Consultoria aponta descompasso entre valores regulatórios e custos reais de capital, com risco de descontratação de até 14,3 GW de usinas despacháveis até 2028
A definição das diretrizes de preço para o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026 acendeu um alerta vermelho entre especialistas e investidores. Uma análise técnica detalhada da Thymos Energia aponta que os valores estabelecidos pela regulação não refletem a realidade atual dos custos de capital, criando um cenário de risco tanto para a viabilidade de novos projetos quanto para a manutenção da infraestrutura de geração despachável já existente.
O certame, peça-chave para garantir a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN) conforme previsto na Lei 14.120/21, não é realizado desde 2021. Esse represamento ocorre em um momento de transformação da matriz, onde a expansão acelerada de fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, exige maior robustez de potência firme para responder a variações bruscas de carga.
Descompasso financeiro e inviabilidade de novos projetos
O ponto de maior preocupação reside na distância entre o preço-teto publicado e o investimento necessário para sustentar usinas de base. A discrepância, segundo a consultoria, ignora a elevação global dos custos de capital e dos insumos para o setor de infraestrutura.
O presidente da Thymos Energia, João Carlos Mello, ressalta que o patamar definido pela regulação está abaixo do necessário para viabilizar novos projetos. “Para usinas térmicas novas ou seminovas, o preço-teto deveria girar em torno de R$ 2.600/kW.ano, mas o valor publicado foi de apenas R$ 1.600/kW.ano, uma diferença incompatível com a realidade atual dos custos de capital”, afirma.
Na avaliação da consultoria, esse gap de R$ 1.000,00 por kW/ano retira o incentivo para a entrada de novos players, justamente quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) emite alertas recorrentes sobre a vulnerabilidade do SIN em momentos de ponta e estresse operativo.
O risco da “onda de descontratação” até 2028
O impacto da precificação inadequada não se limita aos novos projetos; ele ameaça o parque gerador já instalado. O estudo projeta um cenário crítico de descontratação de usinas termelétricas existentes. Até 2028, cerca de 14,3 GW de capacidade podem ficar sem contrato, o que reduziria drasticamente a disponibilidade de geração despachável para atendimento em momentos de crise energética.
Sem um sinal de preço que cubra os custos fixos e de manutenção, essas usinas perdem a função estratégica de “seguro” do sistema. A saída desses 14,3 GW do mercado contratado ocorreria em paralelo a uma necessidade crescente de potência. Estudos de confiabilidade realizados pela Thymos indicam que o Brasil precisa contratar entre 23 GW e 30 GW de capacidade adicional para manter a segurança operativa nos próximos anos.
O papel do gás natural e a transição energética
Ainda que o mercado de gás natural tenha apresentado avanços regulatórios, as condições atuais de preço e suprimento ainda não são suficientes para ancorar novos investimentos sem o suporte de um leilão de reserva bem estruturado.
As térmicas a gás são vistas pela Thymos como aliadas estratégicas para dar suporte à expansão renovável. Entretanto, o sucesso dessa integração depende de um alinhamento entre a política energética e a realidade financeira do setor. Se o LRCAP 2026 não for recalibrado, o risco é de um leilão vazio ou com baixa adesão, deixando o sistema exposto e aumentando a probabilidade de custos sistêmicos mais elevados no futuro via acionamentos emergenciais.



