Iniciativa liderada por Schneider Electric e Bloomberg New Economy mira uso avançado de IA, digitalização e automação para fortalecer sistemas elétricos e destravar flexibilidade da demanda
A expansão acelerada da eletrificação mundial e o crescimento explosivo da inteligência artificial (IA), impulsionando a construção de data centers e aplicações intensivas em energia, reacenderam o debate sobre como tornar o consumo elétrico mais eficiente, flexível e resiliente. Nesse cenário, a Schneider Electric e a Bloomberg New Economy anunciaram a criação da Energy Technology Coalition, uma aliança global que reúne executivos, pesquisadores e formuladores de políticas para acelerar a adoção de tecnologias de “demanda inteligente” e fortalecer a modernização digital das redes elétricas.
A iniciativa foi apresentada durante dois dos principais fóruns globais de inovação e geoeconomia: o Innovation Summit North America, realizado pela Schneider Electric em Las Vegas (EUA), e o Bloomberg New Economy Forum, em Singapura. Mais de 2.500 líderes do setor acompanharam o lançamento da Coalizão, que nasce com o objetivo de propor soluções para um sistema elétrico cuja complexidade cresce em ritmo superior à expansão da oferta.
Demanda eficiente como eixo estratégico da transição energética
A nova coalizão parte de uma premissa que vem ganhando tração entre operadores de rede, gestores industriais e desenvolvedores de tecnologias: o futuro da energia não será determinado apenas por novas fontes de geração, mas pela forma como a eletricidade será consumida, gerenciada e flexibilizada.
O avanço de renováveis, a descentralização, o armazenamento e a digitalização têm elevado a importância de sistemas que permitam não apenas monitorar, mas responder dinamicamente às condições da rede. Tecnologias como IA aplicada à gestão do consumo, gêmeos digitais, automação industrial e soluções avançadas de resposta da demanda têm potencial para reduzir custos, aumentar resiliência e acelerar a integração de energias limpas.
Segundo a nova aliança, o objetivo é identificar os gargalos que ainda retardam a implementação dessas tecnologias e propor frameworks e modelos escaláveis para destravar investimentos, um fator decisivo para redes congestionadas ou regiões com demanda crescente impulsionada por data centers, indústrias eletrointensivas e novas cargas urbanas.
Integração entre tecnologia e energia é decisiva para resiliência, afirma Schneider Electric
Durante o anúncio da iniciativa, a Schneider Electric destacou a necessidade de colaboração entre setores tradicionalmente distintos, mas cada vez mais interdependentes: tecnologia, infraestrutura e energia. A empresa enfatizou que a convergência entre IA, automação e sistemas elétricos será determinante para garantir estabilidade e competitividade no novo ciclo de eletrificação global.
Em sua avaliação, Frédéric Godemel, vice-presidente Executivo de Gestão de Energia da Schneider Electric, reforçou o papel central da digitalização e da automação na construção de sistemas energéticos mais robustos. Antes de sua declaração, a companhia destacou que tecnologias digitais já permitem maior flexibilidade operacional, redução de custos e reforço da confiabilidade.
“Construir um futuro energético resiliente e acessível exige uma forte colaboração entre os setores de tecnologia e energia”, afirma Godemel. “Ao trabalharmos juntos e aproveitarmos inovações como IA e gêmeos digitais, podemos fortalecer a rede, melhorar a confiabilidade e tornar a energia mais acessível e econômica para todos.”
Segundo ele, a parceria com líderes globais será essencial para acelerar soluções que permitam sustentar a demanda crescente sem comprometer a estabilidade do sistema.
Fundadores reúnem especialistas de tecnologia, sustentabilidade e operação de rede
A Energy Technology Coalition já nasce com um núcleo fundador que abrange diferentes perspectivas da cadeia energética e tecnológica. Entre os membros iniciais estão:
- Christina Shim, Chief Sustainability Officer da IBM
- Professor John D. Sterman, diretor do MIT System Dynamics Group
- Claire O’Neill, diretora Não Executiva da Oxy e ex-Ministra de Energia do Reino Unido
- Arch Rao, fundador e CEO da SPAN
- Manon van Beek, CEO da TenneT
Outros nomes serão adicionados nos próximos meses, ampliando a diversidade de expertise e a base internacional da aliança.
Eficiência da demanda: oportunidade econômica e industrial
A Coalizão também destaca que a eficiência energética, historicamente percebida como um objetivo ambiental, tornou-se um fator estratégico para competitividade industrial e redução de custos estruturais.
Durante o lançamento, Claire O’Neill reforçou a relevância da gestão inteligente da demanda como ferramenta de economicidade e flexibilidade, sobretudo em regiões sujeitas a preços elevados ou volatilidade energética.
“A inovação e o investimento do lado da demanda são frequentemente ignorados no nosso planejamento de futuro. Independentemente da intensidade de carbono presente no sistema, há enormes benefícios de custo, eficiência e flexibilidade ao gerenciar melhor a demanda”, diz O’Neill. “Agora é muito mais fácil defender esse argumento, especialmente para indústrias de uso intensivo de energia que enfrentam custos estruturalmente altos em muitas regiões.”
A declaração reforça a tendência de que tecnologias de gerenciamento inteligente devem ganhar prioridade nas agendas industriais, especialmente diante do crescimento de cargas críticas e da necessidade de previsibilidade.
Convergência entre IA e energia exige ação coordenada, aponta Bloomberg
O avanço simultâneo da IA e da infraestrutura digital também foi destacado como fator de pressão sobre os sistemas elétricos. A Bloomberg New Economy enfatiza que a transformação energética e a transformação digital não podem mais ser tratadas de forma isolada.
Ao comentar o lançamento da Coalizão, Karen Saltser, CEO da Bloomberg Media, destacou o momento decisivo vivido pelos sistemas elétricos globais.
“Estamos testemunhando um momento crítico em que infraestrutura digital e sistemas de energia estão convergindo em um ritmo acelerado”, destaca Saltser. “É evidente que o mundo se beneficiaria de uma ação coordenada para assegurar que o aumento da demanda por IA e computação seja atendido com uma oferta de energia limpa, resiliente e eficiente para as próximas gerações.”
De acordo com a executiva, a Coalizão atuará como catalisadora de políticas públicas, parcerias e projetos-piloto com foco em garantir segurança energética e sustentabilidade no longo prazo.
Primeiro encontro ocorrerá em Davos e deverá definir estratégias globais
A primeira reunião presencial da Energy Technology Coalition está marcada para janeiro de 2026, na Bloomberg House em Davos, paralelamente ao Encontro Anual do Fórum Econômico Mundial (WEF). Durante o encontro, os membros devem:
- desenvolver estratégias práticas para acelerar a adoção de tecnologias digitais no consumo de energia;
- tirar do papel programas-piloto em setores eletrointensivos;
- criar frameworks que orientem governos e empresas no uso de sistemas de demanda inteligente;
- propor recomendações técnicas e regulatórias para ampliar a flexibilidade das redes.
A expectativa é que os resultados sirvam de referência global para a adoção de tecnologias de gestão de demanda em larga escala.



