Ministro destaca potencial dos SMRs, defende modernização do setor e vê Angra 3 como pilar da segurança energética nacional
O governo brasileiro intensificou, nesta semana, as articulações internacionais para reposicionar a energia nuclear como um dos vetores estratégicos da transição energética e da segurança do suprimento no país. Em agenda oficial em Xangai, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, reuniu-se com representantes da China National Nuclear Corporation (CNNC) para aprofundar o diálogo sobre a cadeia do urânio, o desenvolvimento de pequenos reatores modulares (SMRs) e as perspectivas de cooperação tecnológica entre Brasil e China no setor nuclear.
O encontro com o economista-chefe da estatal chinesa, Mingang Huang, reforça o interesse brasileiro em soluções de base firme, capazes de complementar a matriz predominantemente hídrica e renovável, ao mesmo tempo em que oferecem atributos relevantes para a descarbonização da economia e para a expansão de atividades industriais intensivas em energia.
SMRs entram no radar da política energética brasileira
Durante a reunião, Silveira destacou que os Small Modular Reactors vêm ganhando espaço nos principais mercados globais como alternativa tecnológica para ampliar a oferta de energia limpa, com menor escala de investimento, maior flexibilidade de instalação e potencial de integração a diferentes cadeias produtivas.
Na avaliação do ministro, os pequenos reatores modulares podem cumprir um papel relevante não apenas na geração elétrica, mas também em aplicações como aquecimento industrial, dessalinização de água, produção de hidrogênio de baixo carbono e suporte energético a polos industriais afastados dos grandes centros de carga.
Nesse contexto, Silveira afirmou que a incorporação de novas tecnologias nucleares exige uma revisão estrutural da política pública do setor, com foco na ampliação dos usos produtivos da energia nuclear e na construção de uma visão de longo prazo para o segmento.
“O Brasil detém toda a cadeia nuclear, da pesquisa mineral e produção do combustível à geração de energia e à fabricação de equipamentos, o que confere ao país uma base sólida e um grande potencial para o desenvolvimento do setor”, afirmou o ministro de Minas e Energia do Brasil.
A declaração reforça a estratégia do governo de explorar uma das principais vantagens comparativas do país: o domínio integral do ciclo do combustível nuclear, desde a mineração e enriquecimento do urânio até a operação de usinas e a produção de componentes industriais.
Críticas à privatização da Eletrobras e fragmentação do setor
Além das perspectivas tecnológicas, Silveira fez uma avaliação crítica sobre os impactos institucionais da privatização da Eletrobras, realizada no governo anterior, sobre a estrutura do setor nuclear brasileiro.
Segundo o ministro, o processo teria contribuído para a desarticulação entre empresas estratégicas, fragilizando a governança e a coordenação das políticas públicas voltadas ao segmento nuclear, justamente em um momento que exigia clareza de diretrizes e planejamento integrado.
Silveira destacou ainda que decisões tomadas à época resultaram em investimentos relevantes em equipamentos e na contratação de pessoal sem que houvesse definição objetiva sobre o futuro de projetos estruturantes, como a conclusão da usina de Angra 3, gerando custos elevados, incertezas regulatórias e ineficiências econômicas.
Reestruturação e Angra 3 como prioridade estratégica
Diante desse cenário, o ministro afirmou que o atual governo conduz um processo de reestruturação do setor nuclear, com foco na recomposição da governança, na racionalidade econômica dos investimentos e na retomada de uma visão estratégica de longo prazo.
Nesse movimento, Angra 3 ocupa posição central. O projeto, que adicionaria cerca de 1.405 MW de potência instalada ao sistema elétrico brasileiro, é tratado pelo governo como ativo crítico para a segurança energética, especialmente diante do crescimento da demanda, da maior variabilidade hidrológica e da expansão de fontes intermitentes como eólica e solar.
Segundo Silveira, estão em curso tratativas técnicas, institucionais e financeiras para viabilizar a conclusão da usina, incluindo a revisão do modelo de financiamento e o redesenho da estrutura de governança do projeto.
Urânio: Brasil quer destravar potencial geológico e atrair investimentos
Outro eixo central das conversas com a CNNC foi a cadeia do urânio. Silveira ressaltou que o fortalecimento do setor nuclear passa, necessariamente, pela ampliação dos investimentos em pesquisa mineral e no desenvolvimento da cadeia produtiva do combustível.
Apesar de possuir a sétima maior reserva de urânio do mundo, apenas cerca de 30% do subsolo brasileiro foi mapeado, o que indica, na visão do governo, um potencial expressivo de expansão da atividade.
Nesse sentido, o ministro afirmou que a intensificação dos esforços de prospecção e mapeamento geológico é estratégica para ampliar a base de reservas conhecidas e criar condições para uma indústria nuclear mais robusta, competitiva e integrada às cadeias globais de valor.
A aproximação com a China, maior investidora mundial em energia nuclear na última década, é vista pelo Ministério de Minas e Energia como uma oportunidade para acelerar a transferência de conhecimento, ampliar parcerias tecnológicas e posicionar o Brasil como protagonista regional no desenvolvimento de soluções nucleares de baixo carbono.



