Com 43% dos desligamentos associados a eventos climáticos, especialistas alertam que O&M robusta e modernização operacional são pontos críticos para a resiliência do sistema elétrico
Às vésperas do período de chuvas intensas, o setor elétrico brasileiro volta a se debruçar sobre os impactos do clima extremo na rede de transmissão. Tempestades, descargas atmosféricas, queimadas e ventos fortes passaram a ocorrer com maior frequência e severidade, pressionando a infraestrutura e evidenciando fragilidades em um sistema que depende majoritariamente de linhas aéreas.
Dados recentes do ONS mostram que 43% dos desligamentos de linhas de transmissão entre 2014 e 2023 tiveram causas climáticas, com a descarga atmosférica responsável por 20% dos registros, seguida de queimadas (16%), ventos fortes (4%) e chuvas intensas (3%). A recorrência desses episódios, associada às mudanças climáticas, tem ampliado a percepção de vulnerabilidade e colocado no centro do debate a necessidade de maior investimento em operação e manutenção (O&M).
Eventos extremos recentes reforçam urgência do tema
Nos últimos anos, episódios de grandes proporções deixaram clara a exposição da infraestrutura de transmissão. Um dos casos de maior repercussão ocorreu em 2024, quando cinco torres de transmissão desabaram após uma tempestade, afetando o escoamento da energia proveniente da usina de Belo Monte para os sistemas Sul e Sudeste. Em paralelo, as enchentes no Rio Grande do Sul, também em 2024, inundaram mais de dez subestações e paralisaram cerca de 40 linhas, evidenciando a fragilidade de estruturas críticas diante de condições climáticas extremas.
Com 188 mil quilômetros de extensão na chamada Rede Básica do SIN, linhas que operam entre 230 kV e 800 kV são responsáveis por atender 99,4% da carga elétrica nacional. Trata-se de um sistema essencial, mas que enfrenta desafios crescentes para se adaptar ao novo regime climático.
A transmissão opera exposta, e os efeitos do aquecimento global acentuam o risco
O diretor comercial do Lactec, Carlos Eduardo Ribas, explica que a predominância de linhas aéreas torna o sistema particularmente vulnerável ao clima extremo. Ele observa que diversos fatores associados ao aquecimento global afetam diretamente a operação e elevam a probabilidade de interrupções.
Segundo o especialista, temperaturas mais altas reduzem a capacidade elétrica de linhas e transformadores, enquanto períodos prolongados de seca intensificam o risco de queimadas, uma das principais causas históricas de desligamentos. Além disso, ventos severos podem comprometer torres e estruturas metálicas, ao passo que chuvas intensas provocam erosões, alagamentos e deslizamentos de solo, especialmente em regiões montanhosas ou próximas a encostas. Em áreas litorâneas, a combinação de salinidade e aumento do nível do mar acelera processos de corrosão.
Manutenção contínua e operação modernizada: o núcleo da resiliência
Para Ribas, a resposta mais eficiente ao novo cenário climático está em investimentos contínuos em O&M, aliado à modernização da operação. Ele destaca que parte da infraestrutura do país acumula defasagens, exigindo reforço nas inspeções, análises técnicas e monitoramento das condições das linhas.
“Por isso a Operação e Manutenção (O&M) são fundamentais para garantir que o sistema elétrico funcione de forma eficiente, segura e contínua. As atividades de O&M já fazem parte do dia a dia das concessionárias de energia que precisam realizar ensaios elétricos em transformadores, calibração de instrumentos, análises de óleos lubrificantes, verificação de sistemas de proteção contra descargas atmosféricas (SPDA), entre outros”, destaca
Essas medidas tornam-se ainda mais relevantes diante das características que ampliam a vulnerabilidade da rede brasileira, tais como:
- infraestrutura extensa e localizada em áreas remotas;
- baixa redundância em corredores estratégicos;
- limitações para intercâmbio entre subsistemas;
- trechos envelhecidos ou projetados para condições climáticas diferentes das atuais;
- dificuldades de acesso que atrasam ações emergenciais.
A necessidade de antecipação é reforçada por Ribas, que complementa: “É de suma importância as concessionárias estarem prontas para atenderem as demandas do mercado e trabalharem preventivamente para que não ocorram apagões. Para isso é necessário entender quais as necessidades atuais do sistema e traçar as melhores soluções.”
Digitalização, predição e equipes especializadas tornam-se indispensáveis
O executivo destaca que tecnologias de monitoramento avançado, sistemas de predição e estruturas especializadas são cada vez mais determinantes para mitigar impactos do clima extremo.
“Para auxiliar as concessionárias a aplicarem as últimas soluções em monitoramento e prevenção, no Lactec temos a opção de integração de serviços preditivos e corretivos, equipe multidisciplinar, mais de 20 laboratórios, equipamento e técnica especializada (para as áreas de interrogadores de fibra óptica, para monitoramento de pressões, deformações, deslocamento, nível de água, vazamento, fluxo de água, etc.)”, destaca Ribas.
Segundo especialistas, sensores distribuídos, inspeções com drones, análise de dados, sistemas SCADA mais robustos e ferramentas de predição climática estão entre os elementos que devem ganhar espaço na operação de transmissão nos próximos anos.
Uma rede pressionada busca a resiliência como premissa
O setor elétrico se vê diante de um novo cenário climático marcado por eventos extremos, menos previsíveis e mais destrutivos. Essa mudança coloca um nível adicional de pressão sobre a transmissão e exige estratégias combinadas: reforço estrutural, digitalização, O&M contínua e planejamento baseado em dados.
À medida que o clima extremo deixa de ser exceção e passa a integrar o “novo normal”, a resiliência da transmissão se consolida como pilar fundamental para a segurança energética do país.



