Com matriz elétrica 88% renovável e episódios de curtailment de até 20%, eficiência energética passa pela modernização da rede, gestão do consumo e sistemas de armazenamento
O avanço da matriz renovável brasileira colocou a eficiência energética no centro da agenda do setor elétrico. No Dia da Eficiência Energética, o debate ganha novo contorno: não basta ampliar a geração, é preciso modernizar redes, integrar armazenamento e otimizar o consumo final para evitar desperdícios sistêmicos.
Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que, em 2024, 88,2% da eletricidade gerada no Brasil teve origem em fontes renováveis, com 24% provenientes de usinas solares e eólicas. O desempenho reforça o protagonismo da matriz limpa, mas expõe um desafio estrutural: transformar expansão em eficiência real no sistema.
Informações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que, em 2025, episódios de restrição de geração (curtailment) levaram à não utilização de até 20% da energia produzida por usinas solares e eólicas em determinados períodos, em razão de limitações da rede e baixa capacidade de absorção.
O cenário revela que o gargalo atual não está na geração, mas na flexibilidade e na inteligência da infraestrutura elétrica.
O maior potencial está no consumo e na distribuição
A professora Michele Rodrigues, da Engenharia Elétrica do Centro Universitário FEI, instituição que completa 85 anos em 2026, avalia que o foco estratégico precisa migrar da expansão da oferta para o uso mais racional da energia disponível.
“O maior potencial de ganho de eficiência encontra-se no consumo final, especialmente em motores elétricos, sistemas de climatização e processos industriais que operam sem gestão energética otimizada. Em períodos de calor extremo, o aumento da temperatura ambiente eleva a resistência elétrica dos condutores, intensificando as perdas por efeito Joule e resultando em maior consumo e menor eficiência operacional simultaneamente”, destaca Michele Rodrigues.
A declaração destaca um ponto técnico relevante: o aumento da temperatura ambiente impacta diretamente as perdas elétricas por efeito Joule, elevando o consumo justamente nos períodos de maior demanda, como ondas de calor.
Redes inteligentes e armazenamento como vetor estrutural
O avanço das fontes renováveis intermitentes, especialmente solar e eólica, expôs limitações do modelo tradicional do sistema elétrico brasileiro, historicamente estruturado para geração centralizada e previsível, com predominância hidrelétrica.
Em regiões com elevada concentração de usinas solares e eólicas, a capacidade de escoamento da transmissão nem sempre acompanha o ritmo da expansão. A variabilidade da geração também não coincide, necessariamente, com os horários de pico de carga.
Nesse contexto, tecnologias como redes inteligentes (smart grids), sistemas de armazenamento em baterias, monitoramento em tempo real e gerenciamento ativo da demanda tornam-se elementos centrais para ampliar a eficiência energética e reduzir perdas operacionais.
A professora Michele Rodrigues defende que a modernização da rede elétrica é etapa indispensável para consolidar os ganhos da transição energética: “Do ponto de vista técnico e econômico, utilizar de forma mais eficiente a energia já disponível é a estratégia mais imediata e racional. A eficiência energética permite ampliar a capacidade útil do sistema sem os elevados investimentos e impactos ambientais associados à expansão da geração”.
A análise reforça uma tendência internacional: ampliar a capacidade efetiva do sistema por meio de digitalização, armazenamento e resposta da demanda pode ser mais eficiente, e menos oneroso, do que construir novas usinas.
Curtailment e perda sistêmica de eficiência
O curtailment, fenômeno em que usinas renováveis reduzem produção mesmo com recurso natural disponível, representa uma ineficiência sistêmica crescente no Brasil. Não se trata de falha tecnológica das plantas, mas de restrições operativas e estruturais da rede.
A ausência de mecanismos robustos de armazenamento em larga escala e de resposta automatizada da demanda limita a flexibilidade do sistema elétrico. Sem instrumentos para absorver picos de geração ou deslocar consumo, parte da energia limpa simplesmente deixa de ser utilizada.
Sob a ótica da eficiência energética, isso equivale a investir em geração sem capturar integralmente seus benefícios.
Mudança de paradigma no setor elétrico
O crescimento acelerado das renováveis exige reconfiguração do planejamento elétrico. A eficiência energética passa a ser vista não apenas como política de redução de consumo, mas como ferramenta estratégica para maximizar o aproveitamento da energia produzida.
O debate ganha ainda mais relevância diante da eletrificação crescente da economia, com expansão de veículos elétricos, bombas de calor, data centers e processos industriais eletrificados.
A modernização da rede, combinada com armazenamento e gestão ativa da carga, pode reduzir desperdícios, evitar novos episódios de curtailment e fortalecer a segurança do suprimento sem pressionar excessivamente as tarifas.
No atual estágio da transição energética brasileira, o desafio central deixou de ser gerar mais, e passou a ser usar melhor.



