Análise apresentada ao ONS avaliou 27 mil alimentadores e cerca de 6 milhões de redes secundárias e aponta impactos positivos da micro e minigeração distribuída na operação e eficiência da rede elétrica brasileira.
A expansão da microgeração e minigeração distribuída (MMGD) no Brasil tem provocado debates técnicos sobre seus efeitos na operação do sistema elétrico. Um novo estudo apresentado pela Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD) ao Operador Nacional do Sistema Elétrico traz evidências de que a inserção dessas fontes pode contribuir para a redução de perdas técnicas e para a melhoria de indicadores operacionais da rede.
O levantamento foi apresentado nesta quarta-feira (4) e analisou aproximadamente 27 mil alimentadores de média tensão e cerca de 6 milhões de redes secundárias em todo o país, utilizando dados da Base de Dados Geográfica da Distribuidora (BDGD), disponibilizada pela Agência Nacional de Energia Elétrica.
O trabalho foi gerenciado pelo professor José Marangon, conselheiro da entidade, e desenvolvido pela MRST Consultoria e Engenharia, em parceria com especialistas do setor elétrico e pesquisadores da Universidade de São Paulo.
A metodologia adotada utilizou agrupamentos de redes representativas para reproduzir estatisticamente a configuração do sistema elétrico brasileiro, evitando distorções que poderiam ocorrer em análises baseadas apenas em estudos de caso isolados.
Baixa penetração de geração distribuída predomina nas redes
Um dos principais resultados do estudo indica que a maior parte das redes brasileiras ainda apresenta baixa ou média penetração de geração distribuída.
Nesse cenário, a inserção da MMGD, que inclui principalmente sistemas solares fotovoltaicos conectados às redes de distribuição, está associada a benefícios operacionais relevantes. Entre eles estão a redução de perdas técnicas, melhorias em indicadores elétricos e a possibilidade de postergação de investimentos em reforços e expansão da infraestrutura de distribuição.
A análise também apontou que apenas cerca de 3% das redes secundárias avaliadas apresentam níveis elevados de penetração de geração distribuída. Mesmo nessas situações, as eventuais violações de restrições elétricas identificadas podem ser solucionadas por meio de investimentos e ajustes operacionais na rede.
Entre as medidas citadas estão mudanças na proteção dos circuitos, instalação de equipamentos de controle de tensão, ampliação da capacidade de transformação e a incorporação de sistemas de armazenamento eletroquímico.
Impactos positivos também aparecem na rede de alta tensão
O estudo também analisou os efeitos da geração distribuída na rede de alta tensão, considerando cenários comparativos “com” e “sem” a presença de MMGD.
Para as premissas adotadas, os resultados indicaram melhora nos índices de severidade de tensão e fluxo de potência, além de redução nas perdas elétricas da área analisada. Nos cenários avaliados, as perdas foram reduzidas em cerca de 20% no patamar de carga máxima diurna e em 16% no patamar de carga mínima diurna.
Os ganhos também foram observados em indicadores de confiabilidade do sistema. A análise comparativa entre os cenários indicou redução da Expectância de Energia Não Suprida (EENS) de 20% no patamar de carga máxima diurna e de 38% no patamar de carga mínima diurna quando comparado ao cenário sem geração distribuída.
Armazenamento pode ampliar benefícios operacionais
O estudo também avaliou cenários em que a geração distribuída é combinada com sistemas de armazenamento por bateria (BESS), tecnologia considerada estratégica para aumentar a flexibilidade do sistema elétrico.
Nas simulações realizadas, a presença de sistemas de armazenamento representativos ampliou os ganhos em confiabilidade. Nessas condições, a redução da Expectância de Energia Não Suprida chegou a 57% no patamar de carga máxima diurna e a 48% no patamar de carga mínima diurna.
Além disso, a análise indicou impactos relevantes na rede de distribuição, como redução do fluxo reverso de energia, diminuição da demanda líquida de ponta e menor número de comutações de reguladores de tensão em circuitos de média tensão.
Os resultados também apontaram efeitos pontuais sobre as perdas técnicas da rede.
Integração tecnológica e novas tendências da geração distribuída
A avaliação da Associação Brasileira de Geração Distribuída aponta que o avanço da geração distribuída no Brasil tende a estar cada vez mais associado à integração com novas tecnologias energéticas.
Entre elas estão sistemas de armazenamento estacionário e soluções emergentes de mobilidade elétrica, incluindo veículos elétricos com carregamento bidirecional, capazes de fornecer energia de volta à rede em determinados momentos.
Essas tecnologias podem ampliar a flexibilidade operacional do sistema elétrico e contribuir para um modelo mais descentralizado de geração e consumo de energia.
Diálogo técnico com o operador do sistema
A apresentação do estudo ao Operador Nacional do Sistema Elétrico faz parte da agenda institucional da ABGD de diálogo técnico com agentes do setor elétrico, reguladores e formuladores de políticas públicas.
A iniciativa busca contribuir para o aprimoramento regulatório e técnico relacionado à crescente inserção da micro e minigeração distribuída na matriz elétrica brasileira.
Com a expansão acelerada da geração solar distribuída nos últimos anos, a discussão sobre seus impactos na rede elétrica tornou-se um dos principais temas da agenda do setor, envolvendo debates sobre planejamento da rede, regulação tarifária e integração tecnológica no sistema elétrico nacional.



