Após apagão que atingiu 24 cidades, Tarcísio envia ofício à Aneel, critica lentidão no restabelecimento e reforça que Estado está “refém” de um contrato federal; prefeitura também notifica concessionária
A forte ventania que atingiu a capital e a região metropolitana de São Paulo provocou mais um episódio de interrupção em larga escala no fornecimento de energia, reacendendo tensões entre o governo estadual, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a concessionária Enel. O governador Tarcísio de Freitas confirmou nesta quarta-feira que enviou um ofício à agência reguladora relatando as falhas no restabelecimento do serviço e cobrando providências diante da recorrente vulnerabilidade da rede elétrica paulista durante eventos climáticos extremos.
A ocorrência, que deixou consumidores de 24 municípios sem energia, intensificou críticas já existentes sobre a capacidade da distribuidora em responder de forma tempestiva a interrupções massivas. A mobilização lenta de equipes, somada à previsibilidade crescente de eventos severos, elevou a pressão política e regulatória sobre a concessionária.
Tarcísio diz que Estado está “refém” do contrato federal e cobra mudanças no modelo
Ao comentar o impacto do vendaval e a demora para restabelecer o fornecimento, Tarcísio afirmou que a concessão operada pela Enel, firmada com o governo federal, limita a capacidade de resposta do Estado. O governador reforçou que, na forma atual, o contrato não assegura os investimentos necessários para a modernização da rede, especialmente diante do aumento da frequência de tempestades severas.
Segundo ele, São Paulo tem alertado tanto a Aneel quanto o Ministério de Minas e Energia (MME) sobre a fragilidade estrutural do sistema. O governador voltou a criticar a possibilidade de renovação automática da concessão, defendendo que uma discussão mais ampla sobre o modelo é essencial para evitar a repetição de grandes apagões.
O Governador Tarcísio resgatou as declarações anteriores do Ministro Alexandre Silveira, que havia criticado as exigências do governo paulista por melhorias na atuação da Enel, e usou o contexto para reforçar a insatisfação popular. Ele destacou que a principal queixa é a falta de previsibilidade no restabelecimento do serviço.
“A gente não pode ficar refém, não dá, e é por isso que a gente tem batido tanto nessa questão, porque senão vai ser repetição de mais do mesmo. Todo evento climático, nós vamos ter o mesmo problema. Isso eu falei no último, e aí teve uma crítica do ministro da pasta dizendo o seguinte, ‘que a gente está querendo fazer política com isso’. Fala para essas pessoas que estão sem energia, que quer fazer política. Não é. Qual é a previsibilidade? Quando que a energia vai ser restabelecida? As pessoas ficam dias sem restabelecimento. Pode ter certeza que esse restabelecimento completo vai levar alguns dias. A gente vai ver isso acontecer de novo, e a gente está falando isso sempre.”
A declaração reforça a principal crítica de Tarcísio: em sua avaliação, a falta de modernização da rede combinada com a defasagem nos investimentos compromete a resiliência do sistema elétrico paulista, sobretudo em episódios de alta severidade climática, que se tornam mais frequentes com a intensificação de extremos meteorológicos.
Prefeitura de São Paulo também aciona Enel e cancela agenda para monitorar impactos
Em paralelo às ações estaduais, a prefeitura de São Paulo notificou formalmente a Enel, cobrando respostas mais rápidas e maior coordenação com as equipes municipais. O prefeito Ricardo Nunes cancelou uma viagem a Brasília na manhã desta quarta-feira para acompanhar de perto os trabalhos de remoção de árvores, liberação de vias e atendimento emergencial.
A prefeitura destacou que diversos pontos da cidade dependem do desligamento seguro da rede elétrica para que equipes possam atuar, um fator que tem atrasado o processo e ampliado transtornos para a população. Em episódios anteriores, a falta de coordenação entre concessionária e órgãos municipais já havia sido apontada como um dos gargalos operacionais durante crises meteorológicas.
Concessionária mantém equipes nas ruas, mas não dá previsão para restabelecimento
Até o momento, a única manifestação pública da Enel foi a de que suas equipes seguem mobilizadas nas ruas para reparar os danos provocados pelo vendaval. No entanto, não há previsão oficial para o retorno integral da energia nas 24 cidades afetadas, ausência que reforça a crítica feita pelo governador sobre a “baixa previsibilidade” no processo de restabelecimento.
A distribuidora enfrenta pressão crescente por parte do governo estadual, da prefeitura, de órgãos reguladores e de consumidores, especialmente após episódios recentes de apagões de grande porte em São Paulo. A Aneel, por sua vez, tem conduzido processos de fiscalização e sinalizado a possibilidade de sanções caso sejam identificadas falhas operacionais ou descumprimento das obrigações contratuais de desempenho.
Apagões em eventos climáticos extremos devem influenciar debate sobre concessões
O novo episódio tende a alimentar discussões sobre renovação ou revisão dos contratos de distribuição de energia no país. Com a expectativa de aumento da severidade dos eventos climáticos, especialistas defendem que as concessionárias precisam intensificar investimentos em poda preventiva, automação da rede, redundância de circuitos e tecnologia para resposta rápida a interrupções.
A cobrança por maior resiliência elétrica também deve incorporar metas mais rígidas de desempenho e mecanismos de penalidade que incentivem melhorias estruturais no sistema. Para o setor elétrico, episódios como o desta semana tornam-se catalisadores para debater a vulnerabilidade das redes urbanas e a capacidade de resposta das distribuidoras.



