Brasil desperdiça 20% da geração eólica e solar em 2025 e acumula prejuízo de R$ 6,5 bilhões

Balanço da Volt Robotics revela salto estrutural do curtailment, 16 dias de risco sistêmico por excesso de oferta e alerta para impacto no custo de capital da transição energética

O setor elétrico brasileiro encerrou 2025 diante de um paradoxo operacional inédito: a abundância de fontes renováveis passou a representar um risco concreto para a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN). Segundo o balanço anual divulgado pela consultoria Volt Robotics, os cortes forçados de geração, conhecidos como curtailment, resultaram no desperdício de aproximadamente 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido produzida no país ao longo do ano.

Na prática, isso significou 4.021 MW médios de energia limpa descartados, volume equivalente à geração de grandes hidrelétricas por meses inteiros. O impacto financeiro dessa ineficiência, calculado de forma conservadora pela consultoria, atingiu R$ 6,5 bilhões em perdas para os agentes do setor.

Os números consolidam uma mudança estrutural no funcionamento do sistema elétrico brasileiro: pela primeira vez, o principal risco sistêmico não é a falta de energia, mas sim o excesso de oferta renovável sem capacidade adequada de escoamento, armazenamento ou resposta do consumo.

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A explosão do curtailment e o novo risco de excesso

O fenômeno, que já vinha em trajetória de crescimento desde 2023, atingiu seu ápice histórico entre os meses de agosto e outubro de 2025, período marcado pela combinação entre alta produção eólica no Nordeste, forte geração solar e demanda ainda moderada.

De acordo com a Volt Robotics, em diversos episódios o volume de energia descartado em poucas semanas foi equivalente à geração mensal de grandes usinas hidrelétricas, revelando um nível de ineficiência sistêmica sem precedentes.

Mais grave, porém, foi a deterioração das condições de segurança operativa. O sistema operou 16 dias ao longo de 2025 próximo ao seu limite inferior de estabilidade, devido ao excesso de geração, contra apenas uma ocorrência em todo o ano de 2024.

Esse novo patamar de risco levou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em conjunto com a Aneel, a estruturar planos emergenciais, prevendo inclusive a possibilidade de cortes em pequenas usinas conectadas à distribuição (Tipo III), algo impensável até poucos anos atrás.

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Ao analisar essa virada de chave operacional, o relatório da Volt Robotics é direto ao apontar a gravidade do cenário. “Quando o operador do sistema cria um plano extraordinário, o recado é claro: o risco é real, concreto e iminente e, diferentemente de 2024, agora é recorrente.”

A fala sintetiza uma percepção que vem se espalhando entre agentes e investidores: o curtailment deixou de ser um efeito colateral pontual e passou a ser uma variável estrutural do modelo elétrico brasileiro.

O impacto econômico e o custo do capital

A recorrência dos cortes sem regras claras de compensação começa a gerar efeitos relevantes sobre a atratividade do Brasil como destino de capital para projetos de transição energética.

Segundo a consultoria, os R$ 6,5 bilhões em perdas atingem tanto empreendimentos no Ambiente de Contratação Regulada (ACR), onde há perda direta de receita e risco de penalidades contratuais, quanto no Ambiente de Contratação Livre (ACL), que gera exposição involuntária ao PLD e descasamento entre lastro físico e financeiro.

Na avaliação da Volt Robotics, o desperdício sistemático de energia limpa compromete a viabilidade econômico-financeira dos projetos e pressiona o custo de capital de novos investimentos. “Desperdiçar energia limpa não é só ineficiência. Significa desperdiçar competitividade, investimento, reputação internacional e liderança na transição energética. O Brasil não pode se dar ao luxo de ser o país que tem sol, vento e tecnologia, mas joga isso fora.”

A leitura é clara: sem uma solução regulatória e estrutural para o curtailment, o país corre o risco de transformar seu maior ativo competitivo, a abundância renovável, em um fator de risco sistêmico para investidores.

Regionalização do problema e o “Triângulo do Curtailment”

O desperdício de energia não se distribuiu de forma homogênea pelo território nacional. Enquanto o Sul do país apresentou perdas relativamente baixas, com média de 4,5% da geração de referência, algumas regiões concentraram os efeitos mais severos.

Minas Gerais, Ceará e Rio Grande do Norte formaram o que a consultoria batizou de “Triângulo do Curtailment no Brasil”, com médias anuais de desperdício de 27,4%, 25,8% e 24%, respectivamente.

Minas Gerais se destacou negativamente ao figurar entre os três estados mais afetados em todos os meses de 2025, evidenciando o descompasso entre a rápida expansão da geração solar e a infraestrutura disponível de transmissão e consumo.

O mapa regional reforça que o problema não é apenas nacional, mas também territorial e locacional, exigindo soluções específicas para os principais polos de geração renovável.

Gargalos estruturais e o papel do consumo

A leve melhora observada nos meses de novembro e dezembro é vista como conjuntural, reflexo do fim da chamada “safra dos ventos” e de medidas operativas pontuais, como a redução do despacho térmico.

Para a Volt Robotics, a solução definitiva passa por uma revisão profunda da arquitetura do sistema elétrico, hoje marcada por gargalos de transmissão, ausência de armazenamento em escala e padrões de consumo incompatíveis com a nova matriz.

Nesse contexto, a consultoria aponta que o engajamento do consumidor final será decisivo para equilibrar o sistema, por meio de tarifas inteligentes, dinâmicas e sinalização econômica mais eficiente: “O Brasil precisará de tarifas inteligentes, mais dinâmicas, mais calibradas por perfil de carga. Experiências recentes mostram que modelos mais sofisticados, que oferecem sinal econômico tanto para evitar picos quanto para elevar consumo nas manhãs de sobra renovável, são mais eficazes para estimular a resposta do consumidor e reduzir desperdício.”

A fala sintetiza a nova fronteira da transição energética: sem armazenamento, digitalização da demanda e precificação inteligente, a abundância renovável tende a se converter em instabilidade, e não em vantagem competitiva.

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