Financiamento via Fundo Clima e linha Finem reforça estratégia de eletrificação da aviação e prepara protótipo para campanha de certificação da ANAC
O avanço da mobilidade aérea elétrica brasileira ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (9), com a aprovação de um financiamento de R$ 200 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para a Eve Air Mobility, empresa da Embraer dedicada ao desenvolvimento de aeronaves elétricas de decolagem vertical, os eVTOLs, popularmente chamados de “carros voadores”. O aporte, estruturado majoritariamente via Fundo Clima, marca um passo decisivo para colocar o protótipo da Eve na fase final de testes, rumo à certificação pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil).
Do montante total, R$ 160 milhões vêm do Fundo Clima e R$ 40 milhões da linha Finem. O objetivo é financiar a etapa de integração e ensaios do sistema de propulsão elétrica do primeiro protótipo que será submetido ao processo de certificação de tipo. A operação foi anunciada durante evento em São Paulo que marcou a listagem da Eve na B3, reforçando o alinhamento entre desenvolvimento tecnológico, política industrial e mercado de capitais.
Financiamento reforça estratégia nacional de aviação elétrica
O novo aporte se soma ao pacote de incentivos que o BNDES tem direcionado ao setor de aviação sustentável. Em 2022, o banco já havia aprovado um financiamento de R$ 1,2 bilhão para etapas iniciais do eVTOL, incluindo engenharia, desenvolvimento e a construção da fábrica em Taubaté (SP). Em agosto de 2025, a instituição ampliou seu nível de participação ao se tornar investidora direta da Eve, por meio da BNDESPAR, com aporte de R$ 405,3 milhões, marcando o retorno do BNDES ao mercado acionário.
A decisão de apoiar a Eve em múltiplas frentes reforça o papel estratégico do Brasil no nascente mercado global de mobilidade aérea urbana elétrica (UAM). Ao financiar diretamente o sistema de propulsão e os ensaios necessários para a certificação, o banco atua na etapa mais crítica do projeto, que envolve performance, segurança, confiabilidade e aderência aos padrões internacionais.
O papel do Fundo Clima na transição da aviação
A maior parte dos recursos, R$ 160 milhões, é proveniente do Fundo Clima, administrado pelo próprio BNDES. A política de crédito do fundo prioriza iniciativas que contribuam para a mitigação de emissões e a redução do uso de combustíveis fósseis, ampliando o escopo para setores de difícil descarbonização, como a aviação.
O eVTOL da Eve, totalmente elétrico, é apontado como uma das apostas tecnológicas para reduzir emissões em deslocamentos urbanos e regionais de curta distância. Embora ainda em fase inicial de maturidade global, o setor avança rapidamente, com dezenas de campanhas de certificação em andamento nos EUA, Europa e Ásia.
Detalhes técnicos da aeronave em desenvolvimento
O modelo da Eve será configurado com capacidade para quatro passageiros e um piloto, alcance estimado de 100 km e espaço dedicado a pequenas bagagens. O sistema de propulsão combina:
- oito motores elétricos dedicados exclusivamente à sustentação vertical (decolagem e pouso);
- um motor traseiro responsável pelo voo horizontal.
O design segue a tendência dos principais players globais do setor, com arquitetura distribuída e redundância voltada à segurança operacional. A fase financiada pelo BNDES envolve integração do conjunto propulsivo, ensaios de desempenho, testes de vibração, ruído, autonomia e simulações de falhas.
Essa etapa é decisiva para preparar o protótipo para a campanha de certificação da ANAC, processo que antecede a certificação final e a posterior entrada em operação comercial.
Mobilidade aérea elétrica ganha impulso no Brasil
A listagem da Eve na B3, combinada às novas linhas de financiamento, posiciona o país como um dos polos de desenvolvimento mais avançados do mundo para aeronaves elétricas de pequeno porte. A empresa acumula intenções de compra expressivas de operadores internacionais, incluindo companhias aéreas, empresas de táxi aéreo e plataformas de mobilidade.
Além disso, o ecossistema regulatório brasileiro vem se antecipando, com a ANAC já inserida em grupos internacionais de certificação de aeronaves elétricas e movimentos coordenados com autoridades dos EUA e da Europa.
A combinação entre financiamento público, capacidade industrial da Embraer, regulação alinhada e mercado financeiro interessado cria condições para que o Brasil assuma protagonismo em um setor que deve movimentar bilhões de dólares na próxima década.



