Lula aumenta a pressão sobre o CNPE por definição do futuro de Angra 3 e reestruturação da Eletronuclear

Investimentos paralisados e custos crescentes com armazenamento geram impasse técnico e fiscal para o governo federal

Durante reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) realizada nesta quarta-feira (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cobrou dos ministros presentes a realização de uma reunião extraordinária até o fim de 2025 para discutir dois temas sensíveis ao setor energético: a continuidade das obras da usina nuclear Angra 3 e a reestruturação da governança da Eletronuclear, estatal que conduz o projeto.

Apesar de a pauta formal do encontro no Ministério de Minas e Energia (MME), em Brasília, estar centrada na indústria de biocombustíveis, Lula utilizou o espaço para retomar a discussão sobre Angra 3, cuja construção se arrasta há mais de quatro décadas. A usina está com 65% das obras concluídas e permanece paralisada desde 2015, gerando gastos elevados ao erário e incertezas ao setor elétrico.

“Foi uma cobrança direta do presidente, que exigiu de nós e dos demais ministros um posicionamento sobre esse tema ainda este ano”, relatou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, destacando a importância de definir com clareza o papel da energia nuclear frente ao crescimento da demanda elétrica nacional.

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Angra 3: entre a retomada e a desistência bilionária

Segundo estimativas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a finalização de Angra 3 custaria cerca de R$ 23 bilhões, sendo que 90% desse valor seriam obtidos via financiamento e o restante, aportado por acionistas, como a própria União, por meio da ENBPar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional). Por outro lado, desistir definitivamente do projeto também teria um preço elevado: aproximadamente R$ 21 bilhões, em razão de investimentos já realizados e contratos firmados.

Além disso, o armazenamento anual dos equipamentos já adquiridos custa R$ 200 milhões aos cofres públicos, valor que vem sendo desembolsado desde a suspensão da obra. Esse cenário coloca o governo em um impasse: seguir adiante com a conclusão da usina ou encerrar um dos projetos mais controversos da história do setor elétrico brasileiro, assumindo um prejuízo de grandes proporções.

A Eletronuclear, antes controlada pela Eletrobras, teve sua gestão transferida à ENBPar após a privatização da holding. Em fevereiro de 2025, a Eletrobras conseguiu formalizar a suspensão de suas obrigações de investimento na empresa, deixando a União com a responsabilidade integral sobre o futuro de Angra 3.

Energia nuclear na transição energética

Lula e o ministro Alexandre Silveira defendem a energia nuclear como uma solução complementar à expansão das fontes renováveis no Brasil. O crescimento de setores como data centers, digitalização e mobilidade elétrica tem pressionado o consumo de energia, exigindo fontes firmes e de base. “A energia nuclear possui atributos importantes: é limpa, confiável e pode operar continuamente, o que equilibra o sistema em momentos de baixa geração solar ou eólica”, argumenta Silveira.

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No entanto, técnicos do setor alertam que qualquer retomada de Angra 3 exigirá uma atualização tecnológica profunda, revisões regulatórias e transparência na execução. O projeto foi concebido com base em padrões técnicos dos anos 1980, que não correspondem aos atuais requisitos de segurança e eficiência. Uma retomada sem revisão técnica pode aumentar o risco de estouros orçamentários e atrasos.

Pressão por decisão estratégica

O CNPE, que reúne ministros e representantes do setor energético, já havia incluído Angra 3 nas pautas de suas reuniões anteriores, em dezembro de 2024 e fevereiro de 2025. Contudo, a análise foi adiada devido a pedidos de vista por parte dos conselheiros.

Agora, com a cobrança direta de Lula, a expectativa é que uma decisão definitiva seja tomada ainda este ano. Seja para avançar ou abandonar, o destino de Angra 3 deverá impactar profundamente o planejamento energético do país — tanto em termos de custo quanto de confiabilidade da matriz elétrica nacional.

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