Com investimento de R$ 14 milhões e suporte do Badesul, projeto da Âmbar Sul substituirá hidrogênio cinza por H2V solar; iniciativa é marco para a “transição justa” em região carbonífera.
O governo do Rio Grande do Sul formalizou, nesta quarta-feira (11), um passo decisivo para a inserção do estado na economia global de baixo carbono. Por meio da assinatura de um contrato entre o Badesul e a Âmbar Sul Energia S.A., foi autorizada a implantação de uma planta industrial de hidrogênio verde (H2V) no município de Candiota. O projeto é o quarto e último a ser contratado dentro do Edital de Desenvolvimento da Cadeia do Hidrogênio Verde (H2V-RS), iniciativa pioneira de fomento direto à descarbonização industrial em escala estadual no Brasil.
A planta utilizará o processo de eletrólise alimentado por energia solar fotovoltaica para produzir o energético. O diferencial estratégico reside na aplicação: o hidrogênio verde substituirá o hidrogênio cinza (de origem fóssil) atualmente utilizado no processo de arrefecimento industrial da Usina Termelétrica Candiota III.
Transição justa e desenvolvimento regional
A escolha de Candiota, região historicamente dependente da cadeia do carvão, reforça o conceito de transição energética responsável adotado pela gestão estadual. Ao celebrar o acordo, o governador Eduardo Leite pontuou que o projeto sinaliza uma mudança de paradigma para a economia local.
“Damos muito valor ao potencial de Candiota e de toda a região nesse processo de transição justa, que não é ruptura, mas uma migração responsável para um modelo com menos impacto ambiental. Essa transição é uma necessidade ambiental, diante da urgência climática que o mundo vive, mas também é uma grande oportunidade econômica para o nosso Estado. Estamos estruturando uma cadeia robusta, com projetos tecnicamente consistentes e com uso interno do hidrogênio verde, o que fortalece a nossa economia e gera desenvolvimento regional”, afirmou o governador.
Eficiência operacional e armazenamento em hidretos
O projeto H2V Candiota prevê uma configuração tecnológica modular em contêineres, o que facilita a escalabilidade e a futura replicação em outras indústrias intensivas. Um ponto técnico de destaque é o sistema de armazenamento em hidretos metálicos, tecnologia que oferece maior densidade energética e segurança no manejo do gás.
A estrutura será alimentada por uma planta fotovoltaica já operante na usina. Avaliando o alinhamento institucional do empreendimento, o gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Âmbar Sul Energia, Danilo Dantas, detalhou o cronograma e os objetivos científicos da planta.
“Estamos muito alinhados às diretrizes do governo e bastante ansiosos para iniciar as próximas etapas. O prazo estimado de implantação é de cerca de 21 meses, considerando aquisição de equipamentos e todo o desenvolvimento do projeto. Além da aplicação no arrefecimento industrial, vamos desenvolver linhas de pesquisa para avaliar novos usos para o hidrogênio verde, ampliando as possibilidades e fortalecendo ainda mais a cadeia no Estado”, afirmou Danilo Dantas.
Fomento público e governança institucional
O aporte financeiro para a planta totaliza R$ 14 milhões, dos quais R$ 9,8 milhões advêm de subvenção econômica do Estado e R$ 4,2 milhões de contrapartida da Âmbar Sul. A governança do projeto ficará sob responsabilidade do Badesul, que desenvolveu uma estrutura interna dedicada ao monitoramento de metas de descarbonização. Ao analisar o rigor do processo seletivo, o diretor-presidente do Badesul Desenvolvimento S.A., Claudio Gastal, relembrou a trajetória de estruturação da política pública.
“Esse é um processo que começou lá atrás, enfrentando dúvidas e ceticismo, mas que avançou com persistência e muito rigor técnico. A relação do Badesul com as empresas foi extremamente respeitosa e criteriosa, o que nos deu segurança nas análises. Agora iniciamos a etapa de perfectibilização das garantias para liberar os recursos e dar andamento aos projetos. Formamos uma capacidade técnica interna que nos permite dar velocidade e resolutividade a novos editais nessa linha, consolidando o hidrogênio verde como uma política de Estado”, ressaltou Gastal.
Impacto ambiental e metas globais
Com a operação plena, estima-se uma redução anual de aproximadamente 49 toneladas de CO2. A secretária do Meio Ambiente e Infraestrutura, Marjorie Kauffmann, destacou que a iniciativa brasileira se posiciona na vanguarda da competitividade verde ao integrar soluções que podem ser replicadas em outros setores da economia gaúcha.
“O hidrogênio verde é estratégico para a descarbonização das cadeias produtivas do Estado e para o fortalecimento de uma economia de baixo carbono. Estamos avançando de forma concreta, com projetos que já apresentam resultados mensuráveis na redução de emissões e que têm potencial de replicação em outros setores. Essa é uma política pública que une desenvolvimento econômico e proteção ambiental”, destacou a secretária.
No mesmo sentido, o secretário-chefe da Casa Civil, Artur Lemos, enfatizou a construção de longo prazo da matriz energética gaúcha. “Acreditamos que a transição energética justa engloba diferentes iniciativas e fontes de energia que, em conjunto, permitem a criação de uma matriz energética renovada. O hidrogênio verde é uma delas. Com ele, buscamos integrar diferentes soluções para impulsionar o desenvolvimento sustentável, fortalecer a economia e posicionar o Rio Grande do Sul como referência nacional na transição energética”, declarou Lemos.
A assinatura conclui a fase de contratações do edital H2V-RS, que ao todo soma R$ 100 milhões em investimentos distribuídos entre quatro projetos (B&8, Tramontina, Rodoplast e Âmbar Sul). Somadas, as iniciativas devem evitar a emissão de mais de 4,7 mil toneladas de CO2 equivalente por ano no Rio Grande do Sul.



