Eletromobilidade deve elevar demanda em 1.140% até 2035 e pressiona planejamento das redes de distribuição

Projeções da EPE indicam consumo de 7,8 TWh na próxima década; Aneel avança na revisão das regras de conexão para mitigar sobrecargas e dar previsibilidade a investimentos em eletropostos

A eletromobilidade no Brasil entrou definitivamente na agenda estratégica do setor elétrico. As projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que o consumo de eletricidade associado aos veículos elétricos deve saltar de 627 GWh, em 2025, para 7,8 TWh em 2035, crescimento acumulado de 1.140% em dez anos, com taxa média anual próxima de 29%.

O avanço da frota eletrificada, de veículos leves a pesados, e a ampliação da infraestrutura de recarga, que inclui desde carregadores residenciais de 7,4 kW até hubs ultrarrápidos acima de 50 kW, impõem desafios técnicos, regulatórios e tarifários às distribuidoras e aos investidores. O principal ponto de atenção é o chamado “agrupamento de cargas”, especialmente em condomínios, garagens coletivas e eletropostos, capaz de pressionar transformadores e redes locais em horários de pico.

Planejamento das redes e limites da potência contratada

A inserção acelerada da eletromobilidade altera a lógica tradicional de expansão da carga nas redes de distribuição. Diferentemente de outras classes de consumo, a recarga de veículos elétricos combina elevada potência unitária e forte simultaneidade, sobretudo no período noturno.

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Em projetos de eletropostos, a ampliação da capacidade de atendimento nem sempre é acompanhada pela revisão completa da infraestrutura elétrica existente. Pesquisador do Lactec, um dos principais centros de pesquisa aplicada do país, Carlos Gabriel Bianchin destaca que o aumento da potência de recarga exige avaliação criteriosa da instalação.

“Os proprietários de eletropostos podem ter a intenção de trocar o eletroposto por uma unidade mais potente para atender melhor as recargas dos usuários. Todavia, isso deve ser precedido de revisão da instalação, pois quando negligenciado, o resultado pode ser a sobrecarga com destruição do eletroposto e eventual dano ao veículo que estiver conectado”, alerta o pesquisador.

Na prática, a instalação de carregadores, inclusive residenciais, frequentemente demanda aumento da potência contratada junto à distribuidora, além de adequações em quadros elétricos, sistemas de proteção e aterramento. Em áreas com infraestrutura mais antiga ou elevada concentração de pontos de recarga, o risco de instabilidade se intensifica caso o dimensionamento não acompanhe a nova realidade de carga.

Pico de demanda e gestão inteligente de carga

Estudos internacionais reforçam que o desafio não está apenas no volume anual de energia, mas na forma como essa energia é consumida. Pesquisas conduzidas pela Universidade de Houston apontam que a recarga concentrada pode elevar significativamente os picos de demanda, ampliando perdas técnicas e sobrecarregando transformadores.

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Relatórios da Agência Internacional de Energia (IEA) também indicam que a eletricidade deve crescer em ritmo superior à demanda total de energia até 2030, tendo os veículos elétricos como um dos vetores centrais dessa expansão.

A avaliação técnica do Lactec indica que o sistema brasileiro possui, de modo geral, capacidade para absorver o crescimento da eletromobilidade, desde que haja coordenação entre planejamento da rede e soluções tecnológicas. Carlos Gabriel Bianchin pondera que o principal desafio está no acúmulo de potência em horários específicos, como em prédios residenciais com recarga simultânea.

“A recarga simultânea de vários veículos pode superar a capacidade da rede local e exigir obras de infraestrutura complexas e caras. Se houver reprojeto da instalação e adoção de sistemas de gestão inteligente de carga, o problema pode ser corrigido”, afirma Bianchin.

Sistemas de recarga inteligente, com controle de demanda, balanceamento de carga e programação horária, tendem a se tornar instrumentos essenciais para evitar investimentos desnecessários em reforços estruturais e mitigar impactos tarifários.

Estrutura de custos e sinalização tarifária

Além dos desafios técnicos, a eletromobilidade pressiona o modelo econômico dos empreendimentos de recarga. O Brasil conta atualmente com cerca de 17 mil pontos públicos e semipúblicos, dos quais aproximadamente 4 mil são de recarga rápida (DC), segmento considerado estratégico para viabilizar viagens de média e longa distância.

Nesse contexto, o custo da energia elétrica passa a ser variável determinante para a viabilidade financeira dos eletropostos. Carlos Gabriel Bianchin chama atenção para o desenho tarifário como fator crítico de competitividade.

“A questão está associada ao custo, especialmente para eletropostos. À medida que a potência instalada aumenta, o consumidor pode migrar para outras modalidades tarifárias ou até para o mercado livre, buscando reduzir despesas”, explica Bianchin.

O movimento de migração para o mercado livre de energia tende a ganhar força entre operadores com maior demanda contratada, sobretudo diante da abertura gradual do Ambiente de Contratação Livre (ACL) para cargas de menor porte. A dinâmica reforça a necessidade de sinalizações regulatórias claras e previsíveis.

Consulta Pública 42/2025 e revisão das regras de conexão

Diante da aceleração da curva de crescimento da eletromobilidade, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) abriu a Consulta Pública 42/2025, com prazo para contribuições até 10 de março de 2026.

A proposta revisa as regras de conexão de carregadores às redes de distribuição, com foco na simplificação de procedimentos, redução de prazos e aprimoramento do dimensionamento da rede. Entre as medidas em análise estão contratos mais flexíveis e a obrigatoriedade de mapas de disponibilidade de rede para novos pontos de conexão.

A discussão ocorre em momento estratégico: embora a eletromobilidade ainda represente parcela reduzida da carga nacional, o crescimento projetado até 2035 exige antecipação de gargalos. Para o setor elétrico, o desafio é equilibrar expansão da infraestrutura, modicidade tarifária e segurança operativa, evitando que o avanço da mobilidade elétrica transforme pressões pontuais em restrições estruturais.

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