativas ao longo do ano em escolas, associações de bairro, mídias e espaços públicos. As ações são voltadas à conscientização sobre os riscos do uso de pipas próximo à rede elétrica e buscam promover a cultura da segurança, especialmente entre crianças e adolescentes.
Essas iniciativas ganham reforço nos períodos de férias, quando os casos costumam se multiplicar. Além das orientações técnicas, a companhia também apoia medidas legislativas para coibir práticas perigosas e conscientizar a população sobre a responsabilidade no uso do espaço público.
Cerol e linha chilena são proibidos por lei em Minas Gerais
Desde dezembro de 2019, a Lei Estadual 23.515/2019 proíbe em todo o estado de Minas Gerais a fabricação, comercialização e o uso de cerol e linha chilena em pipas, papagaios e brinquedos semelhantes. A norma visa proteger a integridade das redes elétricas e garantir a segurança das pessoas.
As penalidades previstas na legislação são severas: vão de R$ 5.531 a R$ 276 mil nos casos de reincidência. Se o material estiver com crianças ou adolescentes, os pais ou responsáveis podem responder legalmente, com o caso sendo encaminhado ao Conselho Tutelar.
César de Jesus Souza ainda alerta para o potencial elétrico de linhas com materiais condutores. “Ao ser revestida com cerol ou feita com arames e fios metálicos, a linha da pipa se torna um condutor de eletricidade. Se atingir a rede elétrica, pode provocar acidentes graves”, explica.
Risco à vida humana e à infraestrutura elétrica
Para além das interrupções de energia, o uso de linhas cortantes representa risco direto à vida. Já foram registrados casos de acidentes graves e até mortes de motociclistas, ciclistas e pedestres atingidos por linhas invisíveis, tensionadas no ar.
“Essas práticas, além de ilegais, colocam vidas em risco e afetam serviços essenciais como hospitais, escolas, indústrias e residências. O uso de cerol ou linha chilena pode resultar em ferimentos graves e até fatais. Por isso, essa prática jamais deve ser incentivada”, finaliza o técnico da Cemig.



