Grupo investe R$ 170 milhões em ADMS, acelera digitalização da distribuição e projeta plataformas transacionais para fidelizar 14 milhões de clientes na abertura total do mercado livre
A corrida pela conquista do consumidor de baixa tensão já começou, e não se dará apenas no campo tarifário. Com a abertura total do mercado livre de energia prevista para 2027, o Grupo Equatorial acelera sua estratégia de transformação digital e redesenha seu modelo de negócios para disputar um novo espaço: o varejo massivo de energia, em um ambiente de livre escolha e competição plena entre comercializadores.
Com uma base de cerca de 14 milhões de consumidores, a companhia passa a tratar a fidelização como ativo estratégico central. O movimento marca uma inflexão relevante no posicionamento das distribuidoras: de operadoras de infraestrutura regulada para plataformas de relacionamento, serviços e experiência do cliente, em um cenário que se aproxima cada vez mais do modelo de consumo de outros setores digitais.
A estratégia da Equatorial se apoia em dois eixos complementares. O primeiro é a modernização profunda da operação de distribuição, com foco em qualidade, confiabilidade e resiliência. O segundo é a construção de canais digitais de comercialização, capazes de escalar a venda de energia e serviços para milhões de clientes de forma automatizada.
Marketplace e a “uberização” do consumo de energia
O principal desafio da abertura do mercado livre para a baixa tensão está na escala. Diferentemente do mercado corporativo, em que a venda se dá por meio de negociações consultivas, o varejo exige processos transacionais, padronizados e essencialmente digitais.
Ao analisar esse novo desenho competitivo, o diretor de Inovação, Clientes e Serviços da Equatorial, Mauricio Velloso, aponta que o modelo tradicional de atendimento se torna economicamente inviável diante do volume de consumidores.
“Estamos debruçados sobre este tema, analisando benchmarks de aberturas de mercado em outros países. No segmento de baixa tensão, que no nosso caso abrange mais de 14 milhões de clientes aptos, o processo terá de ser essencialmente digital. Minha visão é que teremos uma proliferação de marketplaces, onde a escolha do fornecedor será feita de forma simplificada e autônoma pelo consumidor”, destacou Velloso.
Na prática, a Equatorial projeta um ambiente semelhante ao de plataformas de e-commerce ou mobilidade urbana, no qual o consumidor escolhe seu fornecedor de energia de forma intuitiva, compara ofertas, contrata serviços adicionais e gerencia seu consumo em tempo real.
R$ 170 milhões em redes inteligentes e automação (ADMS)
A digitalização do relacionamento com o cliente só se sustenta, porém, se a infraestrutura física acompanhar esse novo patamar de exigência. Para isso, a Equatorial está investindo R$ 170 milhões na implantação do ADMS (Advanced Distribution Management System) em todas as suas concessões até 2027.
O sistema representa o estado da arte em gestão de redes de distribuição. A tecnologia integra funções de supervisão, controle e automação, permitindo que o centro de operações identifique falhas, isole trechos da rede e recomponha o fornecimento de forma remota e praticamente instantânea.
“Do ponto de vista da distribuição, seguiremos rigorosamente a regulação, mas nossa missão estratégica é elevar o patamar de satisfação. Para que o cliente permaneça conosco, ele precisa perceber valor e confiabilidade no serviço. Temos focado intensamente em garantir que essa experiência seja superior”, comentou Velloso.
Em um mercado livre, a lógica se inverte: a distribuidora deixa de ser uma prestadora cativa e passa a ser um elemento determinante da experiência percebida pelo consumidor, mesmo que não seja a vendedora direta da energia.
Resiliência climática e ganhos nos indicadores de continuidade
Os investimentos em automação também respondem a uma pressão estrutural: o aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos, que têm elevado os custos operacionais e o risco reputacional das distribuidoras.
Nesse contexto, a resiliência da rede se consolida como principal KPI estratégico. Segundo a Equatorial, os efeitos já são mensuráveis nos indicadores regulatórios de continuidade, como DEC e FEC.
O caso mais emblemático é o da CEEE Equatorial, no Rio Grande do Sul, estado severamente impactado por eventos climáticos recentes. Ao avaliar esse avanço operacional, Velloso aponta a automação como fator decisivo para a melhora dos indicadores.
“Os investimentos em resiliência têm permitido uma resposta muito mais célere em crises. No Rio Grande do Sul, conseguimos uma redução drástica na Duração Equivalente de Interrupção por Consumidor (DEC), que recuou de uma média de 20 horas para 11 horas em 2025. Esse desempenho se repete em todas as nossas concessões, validando nossa estratégia de modernização”, ressaltou.
A leitura estratégica é clara: quanto menor o tempo de interrupção, maior a percepção de valor do serviço, e menor o incentivo à troca de fornecedor em um ambiente competitivo.
Do fio ao serviço: a nova Equatorial pós-2027
Com a abertura total do mercado livre, a Equatorial deixa de ser apenas uma operadora de rede regulada e passa a disputar espaço como gestora de soluções energéticas, integrando distribuição, comercialização, geração própria e plataformas digitais.
O modelo de negócio se aproxima do conceito de utility-as-a-platform, no qual a empresa opera tanto a infraestrutura física quanto os canais de interação, dados, serviços e produtos de energia.
Nesse novo desenho, o ADMS garante eficiência e confiabilidade na base, enquanto os marketplaces digitais criam escala, capilaridade e relacionamento com o cliente final.
Mais do que uma estratégia tecnológica, trata-se de uma reconfiguração profunda do papel das distribuidoras no setor elétrico brasileiro, de monopólios naturais para competidores em um mercado aberto, orientado por experiência, preço, serviços e confiança.



