JAQ H1, com motores híbridos dual-fuel, promete reduzir até 80% das emissões de CO₂ e fará demonstrações no Rio Boat Show 2026, na Marina da Glória
O setor marítimo brasileiro dá um passo relevante na agenda de descarbonização com o início do tour técnico do JAQ H1, embarcação de 36 metros movida a hidrogênio verde (H2V) que percorrerá o litoral brasileiro a partir de março, de Belém (PA) ao Rio Grande do Sul. O projeto busca validar, em operação real, motores híbridos capazes de reduzir em até 80% as emissões de CO₂.
Idealizado por Ernani Paciornik, presidente do Grupo Náutica, o projeto JAQ Apoio Marítimo conta com parceria da GWM e do Itaipu Parquetec. A embarcação também terá papel de destaque no Rio Boat Show 2026, entre 11 e 19 de abril, na Marina da Glória, onde servirá como plataforma para visitas técnicas e navegações demonstrativas.
Validação técnica do hidrogênio verde na navegação
O JAQ H1 opera atualmente com motores dual-fuel da MAN, capazes de utilizar mistura de 20% de hidrogênio ao diesel. A solução permite redução significativa das emissões de dióxido de carbono e mantém a possibilidade de reversão integral ao combustível fóssil em caso de instabilidade no fornecimento de H2V.
A estratégia técnica combina segurança operacional com avanço gradual da substituição energética — abordagem considerada essencial em segmentos de difícil eletrificação, como o transporte marítimo.
O tour técnico terá como foco a coleta de dados operacionais, avaliação de desempenho dos motores híbridos e estudos de viabilidade logística para abastecimento com hidrogênio verde em diferentes portos brasileiros.
Marco Legal do Hidrogênio e incentivos fiscais
O cronograma do projeto antecede a assinatura da regulamentação do Marco Legal do Hidrogênio pela Casa Civil, compromisso firmado pelo ministro Rui Costa durante a COP30, em Belém, após inspeção técnica à embarcação.
O arcabouço jurídico foi estruturado com a promulgação da Lei nº 14.948/2024, que instituiu a Política Nacional do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono, e da Lei nº 14.990/2024, que criou o Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC).
Para a plena efetivação dos incentivos, o governo federal ainda deverá regulamentar critérios de habilitação ao Rehidro, regime que suspende PIS e Cofins na aquisição de equipamentos e insumos para infraestrutura, além de definir regras para concessão de R$ 18,3 bilhões em créditos fiscais previstos entre 2028 e 2032.
Pressão internacional e metas da IMO
A iniciativa brasileira ocorre em sintonia com as metas da Organização Marítima Internacional (IMO). Em outubro de 2026, a entidade votará o Marco de Emissões Zero, que poderá estabelecer taxas de até US$ 380 por tonelada de CO₂ emitida acima do limite permitido, com entrada em vigor prevista para 2028.
As potenciais penalidades representam risco financeiro significativo para a frota global e reforçam a necessidade de transição energética no setor marítimo. A antecipação tecnológica busca posicionar o Brasil como protagonista na adoção de combustíveis de baixo carbono na navegação.
Porto do Açu e expansão do projeto
O Porto do Açu passou a integrar o projeto como base oficial de testes, apoiando estudos de viabilidade comercial e logística do hidrogênio verde aplicado à navegação.
O investimento privado estimado em R$ 150 milhões também contempla a construção do JAQ H2, embarcação de 50 metros com entrega prevista para 2027. O novo modelo contará com eletrolisador a bordo, capaz de gerar hidrogênio a partir da dessalinização da água do mar, reduzindo a dependência de infraestrutura externa de abastecimento.
“A antecipação das operações técnicas em relação à assinatura do Marco do Hidrogênio permite que a regulamentação nasça baseada em casos reais de navegação. A indústria necessita desta convergência entre as metas da IMO e a legislação brasileira para viabilizar a transição de frotas comerciais”, afirma Ernani Paciornik, presidente do Grupo Náutica e idealizador do projeto.
Educação e integração com o setor energético
Além da validação técnica, o JAQ H1 funcionará como centro itinerante de educação e conscientização. Equipado com auditório para 40 pessoas, o barco receberá estudantes e promoverá debates sobre transição energética, hidrogênio verde e descarbonização do transporte marítimo.
Para o setor elétrico, o avanço do hidrogênio verde na navegação amplia a integração entre geração renovável, eletrólise e novos mercados consumidores de energia limpa. A consolidação do H2V como vetor energético depende diretamente da expansão da oferta de energia renovável competitiva e da construção de cadeias logísticas robustas.
O tour do JAQ H1, portanto, não se limita à inovação naval: insere-se em uma estratégia mais ampla de posicionamento do Brasil na economia do hidrogênio e na transição energética global.



