O fim do consenso americano no clima: e três caminhos para a ordem que vem aí

Por Eric Fernando Boeck Daza, especialista em energia e mudanças climáticas

O anúncio feito pela Casa Branca, em 7 de janeiro de 2026, não é apenas mais um capítulo do “vai e volta” americano no Acordo de Paris. O memorando presidencial determina a retirada dos Estados Unidos de 66 organismos internacionais, 35 fora do sistema ONU e 31 ligados à organização e, no coração do pacote, estão as peças que formam a infraestrutura do regime climático global: a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA).

Há duas formas de ler essa decisão. A leitura fácil é política: um governo muda, as prioridades mudam. A leitura relevante, porém, é institucional. Quando uma potência deixa de investir na “sala de máquinas” do clima (UNFCCC, IPCC e IRENA), o que se altera não é apenas a narrativa, e sim é a capacidade de coordenação do sistema.

Um marco histórico sem precedentes

O tamanho do movimento já diz muito. A comunicação oficial descreve a diretriz como encerramento de participação e financiamento “na medida permitida por lei”. Com a saída da UNFCCC, os EUA se tornarão o primeiro país a abandonar o tratado-quadro do clima, algo qualitativamente diferente de sair apenas de um acordo específico, como fizeram em 2017 com Paris. Trata-se de algo “sem precedentes” na história da diplomacia climática: todos os 197 países do mundo são signatários da Convenção desde 1992.

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Vale lembrar: a UNFCCC foi ratificada pelo Senado americano por 92 votos a zero, sob a presidência de George H.W. Bush. Foi sob esse guarda-chuva que se negociou o Protocolo de Kyoto em 1997 e o Acordo de Paris em 2015 — dois momentos monumentais de cooperação global. Agora, três décadas depois, Washington não apenas abandona o acordo, mas a própria arquitetura institucional que ajudou a criar.

O peso do dinheiro e da influência

Regimes multilaterais não são feitos apenas de discursos. Os EUA respondem por 22% do orçamento regular da ONU em 2025, mais de US$ 820 milhões. No caso específico da UNFCCC, o país contribui com 22% do orçamento operacional do secretariado, estimado em cerca de US$ 96,5 milhões para o biênio 2024-2025.

Mesmo quando a contribuição absoluta parece pequena, o peso relativo pode ser decisivo. No caso da IRENA, os EUA aparecem no teto de 22% das contribuições avaliadas para 2025, equivalente a US$ 4,8 milhões, número que ilustra como “sair” pode ser, ao mesmo tempo, um gesto político e um choque de capacidade em instituições enxutas. No IPCC, a contribuição americana representa cerca de 30% de todas as doações voluntárias na história do painel, totalizando aproximadamente US$ 67 milhões.

Então, fica a questão estrutural permanece: quem financia a ciência climática global? Quem banca a coordenação que permite que 197 países sentem à mesma mesa?

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Três efeitos que merecem atenção

Primeiro: o custo de coordenação sobe. Quando fóruns amplos perdem densidade, cresce a fragmentação: mais “clubes” e arranjos paralelos, mais duplicação de esforços, mais atrito para convergir metodologias, métricas e prioridades. Isso é especialmente relevante no clima porque o regime depende de um fluxo contínuo entre ciência, metas e implementação.

Segundo: a governança vira disputa por padrões. O clima já deixou de ser apenas “bem público global” e passou a ser também arena de padrões: reporte, rastreabilidade, critérios técnicos, taxonomias, requisitos de cadeia produtiva. Quando um ator central se retira das instâncias que ajudam a formar referência, o risco é a proliferação de regras concorrentes. Nesse ambiente, quem define padrão define vantagem. E a partir de 1º de janeiro de 2026, a União Europeia entrou em operação plena com seu Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), cobrando taxas sobre emissões incorporadas em importações de aço, alumínio, cimento, fertilizantes e hidrogênio. É o primeiro imposto de carbono de fronteira plenamente operacional do mundo e já está moldando cadeias globais de suprimento.

Terceiro: a liderança muda de lugar. China e outros gigantes das energias renováveis afirmarão domínio ainda maior. A retirada americana representa o desafio mais sério aos esforços climáticos internacionais desde a adoção do Acordo de Paris, mas para a China, significa um competidor a menos na corrida por tecnologias limpas.

O sistema não colapsa; ele reconfigura

O ponto não é se o mundo vai “parar” sem os EUA. Não vai. A cooperação climática internacional não vai colapsar porque a UNFCCC terá 195 membros em vez de 196. De certa forma, os tratados climáticos já cumpriram seu papel. O mundo já tem avançado no caminho para um futuro de baixo carbono. Se os EUA tivessem saído há 10 anos, teria sido uma ameaça séria, mas não hoje.

O ponto é que coordenar ficará mais caro, e a disputa por liderança tende a migrar para arenas onde regras são produzidas com menos consenso e mais competição. E há, pelo menos, três caminhos plausíveis para a ordem climática que vem aí.

Cenário 1 – Fragmentação administrada (o mundo por blocos): A governança migra para coalizões temáticas e regionais, com acordos “de clube” substituindo parte do multilateralismo amplo. Funciona para avançar em alguns temas, mas aumenta assimetria e deixa países médios, como o Brasil, mais expostos a regras definidas por terceiros.

Cenário 2 – Liderança sino-europeia (coordenação com tensão): China e União Europeia ocupam o espaço normativo e a coordenação de implementação avança, mas com atritos geopolíticos explícitos. O clima segue andando, porém mais condicionado por competição industrial e segurança econômica. O CBAM europeu e a dominância chinesa em cadeias de energia renovável se tornam os novos eixos de poder.

Cenário 3 – Multipolaridade caótica (guerra de padrões): A ação climática vira um mosaico de requisitos divergentes, com regras sobre comércio, investimento e tecnologia puxando o ritmo mais do que o consenso diplomático. Nesse cenário, o custo de transação sobe para todos e a eficiência do sistema cai.

O que define a próxima fase

A decisão americana, portanto, não precisa ser lida como “o fim do clima”. Ela é, acima de tudo, o fim de um consenso que por décadas sustentou a arquitetura: a ideia de que, mesmo com disputas, valia a pena investir no centro de gravidade institucional e científico do regime. Quando esse consenso se rompe, o mundo não para, mas passa a operar com mais fricção, mais competição por regras e menos coordenação.

A Europa aposta que padrões regulatórios, como o CBAM, criam reservas de mercado de baixo carbono. A China acredita que domínio industrial em renováveis dispensa legitimidade diplomática. Os EUA que podem ignorar o sistema e ainda assim ditar termos pelo peso econômico.

Alguém está errado. Provavelmente, todos em parte. O que sabemos é que a conta da descoordenação será paga, em custos de transação, em duplicação de esforços, em oportunidades perdidas. A pergunta não é se haverá transição energética. É quem captura valor nela, e quem paga o preço de agir no caminho errado.

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