Alta da CDE, aumento do custo de compra de energia e maior exposição ao PLD pressionam contas de luz; limite legal de encargos só deve aliviar tarifas a partir de 2027
O consumidor brasileiro deve enfrentar mais uma rodada de reajustes de energia elétrica acima da inflação em 2026. Projeção da consultoria Thymos Energia indica que a tarifa média no Brasil poderá subir 7,64% no próximo ano, com forte assimetria regional e maior impacto no Nordeste, onde a alta estimada chega a 9,77%.
O movimento ocorre em um contexto de expansão de subsídios setoriais, crescimento da Geração Distribuída (GD), aumento do custo de compra de energia pelas distribuidoras e expectativa de elevação do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) no mercado de curto prazo. O teto legal para encargos, instituído recentemente, só deve produzir efeitos concretos nas tarifas a partir de 2027.
Nordeste lidera pressão tarifária em 2026
Embora as componentes tarifárias — energia, transporte, encargos e tributos — serem comuns a todo o Sistema Interligado Nacional (SIN), os impactos variam conforme o perfil contratual e a estrutura de mercado de cada área de concessão.
A projeção aponta que o Nordeste terá o maior reajuste médio, de 9,77%. Na sequência aparecem Sudeste (5,45%), Norte (4,52%) e Sul (3,61%). O Centro-Oeste desponta como exceção, com variação média estimada de apenas 0,08%, praticamente estabilidade.
A análise técnica da Thymos mostra que as diferenças regionais decorrem do portfólio de contratos de suprimento das distribuidoras, que influencia diretamente o custo médio de compra de energia e o grau de exposição ao mercado de curto prazo na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica.
À frente da área de Utilities e Regulação Econômica da Thymos, Ana Paula Ferme explica os fundamentos da assimetria tarifária. Ana Paula Ferme, head de Utilities e Regulação Econômica na Thymos Energia, detalhou que as diferenças tarifárias decorrem do portfólio contratual de cada distribuidora, o que influencia o custo médio de compra de energia e o grau de exposição ao mercado de curto prazo.
CDE deve atingir R$ 52,7 bilhões e lidera pressão
O principal vetor de alta para 2026 é a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), encargo setorial que financia políticas públicas como Tarifa Social, subsídios a fontes incentivadas e compensações diversas.
Proposta em consulta pública pela Agência Nacional de Energia Elétrica estima orçamento da CDE em R$ 52,7 bilhões para 2026, crescimento de 7% em relação a 2025. A expansão da Geração Distribuída é um dos fatores mais relevantes: os custos associados ao subsídio da GD praticamente dobram no período.
Ao abordar o mecanismo de rateio desses encargos, Ana Paula Ferme esclarece que, no caso da CDE, a intensidade da pressão varia conforme a composição de mercado de cada área de concessão e a trajetória de equalização regional entre os blocos Norte/Nordeste e Sul/Sudeste/Centro-Oeste.
Esse desenho regulatório amplia o impacto em regiões com maior peso relativo de subsídios e características específicas de mercado, como ocorre no Nordeste.
PLD e maior exposição ao mercado de curto prazo
Além dos encargos setoriais, o custo da energia comprada pelas distribuidoras também tende a pressionar as tarifas. Parte relevante do problema está associada à exposição involuntária das concessionárias ao mercado de curto prazo, especialmente em cenários de descontratação ou frustração de carga.
Com a expectativa de elevação do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) em 2026, o custo de reposição da energia no ambiente de curto prazo tende a aumentar, sendo posteriormente repassado aos consumidores nos processos de reajuste anual.
A dinâmica reforça a importância do planejamento contratual e da gestão de portfólio das distribuidoras, sobretudo em um ambiente de crescimento da migração para o mercado livre e avanço da geração distribuída, que alteram a previsibilidade de carga no mercado regulado.
Teto legal de encargos só terá efeito a partir de 2027
Havia expectativa no mercado de que o limite para o orçamento da CDE, instituído pela Lei nº 15.269/2025, originada da MP 1.304, pudesse conter a escalada tarifária já em 2026. No entanto, os efeitos práticos do teto só devem se materializar a partir de 2027.
Para o próximo ano, o crescimento dos subsídios setoriais ainda deve neutralizar reduções obtidas em outros itens da planilha tarifária, mantendo pressão relevante sobre as contas de luz.
O cenário reforça a complexidade estrutural das tarifas de energia elétrica no Brasil, fortemente impactadas por encargos e políticas públicas financiadas via conta de luz. Em um ambiente de transição energética, ampliação da geração distribuída e maior volatilidade de preços no mercado de curto prazo, a discussão sobre sustentabilidade tarifária tende a ganhar centralidade na agenda regulatória.



