Redes e armazenamento no centro da transição energética: financiamento e cooperação público-privada tornam-se decisivos para meta global de 1,5°C

Relatórios da IRENA indicam que triplicar a capacidade renovável até 2030 exige modernização acelerada das redes elétricas e expansão do armazenamento de energia, com investimentos anuais de até US$ 671 bilhões

A aceleração da transição energética global colocou as redes elétricas e os sistemas de armazenamento de energia no centro do debate sobre segurança, confiabilidade e viabilidade econômica de uma matriz cada vez mais baseada em fontes renováveis variáveis, como solar e eólica. De acordo com o cenário de 1,5°C da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), a corrida para alcançar 11,2 terawatts (TW) de capacidade renovável instalada até 2030, em linha com a meta de triplicar a geração renovável definida pelo Consenso dos Emirados Árabes Unidos, só será possível se a infraestrutura elétrica global passar por uma profunda expansão e modernização.

O diagnóstico é claro: não basta instalar novos parques solares e eólicos. A infraestrutura de transmissão, distribuição e armazenamento precisa estar preparada para integrar volumes crescentes de geração intermitente, garantindo flexibilidade operativa e estabilidade sistêmica. Sem isso, o ritmo de expansão das renováveis corre o risco de esbarrar em gargalos físicos, regulatórios e financeiros.

Redes elétricas como pilar da transição energética

Um sistema elétrico fortemente baseado em energias renováveis exige redes mais robustas, inteligentes e flexíveis. A infraestrutura precisa permitir tanto a conexão eficiente de novos projetos quanto a operação segura do sistema em diferentes condições climáticas e de carga. Segundo a IRENA, até 2030 o setor elétrico global precisará de 2,5 a 3 vezes mais flexibilidade do que em 2019 para gerenciar adequadamente a oferta e a demanda associadas às fontes renováveis variáveis (ERV).

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Essa flexibilidade envolve desde reforços em transmissão e distribuição até a incorporação de tecnologias digitais, resposta da demanda e sistemas de armazenamento de energia, capazes de suavizar variações de geração e consumo. Não por acaso, a agência identifica as redes elétricas como um fator-chave para o cumprimento da meta global de triplicar a capacidade renovável, tratando sua expansão e modernização como condição crítica para o sucesso da transição energética.

Investimentos crescem, mas ainda ficam aquém do necessário

Os números globais mostram avanço, mas também revelam um descompasso preocupante. Em 2024, os investimentos em energias renováveis, redes elétricas e armazenamento em baterias superaram, pela primeira vez, os aportes em combustíveis fósseis, alcançando cerca de US$ 1,19 trilhão. Apesar disso, a IRENA alerta que o ritmo atual ainda é insuficiente frente à velocidade de expansão da capacidade renovável prevista para esta década.

No período entre 2025 e 2030, os investimentos médios anuais em renováveis e redes precisarão dobrar em relação aos níveis atuais. No cenário de 1,5°C, as necessidades de investimento exclusivamente em redes elétricas devem atingir cerca de US$ 671 bilhões por ano até 2030, um patamar que exige novas abordagens de financiamento e maior coordenação entre governos, reguladores, concessionárias e investidores privados.

Cooperação público-privada como condição estrutural

Mobilizar volumes dessa magnitude não é viável apenas com recursos públicos. A própria IRENA reconhece que a colaboração entre os setores público e privado é indispensável para destravar projetos, reduzir riscos e garantir previsibilidade regulatória. Nesse contexto, a agência tem atuado como catalisadora de iniciativas multilaterais que buscam alinhar interesses, acelerar investimentos e compartilhar boas práticas.

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Um dos principais exemplos é a Coalizão para Ação da IRENA, que reúne mais de 180 membros, incluindo empresas, associações industriais, institutos de pesquisa, organizações da sociedade civil e organismos intergovernamentais. O objetivo é apoiar a adoção ampla e sustentável de todas as formas de energia renovável, criando um ambiente mais favorável ao investimento e à inovação.

Outra frente relevante é a Utilities for Net Zero Alliance (UNEZA), composta por mais de 70 empresas líderes dos setores de energia e serviços públicos. A aliança atua para impulsionar o desenvolvimento de redes preparadas para altas participações de renováveis, promover soluções de energia limpa e avançar nos esforços de eletrificação. No ano passado, a UNEZA reforçou seu compromisso de investir mais de US$ 148 bilhões por ano em redes elétricas e energias renováveis, sendo US$ 66 bilhões em geração renovável e US$ 82 bilhões em redes e armazenamento de energia.

Armazenamento de energia ganha protagonismo sistêmico

À medida que a participação de solar e eólica cresce, o armazenamento de energia deixa de ser um complemento e passa a desempenhar um papel estrutural na confiabilidade e flexibilidade dos sistemas elétricos. A Coalizão para Ação da IRENA reconhece o armazenamento como elemento central para garantir estabilidade da rede, modicidade tarifária e segurança energética.

Em relatório específico, os membros da coalizão destacam recomendações que incluem a promoção do armazenamento como fator essencial para atingir a meta global de triplicar a geração renovável, o fortalecimento da flexibilidade do sistema elétrico, o estímulo a políticas de financiamento e seguros para projetos híbridos de solar fotovoltaica com baterias e o desenvolvimento de normas e certificações técnicas para tecnologias de armazenamento.

Essas iniciativas dialogam diretamente com o Compromisso Global de Armazenamento de Energia e Redes Elétricas, lançado na COP29, que estabelece metas ambiciosas: adicionar ou modernizar 80 milhões de quilômetros de redes até 2040 e implantar 1.500 gigawatts de armazenamento de energia até 2030.

Debate ganha força na 16ª Assembleia da IRENA

A importância estratégica do tema levou a IRENA a dedicar dois fóruns de alto nível à discussão sobre redes e armazenamento durante a 16ª Assembleia da agência. O Diálogo Público-Privado, liderado pela Coalizão para Ação, ocorre em 10 de janeiro e tem como foco acelerar a implantação de redes e sistemas de armazenamento para sustentar a rápida expansão das renováveis.

Já o Diálogo de Alto Nível, promovido pela UNEZA em parceria com a Aliança para a Descarbonização da Indústria (AFID), acontece em 11 de janeiro e busca enfrentar os desafios da eletrificação sob a ótica de políticas públicas, financiamento e flexibilidade do sistema. A AFID reúne mais de 100 organizações públicas e privadas de setores intensivos em energia, com o objetivo de fortalecer estratégias de descarbonização industrial.

Durante esses encontros, representantes governamentais e executivos do setor elétrico devem trocar experiências sobre iniciativas nacionais, identificar reformas regulatórias necessárias, discutir modelos inovadores de financiamento e delinear ações coordenadas no âmbito do Consenso dos Emirados Árabes Unidos e do Compromisso Global de Armazenamento e Redes.

Infraestrutura como fator crítico para o futuro energético

O debate promovido pela IRENA reforça uma mensagem central para formuladores de políticas, investidores e agentes do setor elétrico: a transição energética será tão rápida e eficiente quanto forem as redes e os sistemas de armazenamento que a sustentam. Sem uma infraestrutura adequada, a expansão das energias renováveis corre o risco de perder ritmo, aumentar custos sistêmicos e comprometer a confiabilidade do suprimento.

Ao colocar o financiamento e a cooperação público-privada no centro da agenda, a IRENA sinaliza que o desafio não é apenas tecnológico, mas sobretudo institucional e financeiro. A próxima década será decisiva para definir se o mundo conseguirá alinhar ambição climática, segurança energética e viabilidade econômica em um sistema elétrico cada vez mais renovável.

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