Governo Lula sanciona MP 1.304 com mais de 20 vetos e redefine prioridades da modernização do setor elétrico

Vetos atingem pontos centrais do texto aprovado pelo Congresso, como curtailment, autoprodução, royalties do petróleo e novos mecanismos de risco setorial; governo cita impacto tarifário, insegurança jurídica e risco fiscal

O governo federal sancionou, com uma série de vetos relevantes, a Medida Provisória 1.304/2025, que se converteu na Lei 15.269, redirecionando parte das mudanças estruturais propostas para o marco regulatório do setor elétrico. O texto, assinado pelo presidente em exercício Geraldo Alckmin no último dia de prazo, derrubou dispositivos considerados sensíveis do ponto de vista fiscal, tarifário e jurídico, e que vinham mobilizando agentes de geração, comercialização, consumidores livres e reguladores.

A lei era aguardada como um dos principais movimentos de modernização regulatória do governo Lula, mas os vetos parciais preservaram pilares tradicionais do arcabouço setorial, especialmente em temas relacionados à formação de preços, repartição de riscos operativos e regras de autoprodução.

Os principais pontos barrados incluem:

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  • a ampliação do ressarcimento de curtailment para todos os eventos externos aos empreendimentos,
  • o novo cálculo do preço de referência do petróleo para royalties e participações especiais,
  • mudanças no enquadramento da MMGD,
  • a criação de um procedimento concorrencial para acesso às redes,
  • novas obrigações de P&D para comercializadores,
  • regras adicionais para modelos de autoprodução,
  • flexibilizações na Licença Ambiental Especial (LAE) para hidrelétricas, entre outros.

A justificativa do Executivo enfatiza três eixos: modicidade tarifária, previsibilidade regulatória e evitação de judicialização.

Curtailment: veto evita repasse tarifário e retroatividade

Um dos vetos mais aguardados, e mais polêmicos, diz respeito ao dispositivo aprovado pela Câmara que ampliava a compensação financeira por cortes compulsórios de geração (curtailment), incluindo eventos externos ao ativo.

Na justificativa, o governo afirma que a medida transferiria aos consumidores os custos desses ressarcimentos, criaria incentivos à sobreoferta, e, ao prever ressarcimentos retroativos, poderia elevar significativamente as tarifas.

A posição do Planalto alinha-se à defesa histórica do Ministério de Minas e Energia (MME) e da Aneel de evitar a socialização ampla dos riscos operacionais.

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Royalties do petróleo: governo barra mudança no cálculo do preço de referência

O veto ao artigo que alterava a metodologia de cálculo do preço de referência do petróleo, fundamental para royalties e participações especiais, foi confirmado ainda durante a tramitação no Senado.

Segundo o despacho: “O dispositivo gera insegurança jurídica e risco de judicialização, bem como compromete investimentos de longo prazo no setor de óleo e gás.”

Empresas do upstream, especialistas regulatórios e membros da própria Esplanada consideravam que a mudança poderia elevar disputas judiciais e aumentar custos de forma desproporcional.

Autoprodução: governo veta critérios adicionais e proteção a estruturas já existentes

O Executivo vetou o trecho que restringia novos arranjos de autoprodução apenas a empreendimentos novos ou já integrantes de estruturas prévias.

A justificativa destaca que a medida poderia limitar a competitividade de consumidores industriais, criar barreiras de entrada, e introduzir insegurança jurídica para contratos vigentes.

A autoprodução responde hoje por parcela relevante da contratação no mercado livre, com impacto direto na competitividade de grandes cargas.

Mecanismos de risco e acesso às redes também ficam de fora

Outros vetos derrubaram propostas que mexiam no equilíbrio de responsabilidades operativas e regulatórias:

  • criação de mecanismo de compartilhamento de riscos operativos entre hidrelétricas, eólicas e solares;
  • estabelecimento de procedimento concorrencial para acesso aos sistemas de transmissão e distribuição;
  • novas obrigações de P&D para comercializadores;
  • enquadramento ampliado de centrais existentes como MMGD.

O governo justificou que tais dispositivos poderiam gerar instabilidade regulatória e distorções de mercado.

Licenciamento e responsabilidade individual de agentes públicos também foram vetados

Outro ponto derrubado foi o trecho que alterava a Lei de Improbidade Administrativa para responsabilizar individualmente agentes públicos que não tomassem medidas para garantir a segurança elétrica.

O Planalto classificou a mudança como juridicamente insegura, desproporcional e potencialmente prejudicial ao desempenho técnico de servidores. Também foi vetada a previsão de prazo especial para a análise da Licença Ambiental Especial (LAE) de hidrelétricas.

Setor elétrico reage e mira próximos passos: regulamentação e vetos a serem analisados pelo Congresso

Os vetos abrem nova frente de debate entre governo, Congresso, agentes do mercado e reguladores. A depender da articulação política, parte dos pontos poderá ser restabelecida, embora interlocutores do setor avaliem que vetos relacionados a impacto tarifário dificilmente serão derrubados.

A conversão da MP em lei, mesmo com cortes expressivos, mantém avanços em governança setorial, modernização regulatória e ajustes operacionais, mas deixa para 2026 discussões mais profundas sobre repartição de riscos, expansão da autoprodução e critérios de acesso à infraestrutura elétrica.

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