Trading global de energia negocia refinaria Dock Sud e cerca de 700 postos de combustíveis, em meio à desregulamentação do setor promovida por Javier Milei e à crise de liquidez da Raízen
A Mercuria Energy Group, uma das maiores tradings globais de energia e commodities, está próxima de fechar a aquisição de ativos estratégicos da Raízen na Argentina, em uma transação que pode ultrapassar US$ 1 bilhão. As negociações envolvem a refinaria Dock Sud, localizada em Buenos Aires, e uma rede com cerca de 700 postos de combustíveis, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Ainda não há contrato assinado e a operação pode não se concretizar, de acordo com fontes que acompanham o processo e pediram anonimato em razão do sigilo das tratativas. Procuradas, as empresas não comentaram oficialmente: um porta-voz da Mercuria não respondeu aos pedidos de manifestação, enquanto a Raízen informou que não se pronuncia sobre negociações em andamento.
Consolidação e aposta no refino argentino
A movimentação da Mercuria ocorre em um momento de forte reconfiguração do setor de energia na Argentina. A trading busca ampliar sua presença no segmento de refino e distribuição, aproveitando o novo ambiente regulatório promovido pelo presidente Javier Milei. Desde o início de seu mandato, o governo argentino eliminou controles sobre os preços do petróleo bruto e dos combustíveis, abrindo espaço para maior liberdade de mercado e atraindo investidores estrangeiros.
Nesse contexto, a aquisição dos ativos da Raízen permitiria à Mercuria consolidar uma posição relevante em um dos maiores mercados de combustíveis da América do Sul, combinando refino, logística e comercialização em um país com potencial de crescimento da produção, especialmente a partir do desenvolvimento do shale de Vaca Muerta.
Refinaria Dock Sud e rede com 700 postos
A refinaria Dock Sud é um dos principais ativos industriais à venda. Com capacidade de processamento de cerca de 101 mil barris por dia, a unidade é a terceira maior da Argentina, de acordo com dados da Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA). O complexo é considerado estratégico por sua localização na região metropolitana de Buenos Aires e pela integração com a infraestrutura portuária.
Já a rede de aproximadamente 700 postos de combustíveis da Raízen responde por cerca de 19% das vendas de gasolina e diesel no país, segundo dados divulgados pela YPF, líder do mercado argentino. A malha de distribuição confere capilaridade nacional e posiciona a operação como uma das mais relevantes do varejo de combustíveis na Argentina.
Pressão financeira acelera desinvestimentos
Do lado vendedor, a operação se insere em um processo mais amplo de reestruturação financeira da Raízen. A companhia, que é a maior produtora brasileira de etanol a partir da cana-de-açúcar e uma das líderes em bioenergia, vem se desfazendo de ativos para reduzir o endividamento e reforçar o caixa.
A empresa enfrentou um forte aumento da dívida após realizar investimentos expressivos em usinas de biocombustíveis baseadas em resíduos, projetos que não apresentaram o retorno esperado diante de uma demanda inferior às projeções iniciais. Esse movimento pressionou a estrutura financeira da companhia e comprometeu sua liquidez.
Como reflexo desse cenário, a Raízen teve sua classificação de crédito rebaixada para grau especulativo pela Fitch Ratings e pela S&P Global Ratings, em meio a uma onda de vendas de seus títulos no mercado internacional. Os papéis chegaram a perder quase metade do valor na última semana, ampliando a percepção de risco por parte dos investidores.
Mercuria reforça presença na América do Sul
A possível compra dos ativos argentinos da Raízen também reforça a estratégia da Mercuria de expandir sua atuação na América do Sul. A trading já possui operações relevantes no país por meio de sua participação majoritária na Phoenix Global Resources, empresa de exploração e produção que atua em áreas de shale na Patagônia, uma das regiões mais promissoras para o petróleo não convencional no mundo.
Combinando ativos de upstream, refino e distribuição, a Mercuria avança para um modelo de integração vertical, típico de grandes players globais, que buscam reduzir exposição a volatilidades de mercado e capturar margens ao longo de toda a cadeia de valor do petróleo.
Trading global busca ativos físicos
A oferta da Mercuria pelos ativos da Raízen se soma a uma tendência mais ampla no mercado internacional, na qual tradings de commodities vêm adquirindo refinarias, terminais e redes de distribuição. O movimento ganhou força após a crise energética desencadeada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, que elevou a volatilidade dos preços e ampliou as oportunidades de arbitragem e captura de margens.
Ao incorporar ativos físicos, essas empresas buscam garantir acesso direto a mercados consumidores, reduzir riscos logísticos e preservar os lucros extraordinários registrados nos últimos anos, em um ambiente de transição energética que, paradoxalmente, ainda mantém elevada a demanda por petróleo e derivados.



