Com preços acima de US$ 14.500/t e déficit projetado de 30% até 2035, mercado global enfrenta gargalo no midstream, pressão sobre TC/RC e avanço da concentração na China
Os preços do cobre entraram em território inexplorado em 2026. Após superar US$ 12 mil por tonelada em dezembro de 2025, o metal ultrapassou brevemente US$ 14.500/t em janeiro (intraday), impulsionado por interrupções em grandes minas, formação de estoques nos Estados Unidos diante de incertezas tarifárias e fluxo financeiro direcionado a ativos físicos.
Mas a disparada do cobre não é apenas conjuntural. Ela reflete um aperto estrutural entre oferta e demanda, sustentado por eletrificação acelerada, expansão de redes elétricas, veículos elétricos, centros de dados e inteligência artificial. O cenário é reforçado por juros mais baixos, dólar mais fraco e especulação financeira.
No entanto, por trás do rali histórico, o elo intermediário da cadeia, as fundições, enfrenta pressões crescentes que podem redesenhar o equilíbrio geoeconômico do mercado global.
Déficit estrutural ameaça segurança do abastecimento
A Agência Internacional de Energia projeta que, com base na carteira atual de projetos, o mercado poderá enfrentar um déficit de oferta de cobre de até 30% até 2035.
A dificuldade de expandir a produção não é trivial. A qualidade média do minério caiu cerca de 40% desde 1991. A intensidade de capital para expansões brownfield aumentou 65% desde 2020, aproximando-se de projetos greenfield. Descobertas também desaceleraram: apenas 5% dos depósitos identificados nos últimos 35 anos foram descobertos na última década.
Além disso, o prazo médio entre descoberta e produção gira em torno de 17 anos. Em um mundo que acelera a eletrificação, esse descompasso temporal amplia riscos para cadeias estratégicas como energia, transporte, construção, defesa e tecnologia.
TC/RC em colapso histórico
Embora os preços do cobre estejam em recordes, as taxas de tratamento e refino (TC/RC), remuneração das fundições pelo processamento do concentrado , atingiram mínimas históricas.
O benchmark anual negociado entre a chilena Antofagasta e fundições chinesas foi fixado em US$ 0 por tonelada em janeiro de 2026. No mercado spot, as TC/RC já operam em território negativo desde 2024.
O fenômeno decorre da expansão agressiva da capacidade de fundição na China, que superou o crescimento da oferta de concentrado. Desde 2005, o país respondeu por mais de 90% da expansão da produção global de cobre refinado, elevando sua participação para cerca de 50% da oferta mundial em 2025.
A competição por concentrado tornou-se intensa, comprimindo margens no midstream e expondo sobretudo fundições independentes fora da China.
Subprodutos sustentam margens, por enquanto
A sobrevivência de parte das fundições tem sido viabilizada por receitas com subprodutos como ouro, prata e ácido sulfúrico, além de prêmios elevados para cobre refinado em mercados apertados.
Contudo, essa estrutura de receita tornou-se mais volátil. Se preços de metais preciosos e ácido sofrerem correção relevante, muitas operações poderão entrar em território economicamente inviável, especialmente aquelas altamente dependentes de concentrado adquirido no mercado.
Fundições integradas, vinculadas a minas, apresentam maior resiliência, pois garantem parte relevante da matéria-prima internamente. Já fundições sob encomenda dependem da compra de concentrado e estão mais expostas à escassez e à compressão das TC/RC.
Concentração e risco sistêmico
A China já é o principal refinador de 19 dos 20 minerais estratégicos críticos para setores como energia, defesa, semicondutores e inteligência artificial, com participação média próxima de 70%.
No cobre, responde por cerca de metade da produção global de fundição. Caso o ambiente de TC/RC deprimidas persista e leve ao fechamento de fundições fora da China, essa participação pode aumentar ainda mais.
O paralelo com o mercado de níquel é inevitável: excesso de oferta concentrado em um player dominante tornou projetos internacionais antieconômicos, elevando a concentração global.
Eventos recentes no mercado de terras raras demonstraram como controles de exportação podem gerar interrupções significativas nas cadeias industriais globais. Em um mercado muito maior e mais crítico como o do cobre, vulnerabilidades semelhantes teriam impacto ainda mais amplo.
Repensando o modelo de precificação
A estrutura tradicional de benchmark TC/RC foi concebida para um mercado diversificado. A crescente concentração e fragmentação atual levantam dúvidas sobre sua adequação.
Nos últimos meses, aumentaram acordos personalizados, pré-pagamentos, contratos de longo prazo e modelos indexados ao mercado spot ou à Bolsa de Metais de Londres (LME). Parcerias estruturais, joint ventures e participações cruzadas entre mineradoras e fundições também ganham relevância como estratégia de mitigação de risco.
A questão central tornou-se estratégica: depender excessivamente de um único polo dominante pode gerar vulnerabilidades futuras para mineradoras, fabricantes e governos.
Era da Eletricidade exige nova governança
O cobre é insumo essencial para redes elétricas, energias renováveis, mobilidade elétrica, data centers e sistemas de defesa. Na chamada Era da Eletricidade, a resiliência da cadeia intermediária torna-se questão de segurança econômica e nacional.
Mitigar o risco de concentração exige coordenação entre governos, mineradoras, fundições e fabricantes. Incentivos a novos projetos, políticas de reciclagem, eficiência material e diversificação regional do processamento passam a integrar a agenda estratégica.
Sem um diálogo estruturado e mecanismos de equilíbrio, o mercado pode evoluir para um modelo concentrado, mais vulnerável a choques de oferta e decisões geopolíticas.
O rali histórico do cobre pode sinalizar prosperidade para produtores no curto prazo. Mas a sustentabilidade de longo prazo dependerá de um midstream robusto, diversificado e financeiramente viável, condição essencial para sustentar a transição energética global.



