Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirma que os SMRs podem ser imprescindíveis para o Brasil, defende conclusão de Usina Nuclear de Angra 3 e reforça cooperação internacional para escalar o setor
A transição energética global, marcada por pressões de descarbonização, aumento da demanda por eletricidade e busca por segurança de abastecimento, recolocou a energia nuclear no centro do debate internacional. No Brasil, essa discussão ganha novos contornos com o avanço dos pequenos reatores modulares (SMRs) e a perspectiva de expansão do parque nuclear nacional.
Durante painel do evento Regulation & Investment – Frankfurt 2026, realizado na Goethe-Universität Frankfurt am Main e organizado pelo Dinter – Diálogos Intercontinentais, autoridades e especialistas discutiram o papel da tecnologia nuclear no contexto da segurança energética global. Entre os participantes esteve o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que apresentou a visão do governo brasileiro para o setor.
“Para um país com a dimensão territorial do Brasil, a energia nuclear, especialmente com o advento dos pequenos reatores modulares, deixa de ser apenas importante e passa a ser imprescindível”, afirmou o ministro, ao destacar que o país possui a sétima maior reserva de urânio conhecida no mundo, considerando que apenas cerca de 30% do subsolo nacional foi pesquisado.
Pequenos reatores e o desafio energético brasileiro
A aposta nos SMRs (Small Modular Reactors) aparece como uma alternativa para ampliar a geração nuclear com maior flexibilidade e menor custo de implantação em comparação com usinas tradicionais.
Na avaliação de Alexandre Silveira, a modularidade desses reatores abre possibilidades para aplicações estratégicas no território brasileiro, especialmente em regiões remotas ou com infraestrutura limitada.
“Os pequenos reatores nucleares nos darão, por exemplo, uma possibilidade muito grande de termos energia embarcada”, afirma.
Segundo o ministro, a tecnologia permite a instalação de unidades próximas aos centros de consumo ou até em plataformas flutuantes, reduzindo a necessidade de extensas linhas de transmissão e a dependência do transporte de combustíveis fósseis em regiões com logística complexa.
O modelo pode ser particularmente relevante para a Amazônia, onde grande parte da geração elétrica depende de usinas térmicas a diesel.
Sistemas isolados: custo elevado e oportunidade para novas tecnologias
O debate sobre os SMRs ganha força diante do alto custo da geração elétrica nos chamados sistemas isolados, predominantes na região Norte do país.
De acordo com dados citados por Alexandre Silveira, o Brasil gasta cerca de R$ 12 bilhões por ano para subsidiar a geração a diesel nesses sistemas, valor que acaba sendo repassado aos consumidores por meio de encargos tarifários.
“É mais caro transportar o óleo diesel para os 171 sistemas isolados, que o próprio combustível consumido nas usinas térmicas da Amazônia”, disse.
Nesse contexto, os pequenos reatores nucleares surgem como uma alternativa de geração firme e de baixa emissão, capaz de reduzir custos logísticos e emissões de carbono ao substituir parte das térmicas movidas a combustíveis fósseis.
Estrutura regulatória e fortalecimento institucional
A expansão da energia nuclear no país também passa por mudanças institucionais. O governo brasileiro avançou recentemente na criação da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear, que passa a atuar com status de agência reguladora independente.
A expectativa é que a nova estrutura fortaleça o arcabouço regulatório, amplie a formação de especialistas e traga maior previsibilidade para investimentos no setor nuclear brasileiro. A estabilidade regulatória é considerada um elemento-chave para viabilizar projetos nucleares, tradicionalmente caracterizados por ciclos longos de investimento e elevados requisitos de segurança.
Geopolítica energética e estratégia multilateral
Durante o painel, a discussão também abordou os impactos geopolíticos da expansão nuclear. Questionado sobre o risco de o Brasil reproduzir dependências energéticas semelhantes à relação que a Alemanha teve com o gás russo, Alexandre Silveira rejeitou a hipótese.
“Não podemos enxergar as relações internacionais apenas sob a ótica de sanções políticas ou de conflitos. O Brasil não tem esse posicionamento. Temos defendido de forma clara que precisamos de paz e estabilidade energética”, respondeu o ministro.
A estratégia brasileira, segundo ele, busca ampliar parcerias tecnológicas com diferentes polos globais, incluindo Europa, Ásia e América do Norte, dentro de uma política externa baseada em multilateralismo e autonomia estratégica.
Angra 3 e o futuro do programa nuclear brasileiro
Outro ponto central do debate foi o destino da Usina Nuclear de Angra 3, projeto iniciado ainda na década de 1980 e que permanece inacabado. “Nos envergonha ter Angra 3 pela metade”, disse o ministro.
Para Alexandre Silveira, a conclusão da usina representa um passo importante para reorganizar o setor nuclear nacional, mas também faz parte de uma estratégia mais ampla de expansão. “Sou convicto dessa necessidade e sou confiante que vamos conseguir avançar uma escala na produção de energia nuclear no país”, afirmou.
Padronização e redução de custos
Do ponto de vista tecnológico, especialistas destacaram que a viabilidade econômica dos SMRs dependerá da padronização de projetos e da produção em série.
Martin Pache, membro do conselho da associação nuclear alemã KernD, afirmou que a modularidade pode resolver um dos principais problemas enfrentados por grandes projetos nucleares na Europa: atrasos e estouros de orçamento.
A produção em escala industrial de reatores padronizados, segundo ele, é o caminho para reduzir riscos e tornar a tecnologia competitiva. A necessidade de harmonização regulatória também foi destacada por Walter Tromm, pesquisador do Karlsruher Institut für Technologie.
Ele ressaltou que a expansão global dos SMRs exige normas de licenciamento compatíveis entre diferentes países. Tromm comparou o processo ao setor de aviação, no qual aeronaves só conseguem operar comercialmente quando são aceitas por autoridades regulatórias em múltiplas jurisdições.
Outro ponto levantado pelo especialista foi a possibilidade de instalar pequenos reatores em áreas já licenciadas de antigas usinas nucleares, o que poderia reduzir custos e acelerar a implantação de novos projetos.
Energia, dados e a nova economia elétrica
A discussão também incluiu a crescente demanda energética associada à digitalização da economia. Marcelo Zanatta Estevam, CEO da Âmbar Energia, destacou que, no século XXI, os recursos estratégicos globais passaram a incluir energia e dados, além de commodities tradicionais.
Com a expansão da inteligência artificial e dos data centers, a necessidade por energia firme e contínua tende a crescer significativamente. Na avaliação do executivo, a intermitência das fontes renováveis, especialmente solar e eólica, reforça o papel da geração de base, como a nuclear, no equilíbrio do sistema elétrico.
Ele também ressaltou que o Brasil possui potencial para ir além do consumo doméstico, consolidando-se como fornecedor global de combustível nuclear. O executivo mencionou ainda o envolvimento do setor privado no desenvolvimento da cadeia nuclear, incluindo investimentos da Eletrobras e o mapeamento de mais de 40 novos sítios potenciais para futuras usinas no país.
Energia nuclear como plataforma de desenvolvimento
A visão defendida pelo governo brasileiro vai além da geração elétrica. A intenção é transformar o setor nuclear em um vetor de desenvolvimento tecnológico e industrial. Entre as áreas estratégicas citadas estão medicina nuclear, mineração de urânio e produção de hidrogênio de baixo carbono, segmentos que podem ampliar o valor agregado da cadeia produtiva.
Nesse contexto, a cooperação internacional aparece como peça-chave para acelerar transferência de tecnologia, formação de especialistas e expansão da infraestrutura energética.



