AIE projeta aceleração da demanda global de petróleo em 2026, mas mercado seguirá pressionado por excedente de oferta

Agência Internacional de Energia estima crescimento de 930 mil barris por dia no consumo, impulsionado por recuperação econômica e preços mais baixos, enquanto produção mundial deve alcançar 108,7 milhões de barris diários

A Agência Internacional de Energia (AIE) revisou para cima suas projeções para o mercado global de petróleo em 2026 e passou a trabalhar com um cenário de crescimento mais robusto da demanda, em meio a um ambiente de normalização das condições econômicas e preços mais baixos da commodity em comparação aos níveis observados no ano anterior. Segundo o relatório mensal divulgado nesta quarta-feira (21/01), o consumo mundial deve avançar, em média, 930 mil barris por dia (bpd) no próximo ano, superando o ritmo de expansão registrado em 2025, quando a demanda cresceu cerca de 850 mil bpd.

A nova estimativa representa uma revisão positiva em relação ao relatório de dezembro, que projetava um aumento de 860 mil bpd. De acordo com a AIE, a atualização reflete fatores macroeconômicos relevantes, como a dissipação de incertezas associadas à turbulência tarifária observada ao longo de 2025 e a manutenção de preços do petróleo em patamares mais baixos do que há um ano, o que tende a sustentar o consumo global da commodity.

Segundo o próprio relatório, a revisão ocorreu “refletindo uma normalização das condições econômicas após a turbulência tarifária do ano passado e preços do petróleo mais baixos do que há um ano”, combinação que cria um ambiente mais favorável para a demanda, especialmente nos países emergentes.

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Países fora da OCDE puxam crescimento da demanda

A AIE destaca que, mais uma vez, o avanço do consumo será liderado pelos países não pertencentes à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em 2026, essas economias responderão praticamente por todo o crescimento da demanda global, enquanto os países desenvolvidos apresentam um quadro de estabilidade ou até leve retração no consumo de derivados.

O relatório aponta ainda uma mudança relevante no perfil do consumo: a recuperação da demanda por matérias-primas petroquímicas deve ser parcialmente compensada por uma desaceleração contínua no crescimento do consumo de gasolina, reflexo de ganhos de eficiência energética, eletrificação da frota e políticas de descarbonização em diversas regiões.

Esse movimento reforça uma tendência estrutural do setor: mesmo com a transição energética em curso, o petróleo segue desempenhando papel central na indústria química e em cadeias produtivas estratégicas, o que sustenta a demanda em níveis elevados no médio prazo.

Oferta global seguirá acima da demanda

Se, por um lado, a demanda apresenta sinais de aceleração, por outro, a AIE avalia que o mercado seguirá amplamente abastecido. A projeção é de que a oferta global de petróleo aumente em 2,5 milhões de barris por dia em 2026, levando a produção total para cerca de 108,7 milhões de barris diários.

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Em 2025, o crescimento da produção foi ainda mais expressivo, com alta de aproximadamente 3 milhões de bpd. Segundo a agência, os países não pertencentes à OPEP+ responderam por cerca de 60% desse avanço, consolidando a tendência de perda relativa de protagonismo do cartel no crescimento da oferta mundial.

O relatório é direto ao afirmar que “o atual excedente global tem sido sustentado por um crescimento robusto na oferta de petróleo desde o início de 2025, com os produtores não pertencentes à OPEP+ respondendo por cerca de 60% do aumento total de 3 milhões de barris por dia”.

Entre os destaques, a AIE cita o chamado “quinteto das Américas”, Estados Unidos, Canadá, Brasil, Guiana e Argentina, como principais vetores de crescimento fora da OPEP+, enquanto a Arábia Saudita liderou a expansão dentro do grupo após o fim gradual dos cortes de produção.

Refinarias operam em ritmo elevado, mas margens recuam

Outro ponto relevante do relatório diz respeito ao comportamento das refinarias. O processamento global de petróleo bruto atingiu 85,7 milhões de barris por dia em dezembro, após um aumento de 2 milhões de bpd, antes do período de manutenção sazonal no primeiro trimestre de 2026.

Para o próximo ano, a AIE projeta que o processamento médio fique em 84,6 milhões de bpd, com crescimento anual de cerca de 770 mil bpd, ritmo levemente inferior ao observado em 2025. Apesar do volume elevado, as margens de refino apresentaram queda ao longo de dezembro, especialmente na Europa, onde os spreads de destilados médios caíram pela metade em relação aos picos de novembro.

Esse movimento sinaliza um mercado com oferta confortável de derivados, o que limita a rentabilidade do setor de refino e reforça a percepção de excesso estrutural de produto.

Estoques globais seguem elevados

A manutenção de estoques em níveis historicamente altos é outro elemento central da análise da AIE. Em novembro de 2025, os estoques globais observados aumentaram 75,3 milhões de barris, o equivalente a 2,5 milhões de bpd, com o petróleo bruto representando 96% desse volume.

No acumulado do ano passado, os estoques totais cresceram cerca de 470 milhões de barris, ou 1,3 milhão de bpd em média, impulsionados principalmente pelo aumento dos volumes armazenados na China, pelo crescimento dos estoques de líquidos de gás natural nos Estados Unidos e pela elevação do petróleo transportado por navios.

De acordo com dados preliminares, dezembro também registrou novo aumento dos estoques globais, reforçando a existência de uma “zona de amortecimento” capaz de absorver choques temporários de oferta sem grandes pressões sobre os preços.

Geopolítica pressiona fluxos, mas não altera equilíbrio

O relatório dedica atenção especial às tensões geopolíticas envolvendo Irã, Venezuela, Rússia e Cazaquistão. No início de janeiro, os preços do Brent chegaram a subir cerca de US$ 6 por barril, alcançando US$ 66, impulsionados por incertezas sobre exportações desses países, mas recuaram posteriormente para a faixa de US$ 64.

A AIE destaca que as exportações de petróleo bruto da Venezuela caíram de 880 mil bpd em dezembro para cerca de 300 mil bpd no início de janeiro, movimento que ocorreu “impactadas pelo bloqueio dos EUA aos petroleiros sancionados”. No caso do Irã, os carregamentos recuaram cerca de 350 mil bpd em relação ao pico de outubro.

Em contraste, a produção russa se recuperou fortemente em dezembro, com alta de 550 mil bpd, atingindo o maior nível em 33 meses, apesar dos ataques à infraestrutura energética do país.

Ainda assim, a agência avalia que, no cenário atual, os estoques elevados oferecem conforto ao mercado e limitam movimentos mais agressivos de alta nos preços.

Preços seguem pressionados pelo excedente estrutural

Mesmo com episódios de volatilidade, a AIE ressalta que os preços de referência do petróleo permanecem US$ 16 por barril mais baixos do que há um ano, refletindo o grande excedente global de oferta acumulado nos últimos 12 meses.

O petróleo do Mar do Norte, por exemplo, encerrou dezembro com média de US$ 62,64 por barril, na sexta queda mensal consecutiva, chegando a tocar a mínima de US$ 60,07, o menor valor desde o início de 2021.

Diante desse cenário, a mensagem central da AIE é clara: apesar da retomada gradual da demanda em 2026, o mercado global de petróleo continuará operando sob forte influência de um excedente estrutural de oferta, o que tende a manter os preços relativamente contidos no médio prazo, salvo interrupções significativas e prolongadas na produção.

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