Entidades pedem suspensão imediata de perfuração na Foz do Amazonas após vazamento em águas profundas

Vazamento de 15 mil litros de fluido reacende debate sobre riscos ambientais, falhas no licenciamento e segurança das operações na Margem Equatorial brasileira

Organizações ambientais, movimentos sociais e articulações representativas de povos indígenas e quilombolas protocolaram um pedido de tutela antecipada na Justiça Federal do Amapá solicitando a suspensão imediata das atividades de perfuração marítima de poços de petróleo no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas. A iniciativa ocorre após um vazamento de cerca de 15 mil litros de fluido de perfuração, registrado em 6 de janeiro, a uma profundidade aproximada de 2.700 metros, durante operação conduzida pela Petrobras.

O pedido integra uma ação civil pública que já tramita na 1ª Vara Federal Cível do Amapá e que busca a anulação da licença concedida para as atividades no bloco. Assinam a petição o Instituto Internacional Arayara, Greenpeace Brasil, WWF-Brasil, Observatório do Clima, além de entidades nacionais que representam povos tradicionais, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).

Vazamento em águas profundas amplia questionamentos sobre segurança operacional

Para as organizações, o vazamento ocorrido no início de janeiro funciona como um marco crítico ao demonstrar, na prática, a vulnerabilidade das operações em águas profundas na Margem Equatorial. O episódio é citado como evidência de que as garantias de segurança apresentadas no processo de licenciamento ambiental seriam insuficientes para mitigar riscos em uma região marcada por correntes marítimas intensas, elevada sensibilidade ambiental e baixa capacidade de resposta rápida a emergências.

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O argumento central das entidades é que, mesmo não se tratando de óleo cru, o fluido de perfuração vazado representa risco ambiental relevante. Segundo a petição, trata-se de uma mistura complexa de produtos químicos e gases, cujo comportamento e impactos no ambiente marinho ainda geram controvérsia técnica e científica, sobretudo em ecossistemas pouco estudados como os da Foz do Amazonas.

Fragilidades no Estudo de Impacto Ambiental entram no centro da ação

Outro ponto estruturante da ação civil pública é a crítica ao Estudo de Impacto Ambiental (EIA) que embasou a concessão da licença para a perfuração. As entidades sustentam que o documento apresenta falhas técnicas relevantes, especialmente no que diz respeito à avaliação de cenários de emergência e à capacidade de resposta a acidentes em um ambiente oceanográfico complexo.

De acordo com o processo, o EIA não teria considerado adequadamente a dinâmica das correntes marítimas da região, o que comprometeria qualquer plano de contingência em caso de vazamentos de maior proporção. Essa lacuna, segundo os autores, contraria princípios básicos da gestão de riscos ambientais e do próprio licenciamento, que exige previsibilidade e robustez técnica diante de empreendimentos de alto impacto potencial.

Consulta a povos tradicionais é apontada como obrigação legal descumprida

As organizações também denunciam a ausência de consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas e quilombolas potencialmente afetados pelas atividades, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. Para as entidades, a violação desse direito compromete a legitimidade do licenciamento e reforça a necessidade de suspensão das atividades até que o processo seja reavaliado.

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A Foz do Amazonas é considerada uma área estratégica não apenas do ponto de vista ambiental, mas também social, por abrigar comunidades tradicionais que dependem diretamente dos ecossistemas costeiros e marinhos para sua subsistência, segurança alimentar e manutenção de seus modos de vida.

Histórico de acidentes em águas profundas reforça argumento do risco elevado

Na argumentação apresentada à Justiça, as entidades resgatam dados históricos que apontam para a maior incidência de acidentes em operações de exploração e produção em águas profundas. Segundo o documento, mais de 95% dos acidentes registrados em plataformas entre 1975 e 2014 ocorreram justamente nesse tipo de ambiente, o que, na visão dos autores, amplia a relevância do princípio da precaução no caso da Margem Equatorial.

Esse histórico é utilizado para sustentar que o vazamento recente não deve ser tratado como um evento isolado, mas como um alerta sobre os riscos estruturais associados à exploração petrolífera em regiões de elevada complexidade técnica e ambiental.

Estudos científicos ampliam alerta sobre impactos transfronteiriços

A petição também faz referência a estudos científicos recentes, incluindo uma pesquisa publicada na revista Nature Sustainability, que analisa cenários de dispersão de óleo na Foz do Amazonas. De acordo com o estudo citado, um vazamento de grandes proporções poderia se espalhar por até 132 quilômetros em apenas 72 horas, alcançando áreas sensíveis como manguezais e recifes de corais.

O mesmo levantamento aponta que, em determinadas condições oceanográficas, a contaminação poderia atingir países vizinhos, como a Guiana Francesa, em menos de seis horas, ampliando o potencial de um desastre ambiental com repercussões internacionais. As entidades chegam a comparar o risco a um cenário de impacto superior ao do acidente da Deepwater Horizon, ocorrido no Golfo do México em 2010.

Princípio da precaução orienta pedido de suspensão imediata

Diante desse conjunto de fatores, as organizações fundamentam o pedido de suspensão da Licença de Operação no princípio da precaução, amplamente reconhecido no direito ambiental. A lógica é evitar a ocorrência de um dano ambiental irreversível enquanto persistem lacunas técnicas relevantes no licenciamento e incertezas sobre a real capacidade de resposta a acidentes de maior magnitude.

Agora, caberá à Justiça Federal do Amapá avaliar o pedido de tutela antecipada e decidir se as atividades de perfuração no bloco FZA-M-59 serão interrompidas de forma imediata. A decisão é aguardada com atenção por agentes do setor de energia, ambientalistas e formuladores de políticas públicas, em um debate que coloca em tensão a expansão da fronteira exploratória do petróleo e os compromissos climáticos e socioambientais do país.

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