Em evento no Rio, Mercadante aponta superciclo, reforça papel do banco na descarbonização e anuncia nova chamada pública de equity para atrair capital privado
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) projeta que os investimentos em infraestrutura no Brasil devem alcançar R$ 300 bilhões em 2026, em um movimento que consolida o que a instituição define como um novo “superciclo” de expansão. A estimativa foi apresentada pelo presidente do banco, Aloizio Mercadante, durante seminário realizado na sede do BNDES, no Rio de Janeiro, e reforça a estratégia de posicionar a infraestrutura como eixo estruturante da política de desenvolvimento e da agenda de transição energética no país.
Atualmente, os desembolsos do banco para o setor equivalem a cerca de 1,74% do Produto Interno Bruto (PIB) ao ano. A leitura do BNDES é de que a aceleração dos investimentos é condição necessária para reduzir gargalos históricos de competitividade, diminuir o chamado “custo Brasil” e, ao mesmo tempo, alinhar o crescimento econômico às metas climáticas.
Ao detalhar a visão institucional sobre o papel do banco público nesse processo, Mercadante afirmou que “a descarbonização se mostra uma tarefa essencial para um banco público de desenvolvimento”, destacando que a infraestrutura será o principal vetor para combinar expansão econômica com sustentabilidade ambiental.
Transição energética como eixo estratégico
A transição energética apareceu como um dos principais eixos do superciclo de investimentos delineado pelo BNDES. O banco tem ampliado sua atuação em projetos de eletrificação, eficiência energética e mobilidade sustentável, com destaque para o segmento de transporte urbano.
O BNDES consolidou-se como o maior financiador de ônibus elétricos da América Latina, com a entrega de 2.500 veículos apenas na cidade de São Paulo. No conjunto da carteira, os investimentos em mobilidade urbana cresceram 41%, alcançando R$ 31 bilhões, refletindo a prioridade dada a soluções de transporte de baixo carbono.
No campo institucional, a diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES, Luciana Costa, ressaltou que a estratégia de atuação do banco passou por uma inflexão relevante nos últimos anos. A executiva destacou que o foco agora está em financiamentos sem subsídios, com maior ênfase em inovação, estruturação de projetos e cofinanciamento com o setor privado.
Novo modelo: menos subsídio, mais alavancagem
A mudança de abordagem sinalizada pelo BNDES aponta para um reposicionamento do banco como estruturador e catalisador de investimentos, e não apenas como fonte direta de crédito subsidiado. A lógica é utilizar os recursos públicos para destravar projetos, reduzir riscos e atrair capital privado, ampliando o efeito multiplicador dos investimentos.
Essa estratégia se conecta diretamente com a nova Chamada Pública de Equity em Infraestrutura, anunciada durante o evento. A iniciativa prevê que o braço de participações do banco, a BNDESPAR, aporte até 25% do capital nos projetos selecionados, enquanto os 75% restantes seriam levantados junto a investidores privados.
O objetivo é criar veículos de investimento capazes de financiar projetos estruturantes, especialmente em setores de longa maturação, como energia, logística e saneamento, ampliando a participação de fundos, bancos, seguradoras e investidores institucionais no financiamento da infraestrutura brasileira.
Ferrovias e logística no radar
Outro destaque da agenda apresentada pelo BNDES foi o reforço da atuação no setor ferroviário. O banco prepara condições diferenciadas de financiamento, com prazos de carência mais longos e estruturas de crédito mais flexíveis, voltadas a projetos de grande porte e elevado prazo de retorno.
A leitura do banco é de que as ferrovias são peça-chave para a descarbonização da matriz de transportes, ao permitir a substituição do modal rodoviário em longas distâncias, reduzindo emissões, custos logísticos e dependência de combustíveis fósseis.
A expansão da malha ferroviária também é vista como fundamental para o escoamento de commodities, integração regional e aumento da competitividade das exportações brasileiras.
Segurança jurídica como condição para o superciclo
Além da dimensão financeira, Mercadante atribuiu a retomada dos investimentos à melhoria do ambiente institucional e regulatório. O presidente do BNDES destacou a redução da litigância e o fortalecimento de mecanismos de segurança jurídica, em especial a atuação do Tribunal de Contas da União (TCU) por meio do instrumento Secex Consenso.
Na avaliação do banco, a construção de soluções negociadas entre órgãos de controle, governo e setor privado tem sido decisiva para dar previsibilidade aos projetos e reduzir riscos regulatórios, criando um ambiente mais favorável ao investimento de longo prazo.
Esse contexto tem permitido ao Brasil manter, segundo o próprio BNDES, o maior pipeline de concessões rodoviárias do mundo, além de uma carteira crescente de projetos em energia, saneamento, portos e aeroportos.
Infraestrutura como política climática
Ao projetar R$ 300 bilhões em investimentos para 2026, o BNDES reforça uma visão cada vez mais consolidada no debate internacional: a infraestrutura não é apenas um instrumento de crescimento econômico, mas também uma política climática de primeira ordem.
Ao direcionar recursos para eletrificação, mobilidade sustentável, ferrovias, eficiência energética e projetos de baixo carbono, o banco público assume um papel central na articulação entre desenvolvimento, competitividade e transição energética.
Mais do que volume financeiro, o superciclo anunciado pelo BNDES sinaliza uma mudança qualitativa no padrão de investimento do país, com maior integração entre capital público e privado, foco em sustentabilidade e uma agenda explícita de descarbonização da economia brasileira.



