Multinacional dinamarquesa defende integração entre políticas de água e energia e aponta tecnologias disponíveis para reduzir desperdícios, emissões e custos operacionais
Um novo relatório da Danfoss, multinacional dinamarquesa especializada em soluções de eficiência energética, acende um alerta para um tema ainda pouco explorado no debate sobre transição energética: a pegada elétrica do setor de água. Segundo o estudo, o segmento já responde por cerca de 4% de todo o consumo global de eletricidade, grande parte utilizada de forma ineficiente e com custos desnecessários para governos, empresas e consumidores.
O documento defende que enfrentar a ineficiência energética ao longo do ciclo da água, da captação ao tratamento, distribuição, uso e reúso, é uma das estratégias mais rápidas e eficazes para fortalecer simultaneamente a segurança climática e hídrica, além de reduzir pressões sobre os sistemas elétricos.
Água e energia: uma relação estrutural
O relatório parte de uma constatação central: água e energia formam sistemas profundamente interdependentes, mas ainda tratados de forma dissociada em políticas públicas, marcos regulatórios e investimentos em infraestrutura.
Para a Danfoss, essa fragmentação resulta em desperdício sistêmico. Atualmente, uma parcela significativa da energia consumida pelo setor de água está associada a processos ineficientes, tecnologias obsoletas e redes com altas perdas físicas, especialmente em sistemas de distribuição urbana.
“Água e energia são sistemas profundamente interligados. Não podemos mais nos dar ao luxo de tratá-los separadamente. Estamos gerenciando o uso de energia no setor de água de forma ineficiente e cara, desperdiçando muito mais do que o necessário. E isso pode ser mudado”, destaca Kim Fausing, presidente e CEO da Danfoss.
Projeções preocupantes até 2040
As tendências apresentadas no relatório reforçam o caráter estrutural do problema. Até 2040, o consumo de energia do setor de água deve mais que dobrar, impulsionado pela urbanização, pelo crescimento industrial, pela expansão da dessalinização e pela necessidade de bombear água de fontes cada vez mais distantes.
Ao mesmo tempo, a própria indústria de energia tende a aumentar sua dependência de água: a demanda do setor energético por recursos hídricos pode crescer quase 60% no mesmo período, especialmente em função de térmicas, hidrogênio, biocombustíveis e resfriamento de data centers.
Esse movimento ocorre em um cenário já crítico. Desde 1900, o uso global de água doce cresceu seis vezes e, segundo projeções internacionais, até 2030 a demanda pode superar a oferta em 40% no mundo. Atualmente, cerca de 3,6 bilhões de pessoas já enfrentam escassez hídrica severa por pelo menos um mês ao ano.
Indústria, data centers e estresse hídrico
O relatório dedica atenção especial ao impacto da digitalização e da reindustrialização sobre os sistemas de água. Setores intensivos em energia e tecnologia vêm se tornando também grandes consumidores de recursos hídricos.
Os data centers, por exemplo, já utilizam cerca de 560 bilhões de litros de água por ano globalmente. Segundo projeções da Agência Internacional de Energia (IEA), esse volume pode dobrar até 2030, alcançando 1,2 trilhão de litros, o equivalente a seis vezes toda a captação de água doce da União Europeia em 2022.
Na indústria de semicondutores, a situação é ainda mais sensível. Entre 2030 e 2040, estima-se que 40% das fábricas globais estejam localizadas em regiões com alto ou extremo estresse hídrico, o que representa um risco direto à resiliência industrial e às cadeias globais de suprimentos.
Tecnologias já disponíveis para reduzir desperdícios
Apesar do cenário desafiador, a Danfoss argumenta que grande parte das soluções tecnológicas necessárias para enfrentar o problema já existe e está disponível comercialmente. O principal gargalo, segundo o relatório, está na falta de priorização política, regulatória e financeira dessas soluções.
No campo da dessalinização, por exemplo, a empresa estima que, se todas as plantas existentes operassem com o potencial tecnológico atual, de cerca de 2,0 kWh por metro cúbico, seria possível gerar uma economia de € 34,5 bilhões e reduzir as emissões em 111 milhões de toneladas de CO₂.
Nas estações de tratamento de esgoto, a adoção de conversores de frequência (VSDs) permitiria ajustar motores e bombas à demanda real, em vez de operarem em velocidade fixa. Uma planta em Chennai, na Índia, conseguiu reduzir o consumo de energia em 22% apenas com essa tecnologia.
Já nos data centers, soluções de resfriamento líquido em circuito fechado e sistemas direct-to-chip se mostram pelo menos 15% mais eficientes energeticamente do que os modelos tradicionais baseados em ar, além de reduzirem drasticamente o consumo de água.
O custo de ignorar o nexo água-energia
O relatório também chama atenção para os impactos macroeconômicos da inação. A crescente crise de escassez hídrica pode levar países de alta renda a uma perda de até 8% do PIB até 2050, caso as ineficiências ao longo do nexo água-energia não sejam enfrentadas.
Nos Estados Unidos, por exemplo, vazamentos em redes de distribuição desperdiçaram cerca de US$ 7,6 bilhões em água tratada em 2019, valor que pode chegar a US$ 16,7 bilhões até 2039. Tecnologias como sensores inteligentes, bombas de alta eficiência e sistemas de gestão de pressão poderiam reduzir significativamente essas perdas.
“Precisamos de regulações ambiciosas, metas de eficiência hídrica e sistemas de incentivos que estimulem investimentos em tecnologias comprovadas, como detecção de vazamentos, medição inteligente, gestão de pressão e otimização da eficiência energética. Os governos devem considerar a inclusão da eficiência hídrica em auditorias energéticas e estabelecer metas nacionais para a reutilização industrial da água. Cada gota economizada representa menos energia desperdiçada. As soluções tecnológicas capazes de fortalecer a eficiência hídrica e energética em todas as etapas do ciclo da água já existem”, afirma Fausing.
Um novo pilar da transição energética
Para a Danfoss, integrar definitivamente as agendas de água e energia é uma condição necessária para a próxima fase da transição energética. Em um mundo cada vez mais eletrificado, digital e dependente de infraestrutura crítica, a eficiência hídrica passa a ser também uma variável estratégica do planejamento energético.
Mais do que uma questão ambiental, o nexo água-energia se consolida como um tema central de competitividade industrial, segurança energética e estabilidade macroeconômica, com implicações diretas para formuladores de políticas públicas, reguladores e empresas do setor elétrico.



