Consumo de energia elétrica recua no 3º trimestre de 2025 apesar do crescimento do PIB, aponta EPE

Queda de 0,3% no consumo nacional reflete retração nos setores comercial e industrial, enquanto mercado livre amplia participação e consumo residencial volta a crescer

O consumo nacional de energia elétrica registrou uma leve retração no terceiro trimestre de 2025, interrompendo parcialmente o movimento de recuperação observado em períodos anteriores. Segundo o Boletim Trimestral do Consumo de Eletricidade, divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a demanda total caiu 0,3% na comparação com o mesmo trimestre de 2024. O resultado chama atenção por ocorrer em um contexto de crescimento econômico, evidenciando mudanças estruturais no perfil do consumo e no comportamento dos diferentes segmentos da economia.

De acordo com a EPE, o desempenho foi puxado principalmente pelos setores comercial e industrial, que apresentaram queda no consumo de eletricidade no período. A retração ocorre mesmo diante de indicadores macroeconômicos positivos, o que reforça a leitura de que fatores como eficiência energética, ajustes operacionais e mudanças na estrutura produtiva estão influenciando a demanda por energia no país.

Comércio lidera retração, mas ritmo de queda desacelera

Entre as classes consumidoras, o comércio foi o segmento com a maior redução no consumo de energia elétrica no terceiro trimestre. A queda foi de 1,6% na comparação anual, segundo os dados da EPE. Apesar do resultado negativo, o boletim destaca que a retração ocorreu em intensidade menor do que a observada no segundo trimestre de 2025, quando o recuo havia sido de 4%.

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Esse comportamento sugere uma desaceleração no ritmo de contração do consumo comercial, possivelmente associada à adaptação dos estabelecimentos a novos padrões de funcionamento, maior uso de tecnologias mais eficientes e ajustes no horário de operação. Para analistas do setor elétrico, o segmento de comércio costuma reagir de forma mais sensível às oscilações de atividade econômica e às mudanças no consumo das famílias, o que ajuda a explicar a volatilidade observada ao longo do ano.

Indústria consome menos energia, mesmo com expansão do valor adicionado

No setor industrial, a EPE apurou uma queda de 1,2% no consumo de eletricidade no terceiro trimestre de 2025. O dado chama atenção por contrastar com o crescimento de 1,7% no valor adicionado da indústria no mesmo período. A dissociação entre atividade econômica e consumo energético reforça uma tendência já observada nos últimos anos: a redução da intensidade energética da produção industrial.

Esse movimento pode ser explicado por uma combinação de fatores, como modernização de processos produtivos, maior eficiência no uso da energia, substituição de equipamentos e até mudanças no mix industrial, com maior peso de atividades menos intensivas em eletricidade. Para o planejamento energético, esse descolamento entre crescimento industrial e consumo de energia representa um desafio adicional, exigindo modelos cada vez mais refinados de projeção de demanda.

Consumo residencial volta a crescer

Na contramão dos segmentos comercial e industrial, o consumo residencial apresentou crescimento no terceiro trimestre. Segundo a EPE, a alta foi de 2,8% em relação ao mesmo período de 2024, revertendo a trajetória de queda registrada no segundo trimestre do ano passado.

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O avanço do consumo nas residências está associado a fatores econômicos e sociais, como melhora no mercado de trabalho e aumento da renda disponível. Além disso, condições climáticas e maior permanência das pessoas em casa em determinados períodos também podem ter contribuído para o aumento da demanda por eletricidade nas residências, especialmente para refrigeração e uso de eletrodomésticos.

Crescimento econômico e mercado de trabalho dão suporte à demanda

Ao contextualizar os dados, a EPE destacou que o desempenho do consumo ocorreu em um ambiente macroeconômico mais favorável. “O desempenho ocorreu em um contexto de crescimento do PIB de 1,8% na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, apoiado principalmente pela agropecuária (+10,1%), além da redução da taxa de desemprego para 5,6% e da expansão dos rendimentos reais médios (+4,0%)”, observou a EPE em nota.

A forte contribuição da agropecuária para o crescimento do PIB ajuda a explicar parte da dinâmica do consumo de energia, já que o setor possui padrões de demanda distintos dos segmentos industrial e comercial urbanos. Em muitos casos, ganhos de produtividade no campo não se traduzem em aumentos proporcionais no consumo de eletricidade, especialmente quando há uso mais eficiente de insumos energéticos.

Mercado livre amplia participação e se aproxima da metade do consumo nacional

Outro destaque do boletim da EPE é o avanço contínuo do Ambiente de Contratação Livre (ACL). No terceiro trimestre de 2025, o consumo no mercado livre cresceu 4,7% e passou a representar 46,3% de toda a eletricidade consumida no país. Em sentido oposto, o Ambiente de Contratação Regulada (ACR) registrou queda de 4,3%, reduzindo sua participação para 53,7%.

O crescimento do ACL reflete a migração de consumidores para o mercado livre, em busca de maior flexibilidade contratual, previsibilidade de custos e, em muitos casos, acesso a fontes renováveis. Para o setor elétrico, essa mudança estrutural tem impactos relevantes sobre a formação de preços, o planejamento da expansão e o modelo de negócios das distribuidoras.

Sinais para o planejamento energético

A leve queda no consumo total de energia elétrica no terceiro trimestre de 2025, mesmo em um cenário de crescimento do PIB, reforça a necessidade de análises mais granulares sobre a demanda. Eficiência energética, mudanças tecnológicas e a expansão do mercado livre estão alterando a relação tradicional entre atividade econômica e consumo de eletricidade.

Para formuladores de políticas públicas, agentes do setor e investidores, os dados da EPE indicam que o planejamento energético precisa considerar não apenas o crescimento econômico agregado, mas também transformações estruturais no perfil de consumo. Em um sistema cada vez mais complexo e descentralizado, compreender essas dinâmicas será essencial para garantir segurança energética, modicidade tarifária e sustentabilidade no longo prazo.

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