Integração energética avança na América Latina e ganha força com novos estudos e projetos envolvendo Brasil, Chile e Bolívia

Potencial econômico e segurança elétrica regional impulsionam retomada das interconexões; Brasil negocia nova linha internacional de 420 MW com a Bolívia, estimada em R$ 7 bilhões

A integração energética volta ao centro das discussões no setor elétrico latino-americano, impulsionada por novos estudos, evidências econômicas e projetos bilaterais em desenvolvimento. Durante o EAML 2025, especialistas reforçaram que o avanço das interconexões regionais pode ampliar a eficiência operacional, aumentar a segurança do abastecimento e reduzir emissões de gases de efeito estufa no subcontinente.

Entre as novidades em debate, o Brasil informou que está na etapa final de negociação de uma nova interligação internacional com a Bolívia, reforçando a retomada de movimentos de cooperação energética no cone sul.

A eficiência econômica e climática da integração regional

O professor Rodrigo Moreno, Chefe de Ensino do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidad de Chile, trouxe evidências técnicas que reforçam o amplo benefício econômico da coordenação energética entre países latino-americanos. Segundo ele, estudos consolidados em um white paper apontam que a integração melhora o uso de energia limpa, reduz custos sistêmicos e fortalece a segurança elétrica da região.

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Moreno explicou que a América Latina possui uma característica singular: complementaridades climáticas e operacionais muito bem distribuídas, com países que concentram recursos solares abundantes, outros com forte hidrologia e regiões com alta capacidade eólica.

“Os estudos mostram o impacto positivo das transações internacionais e do uso conjunto dessas complementariedades, como recursos solares, hidráulicos e eólicos disponíveis em diferentes países”, detalhou. Segundo o professor, a operação coordenada tende a reduzir custos de despacho, evitar desperdícios energéticos e ampliar a flexibilidade para integração de renováveis variáveis.

A metáfora da Ponte de Alcântara: infraestrutura para durar séculos

Para ilustrar a importância da coordenação regional, Moreno citou uma metáfora histórica: a Ponte de Alcântara, construída há cerca de dois mil anos pelos romanos. Ele destacou que estruturas duradouras que conectam territórios mudam por completo as dinâmicas de desenvolvimento, e que, do ponto de vista energético, as interconexões assumem esse papel ao permitir o uso conjunto dos recursos.

Ao final de sua apresentação, o professor afirmou que a América Latina possui condições similares às da União Europeia para avançar em integração elétrica. Segundo ele, a combinação de proximidade geográfica, diversidade de recursos e desafios climáticos comuns cria uma oportunidade estratégica para fortalecer a resiliência energética do continente.

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Moreno defendeu investimentos em redes internacionais e cooperação institucional: “A região deve aproveitar complementariedades climáticas e operacionais para ampliar eficiência e segurança”.

Brasil e Bolívia avançam em negociação para nova interconexão de 420 MW

O debate ganhou ainda mais peso com o anúncio do Ministério de Minas e Energia (MME) sobre o avanço de um novo projeto binacional. De acordo com Cristiano Augusto Trein, Diretor do Departamento de Políticas para o Mercado do MME, o Brasil está na fase final de negociação de uma interconexão de 420 MW com a Bolívia, estimada em R$ 7 bilhões em investimentos. O leilão do empreendimento é previsto para o segundo semestre de 2026.

Trein destacou que o avanço das interligações internacionais depende do atendimento a critérios essenciais: segurança energética, eficiência operacional e qualidade tarifária. Para ele, o país só aprova projetos quando fica demonstrado que há ganhos reais para o sistema elétrico e para os consumidores.

O diretor explicou ainda que, em diversos cenários, importar energia pode ser mais eficiente do que transportá-la por longas distâncias dentro do território nacional, principalmente diante das dimensões continentais do Brasil. Essa visão está alinhada com estudos recentes que apontam a necessidade de aprimorar a lógica de escoamento entre regiões, considerando custos de transmissão, perdas e disponibilidade de recursos.

Remuneração adequada é determinante para atrair capital privado

Trein ressaltou que interconexões internacionais dependem de capital privado e, portanto, exigem mecanismos claros de remuneração. Ele mencionou portarias que estruturam regras de importação e exportação de energia e reforçou que o avanço da integração requer harmonização regulatória interna.

O MME também avalia estudos sobre excedentes energéticos, antecipação de vertimentos no Norte e condições estruturais que possam apoiar uma integração mais ampla no futuro. Segundo Trein, esses elementos são essenciais para garantir previsibilidade e segurança jurídica aos investidores.

Integração como estratégia para segurança energética e transição climática

Os debates do EAML 2025 mostram que a integração energética retorna ao radar não apenas como oportunidade econômica, mas como estratégia de segurança elétrica, sobretudo diante da expansão das renováveis e da maior frequência de eventos climáticos extremos.

Com potencial para reduzir custos, aumentar a flexibilidade e ampliar a resiliência das redes, a integração latino-americana avança de forma simultânea na esfera técnica, regulatória e comercial, e volta a se posicionar como uma das agendas mais estratégicas da próxima década.

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