Crise de liquidez e Newave Híbrido: Grupo Elétron entra com pedido de recuperação judicial de R$ 1,7 bilhão

Com passivo bilionário, terceira maior comercializadora independente do país aponta descolamento do PLD e restrições operativas como gatilhos para o colapso financeiro.

O cenário de abertura do mercado livre de energia em 2026 sofreu um duro golpe nesta quinta-feira (21). O Grupo Elétron oficializou junto ao Judiciário um pedido de tutela de urgência para recuperação judicial, reportando dívidas que somam R$ 1,7 bilhão. A decisão da gigante pernambucana, que detém uma fatia robusta de 2 GW médios mensais em transações no Ambiente de Contratação Livre (ACL), expõe as vísceras de um setor pressionado por novas metodologias de preço e restrições físicas de geração.

No centro da petição, a companhia pleiteia o congelamento imediato de cobranças e a manutenção de seus contratos vigentes, além de tentar blindar sua operação contra sanções administrativas e exclusões compulsórias por parte da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

O “efeito colateral” do modelo Newave Híbrido

A sustentação jurídica da Elétron para o pedido de RJ foca em um fator regulatório: a mudança na formação do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). A empresa argumenta que a entrada em vigor do modelo Newave Híbrido, em janeiro de 2025, subverteu as projeções de preço, gerando uma volatilidade sem precedentes.

- Advertisement -

Segundo a Ecel, unidade de comercialização que é o coração financeiro do grupo, o novo sistema criou uma distorção onde o preço de energia no mercado de curto prazo deixou de refletir a realidade física, obrigando agentes que operavam a descoberto a cobrir suas posições com valores estratosféricos. Em sua defesa perante o juiz, o grupo ressaltou que a operação permanece rentável no longo prazo, mas que o cenário atual impõe uma necessidade urgente de readequar o cronograma de pagamentos e o perfil da dívida para garantir a continuidade do negócio.

Restrições operativas: O peso do curtailment na geração

Não foi apenas o mercado financeiro que pressionou a Elétron. A braço de geração do grupo, a Elétron Power, viu o faturamento de suas nove usinas fotovoltaicas e sua PCH despencar devido ao aumento do curtailment. Os cortes de geração impostos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) por questões de segurança de rede reduziram a energia efetivamente entregue.

Essa “energia perdida” criou um buraco no fluxo de caixa: as receitas minguaram, mas os custos fixos e os serviços de dívida dos ativos de geração continuaram correndo. Esse desequilíbrio forçou a companhia a buscar energia no mercado livre para honrar contratos de venda, justamente no momento em que os preços disparavam sob a nova regra do Newave Híbrido.

A judicialização do MCP e o embate com o BTG Pactual

O ponto mais explosivo da matéria refere-se à dívida de R$ 334,8 milhões registrada na CCEE. A Elétron acusa a Câmara de Comercialização de realizar uma manobra de realocação de energia para beneficiar exclusivamente o banco BTG Pactual, ignorando uma ordem de mediação judicial que já estava em curso.

- Advertisement -

Na visão da Elétron, esse movimento da CCEE não foi apenas um ajuste administrativo, mas um descumprimento deliberado que secou a liquidez da empresa e inviabilizou a constituição de novas garantias financeiras. A comercializadora alega que essa ação específica foi o “tiro de misericórdia” que forçou a formalização da recuperação judicial.

Impacto sistêmico: Credores e o risco de inadimplência

A lista de credores é um “quem é quem” do setor elétrico brasileiro, o que amplia o temor de um efeito dominó. Além do BTG Pactual (R$ 53 milhões) e da CCEE, o passivo atinge empresas como Thera (R$ 82,3 milhões), Auren Energia, Cemig, Belo Monte Transmissora, Energisa e Serena Geração.

Analistas de mercado observam que a exposição de R$ 334,8 milhões na liquidação financeira da CCEE pode desencadear reduções compulsórias em outras contrapartes, afetando desde grandes consumidores industriais até pequenos varejistas. O caso Elétron agora entra para o rol de grandes recuperações judiciais recentes, como os da 2W Ecobank e América Energia, testando mais uma vez a robustez do sistema de garantias e a eficácia das novas regras de preço no Brasil.

Destaques da Semana

Artigos

Últimas Notícias