Marco da engenharia nacional e da industrialização paulista, complexo gerador sobressai no Sistema Interligado Nacional pela flexibilidade operativa, capacidade de partida autônoma e investimentos em modernização tecnológica.
A infraestrutura hidrelétrica brasileira celebra um de seus marcos históricos mais expressivos com o centenário da Usina Henry Borden, localizada no sopé da Serra do Mar, em Cubatão (SP). Inaugurada em 10 de outubro de 1926 sob a denominação inicial de Usina de Cubatão, a instalação representou à época um feito monumental de engenharia civil e eletromecânica, projetado para domar um desnível de aproximadamente 720 metros e sustentar a expansão do principal polo industrial do país.
Cem anos após a entrada em operação de sua primeira unidade geradora, o complexo administrado pela Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) mantém relevância sistêmica no cenário energético contemporâneo. Composta pelas casas de força externa e subterrânea, a usina totaliza uma capacidade instalada de 889 MW distribuída em 14 grupos geradores equipados com turbinas Pelton, tecnologia otimizada para aproveitamentos hidráulicos de grandes quedas e vazões moderadas.
Flexibilidade operativa e resposta rápida ao SIN
A importância estratégica da usina no contexto atual do Sistema Interligado Nacional (SIN) fundamenta-se em atributos técnicos essenciais para a segurança operativa da rede, especialmente em um ambiente de alta penetração de fontes renováveis variáveis. O complexo dispõe de capacidade de resposta rápida, conseguindo elevar sua geração ao patamar máximo de 889 MW em um intervalo de até 15 minutos.
Adicionalmente, a instalação conta com capacidade de black start, atributo que lhe confere autonomia para reiniciar suas operações sem o suporte de fontes externas de energia em eventuais cenários de blecaute sistêmico. O desempenho operacional da estrutura tem sido consolidado por meio de ciclos contínuos de aprimoramento técnico. A gestão da companhia gestora destacou que a modernização dos ativos permitiu à usina alcançar, em meados de 2026, uma disponibilidade média móvel de 92% no horizonte de 60 meses, atestando a robustez dos programas de manutenção e atualização de equipamentos.
O plano de investimentos executado nos últimos anos direcionou centenas de milhões de reais à revitalização das unidades geradoras, com foco inicial na seção subterrânea, escavada no interior da rocha e em operação desde a década de 1950, e expansão programada para os equipamentos da usina externa.
O legado centenário do Projeto da Serra
A gênese de Henry Borden remonta ao audacioso “Projeto da Serra”, idealizado pelo engenheiro norte-americano Asa White Kenney Billings na década de 1920 para a Light. A execução da obra exigiu a modelagem de um complexo sistema hídrico que envolveu a reversão do curso do Rio Pinheiros, a formação do Reservatório Billings e a construção de usinas elevatórias, estruturando um arranjo que, além de viabilizar a geração hidrelétrica em grande escala, passou a integrar o controle de cheias na Região Metropolitana de São Paulo.
Como parte das comemorações do centenário, o complexo industrial incorporou o Espaço Cultural Henry Borden. Viabilizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e concebido pela Fundação Energia e Saneamento (FES), o novo ambiente museográfico reconstrói a trajetória tecnológica e humana do empreendimento em uma área de 227 metros quadrados. O espaço integra recursos interativos, exposições sobre patrimônio industrial, cartografia tátil e o projeto oral “Usina de Memórias e Futuros”, que documenta relatos de trabalhadores e aposentados que moldaram a história centenária do ativo energético.



