Estudo sugere criação de mercados de potência e flexibilidade, com potencial de cortar custos operacionais em até 50% e modernizar a formação de preços no setor elétrico
A Thymos Energia, uma das principais consultorias especializadas do setor elétrico brasileiro, apresentou uma proposta que pode redefinir a lógica de operação das hidrelétricas e a própria formação de preços no Sistema Interligado Nacional (SIN). Trata-se do Novo Paradigma da Operação (NPO), estudo que sugere ajustes estruturais nas políticas de despacho, introdução de mecanismos de precificação adaptativos e criação de novos mercados para remuneração de atributos essenciais dessas usinas, como capacidade, resposta rápida e flexibilidade.
O diagnóstico da consultoria é contundente: a matriz elétrica mudou mais rapidamente do que os modelos de operação que a sustentam. A expansão acelerada das fontes solar e eólica, somada à redução da participação hídrica e às restrições ambientais para novos reservatórios, revela que o sistema atual, baseado majoritariamente na incerteza hidrológica, tornou-se insuficiente diante das novas dinâmicas operativas e climáticas.
Mudança de paradigma: hidrelétricas como pilares de flexibilidade
Embora as hidrelétricas tenham historicamente desempenhado papel duplo, geração de energia e garantia de reserva estratégica, a evolução da matriz elétrica deslocou parte desse protagonismo para as renováveis intermitentes. Nesse contexto, a Thymos alerta que o modelo vigente já não responde às exigências de um sistema mais complexo e descentralizado.
Ao contextualizar a urgência de adaptação do sistema, João Carlos Mello, CEO da Thymos Energia, destaca que a mudança é inevitável diante da nova realidade da matriz. O executivo detalha o propósito do Novo Paradigma de Operação.
“A proposta do Novo Paradigma de Operação tem objetivo de adequar o sistema às transformações da matriz elétrica brasileira, marcada pelo avanço das fontes renováveis e pela necessidade de maior eficiência na gestão da oferta disponível do insumo e da demanda por energia”, afirma o executivo.
A consultoria argumenta que o país deve aproveitar mais intensamente o parque hidrelétrico não apenas como gerador de energia, mas como principal fonte de flexibilidade para lidar com a variabilidade de eólicas e solares, uma vantagem estratégica que poucos sistemas no mundo possuem.
Desafio global: integrar renováveis sem comprometer a segurança energética
A reflexão proposta pelo estudo vai além das condições hidrológicas tradicionais. Mello reforça que os modelos precisam incorporar múltiplos fatores climáticos e operacionais que hoje influenciam diretamente o desempenho das usinas.
“Esta abordagem foi um dos principais paradigmas que baseou a construção dos modelos de otimização eletroenergética do operador, a visão futura do planejamento, e a formação de preços de curto prazo. Porém, o desafio atual, no Brasil e no mundo, é compensar a variabilidade das energias eólica e solar.”
Ao mencionar o diferencial brasileiro, o CEO observa que o país é privilegiado por possuir um parque hidrelétrico capaz de absorver oscilações renováveis com rapidez e eficiência, evitando custos adicionais e riscos sistêmicos.
Essa análise leva a uma pergunta que norteia o estudo: a operação baseada apenas na incerteza hidrológica, com modelos calibrados pelo histórico, ainda é suficiente? Para a consultoria, a resposta tende a ser não.
Mello reforça esse ponto ao afirmar que a atuação da natureza é hoje mais complexa e multifatorial. “Repensar a operação da nossa maior e melhor fonte, as hidrelétricas, com um planejamento adaptativo mais próximo da realidade é uma ótima alternativa”.
Tripé operacional: como os reservatórios devem funcionar no novo modelo
A Thymos propõe que o planejamento de operação das hidrelétricas adote três pilares centrais:
- Garantir segurança em períodos de seca e cheias, preservando a meta energética histórica.
- Manter altura de queda adequada para atender a curva de carga em diferentes horários.
- Acomodar a variabilidade das fontes renováveis, reforçando o papel das usinas como verdadeiras baterias naturais do sistema.
Além do núcleo hidrelétrico, o estudo ressalta o uso múltiplo das águas, para irrigação, abastecimento, navegação e outros setores. Esses condicionantes, já reconhecidos em legislações como a Lei 14.182/21, tornam o equilíbrio da operação cada vez mais desafiador e multidisciplinar.
Novo Paradigma na prática: faixas de armazenamento e PLD adaptativo
O NPO sugere a criação de faixas preferenciais de armazenamento para reservatórios de cada bacia, considerando sazonalidade, características ambientais e demandas socioeconômicas. Nessa lógica, a maior parte da energia seria fornecida por renováveis e complementada por despacho térmico preventivo, mais barato e eficiente do que o acionamento emergencial típico dos momentos críticos.
A metodologia altera também a formação do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). Em vez de mecanismos de aversão a risco, o modelo propõe penalidades proporcionais ao afastamento das trajetórias ideais dos reservatórios, solução que, segundo o estudo, é mais intuitiva e alinhada ao custo real de operação.
Simulações mostraram que, mesmo em cenários extremos de seca, o armazenamento permaneceu adequado, reduzindo riscos de racionamento e custos operacionais, que podem cair em até 50%, segundo a Thymos.
Mercados de potência e flexibilidade: reconhecimento dos atributos hidrelétricos
O estudo ainda recomenda a criação de mercados de potência e mercados de flexibilidade, regulados e remunerados de forma transparente. Esses mercados refletiriam atributos que as hidrelétricas já entregam, mas que não são adequadamente pagos:
- capacidade instantânea,
- resposta rápida,
- suporte às variações de carga,
- serviços ancilares.
Para Mello, essa evolução é um caminho natural da modernização do setor. “A implementação do Novo Paradigma da Operação e dos novos mercados regulatórios representa uma evolução natural do setor elétrico brasileiro, alinhada à necessidade de equilibrar custos, sustentabilidade e segurança”.
Ele acrescenta que o modelo permite aproveitar melhor a infraestrutura existente, reduz acionamento térmico desnecessário e aumenta a previsibilidade operativa sem impor custos adicionais ao consumidor.



